Bebê sequestrada em 1968 reencontra a família em 2025 – 06/12/2025 – Cotidiano

Mulher de meia-idade sentada em cadeira de metal ao lado de mesa com toalha xadrez e floral. Na mesa, quadro com foto de grupo familiar. Ambiente interno com parede cinza e porta de madeira ao fundo.

Uma dona de casa que foi sequestrada em 1968, quando tinha apenas sete meses de idade, reencontrou a família biológica 57 anos depois, na cidade de Casa Branca, no interior de São Paulo. Até então, Marta Regina Ribeiro viveu acreditando que tinha sido adotada em Guarulhos, na região metropolitana, após ser rejeitada pela mãe biológica.

A investigação que resultou nessa história foi feita ao longo de seis anos pelo repórter da Folha que assina este texto, Jonas Santana, filho de Marta. Ela conta em depoimento ao jornal como descobriu ter outro nome e outra família, que nunca desistiu de, um dia, encontrá-la.

“Sou Marta Regina Ribeiro e até pouco tempo achava que tinha nascido na cidade de Guarulhos, onde cresci. Desde sempre, a minha história –contada por meus pais adotivos– era de uma menina que tinha sido rejeitada, agredida e abandonada pela minha mãe biológica quando tinha sete meses de idade, em 1968. Por essa razão, nunca tive interesse em revisitar essa história. Até que meu filho caçula, Jonas, que desde criança me questionava sobre minha família biológica, passou a querer conhecer nossa raiz.

Era um caminho tortuoso. A minha certidão de nascimento foi feita quando eu já tinha dez anos de idade. A família que me criou não me adotou legalmente, apenas ficou com minha guarda. Por isso, nos meus documentos, ainda tenho o nome de quem eu achava que eram meus genitores.

As informações eram muito poucas. A história só começa a surgir quando eu e meu filho conseguimos desarquivar o meu processo de adoção, que detalha como cheguei à família que me criou.

Anexado a esse processo havia um boletim de ocorrência narrando aquele momento traumático de quando fui abandonada: uma mulher chamada Jandira Ribeiro havia sido detida pela polícia por abandono e maus-tratos, em 4 de fevereiro de 1968. Embriagada, ela declarou à polícia que eu, Marta, com sete meses de idade, era sua filha, mas que já não tinha a intenção de me criar. Essa versão batia com a história que eu ouvi a vida toda.

Minha família de criação contava que tive mal de simioto, quadro infantil de desnutrição crônica, e fiquei em observação no Pronto Socorro Municipal de Guarulhos logo após o episódio narrado pelo boletim de ocorrência. Dias depois, o motorista da ambulância daquela unidade de saúde me levou para casa e me ofereceu a um casal vizinho, que decidiu me adotar.

No dia 12 de fevereiro de 1968, eles foram até a delegacia para oficializar a adoção. Mas saíram de lá apenas com a guarda provisória, pois a Jandira sumiu logo após ter sido liberada. Nunca mais souberam nada sobre ela.

Com o processo de adoção em mãos e detalhes sobre a Jandira, meu filho passou a buscar mais informações na internet e conheceu o site FamilySearch, gerido pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e que possui a maior coleção de registros genealógicos do mundo.

No acervo, Jonas encontrou alguns documentos com o nome de Jandira registrados na cidade de Casa Branca (SP). Entrou em grupos do município no Facebook e fez uma publicação questionando se alguém a teria conhecido nos anos de 1960.

No mesmo dia, uma jovem chamada Tamiris Santa Rosa respondeu dizendo que existiu uma Jandira que teria roubado a filha de sua avó. Ao conversarem, perceberam algumas incoerências, a começar pelo nome. A bebê roubada se chamava Sônia.

Durante esses anos, meu filho sempre compartilhou comigo que estava chegando perto de conhecer minha família biológica, mas isso nunca se concretizava.

As conversas por meio de mensagem de áudio continuaram e, aos poucos, minhas expectativas foram aumentando. Tamiris, após falar com a mãe e as tias, contou que a bebê roubada se chamava Sônia Maria Rodrigues, nascida em junho de 1967. Naquela época, os pais biológicos, Maria Aparecida Pereira Rodrigues e Sebastião Rodrigues, tinham sete filhos.

Segundo familiares, no início do ano de 1968, Maria Aparecida foi com os filhos a uma Folia de Reis, evento tradicional da cidade, em um parque. Ela também estava acompanhada de uma amiga chamada Jandira Ribeiro.

Durante o evento, a bebê Sônia começou a chorar, o que fez Aparecida cogitar o retorno antecipado para a casa. Mas a amiga se prontificou a ficar com a bebê para que a mãe pudesse olhar os outros filhos na festa. Depois disso, a família de Casa Branca nunca mais viu a criança de colo nem Jandira.

Jonas então mandou uma foto minha à Tamiris, que compartilhou com a família dela. “Parece que estou vendo a mãe!”, disse Marilda, filha de Aparecida.

Um teste genético tirou todas as dúvidas ao apontar compatibilidade: eu sou Sônia, a bebê roubada. Minha verdadeira mãe é Maria Aparecida.

A família de Casa Branca contou que a minha mãe ficou desesperada com o meu desaparecimento. O episódio traumatizou a todos. Maria Aparecida Pereira Rodrigues morreu aos 56 anos, em 1988, de insuficiência respiratória aguda após anos de depressão.

Meu pai, Sebastião Rodrigues, morreu em 2005.

Atualmente, tenho seis irmãos vivos. Eles contam que logo após o meu sumiço, minha mãe entrou em contato com a polícia da cidade, que registrou um boletim de ocorrência contra Jandira. Além de procurar por conta própria, perguntando a pessoas em cidades próximas, visitava todos os dias a delegacia em busca de atualizações sobre as buscas.

Porém, após três meses, por não evoluir na investigação, os policiais teriam desistido de investigar o meu desaparecimento. Em 2025, ao ser questionada, a delegacia de Casa Branca informou que nenhum documento do episódio foi encontrado.

Em abril, retornei à Casa Branca após 57 anos e conheci minhas irmãs Vera, Rosilda, Marilda e Rosângela, além de sobrinhos e uma enorme família com uma recepção emocionante.

Logo quando nasci, meus pais me registraram no cartório e a minha certidão foi encontrada. Por isso, dois meses depois, meus filhos e minhas irmãs alugaram uma chácara para comemorar pela primeira vez o meu aniversário na verdadeira data de nascimento. O evento, que teve como tema festa junina, também comemorou o aniversário de 60 anos da minha irmã Rosilda, que tinha apenas dois anos quando fui levada.

Ainda não sei se legalmente vou assumir a identidade de Sônia devido à burocracia que envolveria esse ato. Caso faça isso, os documentos de todos os meus cinco filhos e três netos precisariam de alterações no sobrenome, no nome da mãe e dos avós maternos. O que seria um grande problema para todos nós.

Não se sabe o que aconteceu com Jandira após ter sido liberada pela delegacia em 1968. Alguns parentes dela foram encontrados por Jonas entre 2023 e 2025. Eles comentaram que ela era uma andarilha e já teria morrido há muito tempo, mas não se encontrou nenhum documento que certificasse isso.”



Fonte ==> Folha SP

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