O mercado de mobilidade urbana no Brasil, antes concentrado nas capitais e dominado por grandes multinacionais, começa a se diversificar com o crescimento de startups regionais.
Ao oferecer soluções personalizadas e adaptadas às necessidades locais, essas empresas vêm conquistando espaço e transformando a forma como milhões de brasileiros se deslocam diariamente.
Segundo dados da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), mais de 65% das cidades brasileiras com menos de 500 mil habitantes ainda dependem fortemente do transporte individual e de sistemas de táxi. Nesse cenário, aplicativos de mobilidade se tornaram alternativa eficiente e acessível, sobretudo no interior, onde os serviços demoraram a chegar.
Foi nesse contexto que surgiram iniciativas como a Livre Tecnologia Ltda, fundada em 2018 em Minas Gerais. A empresa, criada por Marcos Rodrigues Gomes Junior, já acumula 23 milhões de corridas realizadas em cinco cidades brasileiras, com mais de 2.500 motoristas cadastrados. Diferentemente dos grandes players, a Livre priorizou a proximidade com a comunidade e a adaptação às especificidades regionais.
Para Marcos, a confiança foi a chave da expansão. “No início, havia muita resistência e até medo de experimentar o aplicativo. Decidi ser o primeiro motorista da plataforma para mostrar, na prática, que era seguro e que funcionava. Essa credibilidade foi o que nos permitiu conquistar usuários e motoristas no interior”, explica.
O modelo de negócio, construído sem aportes externos, se tornou exemplo de resiliência e inovação. Enquanto gigantes globais operam com estruturas de bilhões de dólares e forte investimento em marketing, startups regionais apostam na personalização do serviço e no relacionamento direto com passageiros e motoristas. O resultado, em muitos casos, é uma experiência mais próxima da realidade das cidades de médio porte.

De acordo com estudo da consultoria McKinsey, o mercado de mobilidade urbana deve movimentar globalmente US$ 1,4 trilhão até 2030, impulsionado por soluções digitais e novos modelos de transporte compartilhado. No Brasil, a previsão é de crescimento contínuo, com expansão tanto nas capitais quanto em cidades médias, que representam um mercado ainda pouco explorado.
A Livre Tecnologia já se prepara para dar o próximo passo: a expansão via franquias em outras cidades brasileiras e a entrada no setor de delivery, disputando espaço com empresas consolidadas como o iFood. A internacionalização também está nos planos da empresa para os próximos anos.
Especialistas apontam que a presença dessas startups reforça a importância de um ecossistema diversificado no setor. “A mobilidade não pode ser tratada como um modelo único. Cada cidade tem suas particularidades, e empresas locais conseguem enxergar isso de forma mais clara, entregando soluções sob medida”, avalia Marcos.
À medida que o mercado amadurece, o desafio das startups regionais será escalar seus modelos sem perder a conexão com a comunidade que as fez crescer. Se conseguirem manter essa proximidade, poderão não apenas coexistir com os grandes players, mas também transformar o mapa da mobilidade urbana no Brasil.