A tecnologia e a IA (Inteligência Artificial) estão interferindo no brincar e na imaginação das crianças, diz Adriana Schutte, diretora de marketing da Mattel para a América Latina.
Em entrevista à coluna Maternar, ela afirma que a tecnologia traz um senso de urgência e velocidade que afetam o dia a dia das famílias e diminuem o tempo de brincadeira na infância, o que tem preocupado pais.
Pesquisa da empresa mostra que 6 em cada 10 famílias sentem que a tecnologia compete cada vez mais com as brincadeiras, mas não sabem o que fazer. Para resgatar a capacidade lúdica, Adriana recomenda 20 minutos de brincadeiras guiadas por dia em família para que volte a se criar conexão entre crianças, adolescentes e adultos.
Qual a importância do brincar para crianças, adolescentes e adultos, e como a brincadeira deve ser adaptada conforme a idade?
Brincar é muito mais do que uma atividade, é uma necessidade humana. O estudo The Shape of Play, da Mattel, mostra que 90% dos pais acreditam que brincar é essencial para o desenvolvimento emocional, e 8 em cada 10 afirmam que brincar aproxima as gerações. Para as crianças, brincar é literalmente uma forma de aprender, onde elas ganham confiança, expressam emoções e descobrem quem são. À medida que crescem, o brincar muda de forma, mas não de importância.
Na adolescência, brincar se torna um espaço de expressão, identidade e autonomia. É quando a criatividade encontra desafios mais complexos, com personalização, construção e experiências que lhes permitem sentir-se protagonistas. E para os adultos, brincar é uma reunião. É desligar o piloto automático, criar memórias com aqueles que amamos, reviver histórias da infância ou simplesmente ter um momento de descontração. Não é por acaso que o relatório mostra que 70% dos adultos gostariam de ter mais tempo para brincar, porque brincar nos humaniza em qualquer idade. É por isso que incentivamos todos a reservarem 20 minutos de brincadeiras intencionais para despertar alegria, conexão e bem-estar.
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O que mudou no brincar e nas brincadeiras nos últimos anos e como tecnologia, pandemia e IA (Inteligência Artificial) interferiram nisso?
As transformações dos últimos anos afetaram profundamente o espaço para brincar. O estudo The Shape of Play revela que o tempo livre das crianças diminuiu em quase todos os países analisados e que 63% das famílias sentem que a tecnologia compete diretamente com as brincadeiras tradicionais.
A pandemia acelerou esse processo. As telas se tornaram escola, amigos e entretenimento. Desde então, muitas famílias ainda estão tentando encontrar um equilíbrio. A tecnologia e a IA trouxeram novas possibilidades, como brinquedos mais responsivos, experiências híbridas e conteúdo mais personalizado, mas também trouxeram uma urgência, uma velocidade, que às vezes sufoca o tempo para a imaginação. O brincar tornou-se mais guiado, mais assistido, menos espontâneo. O desafio atual é justamente devolver espaço ao brincar aberto, aquele que surge da curiosidade, do erro e da criação conjunta.
A pesquisa mostra que o brincar está sob pressão. Quais as pressões e como mudar isso?
Sim, o brincar está sob pressão. E isso fica muito claro no estudo global da Mattel. Três fatores se destacam. Falta de tempo: 75% dos pais afirmam que a rotina familiar é tão agitada que sobra pouco tempo para brincar. Pressão das telas: 60% afirmam que seus filhos passam mais tempo do que gostariam em dispositivos eletrônicos. Pressão pela produtividade: as famílias relatam que, cada vez mais cedo, as crianças têm agendas tão cheias quanto as dos adultos.
Mas há um ponto de esperança. O mesmo estudo mostra que, quando as famílias reservam intencionalmente 20 minutos para brincar juntas, o nível de conexão emocional aumenta. A mudança começa aos poucos: desligar as telas por alguns minutos, reservar um momento do dia ou da semana, transformar a brincadeira em um ritual. Quando vista como uma prioridade, em vez de ‘tempo livre’, a brincadeira volta a florescer.
Como usar as brincadeiras para conexão, especialmente com adolescentes?
Com adolescentes, o brincar se torna uma ponte. É um espaço seguro onde eles podem se expressar, rir, experimentar e, ao mesmo tempo, se aproximar dos adultos sem pressão. O relatório mostra que 61% dos pais afirmam que é durante o brincar que seus filhos conversam com eles de forma mais espontânea.
Para essa faixa etária, o segredo não é o tipo de jogo, mas a atitude. Eles querem autonomia. Eles querem lideraruerem , qsentir que o adulto está lá como um parceiro, não como um supervisor. Jogos de construção mais complexos, desafios criativos, personalização, corridas, jogos de tabuleiro estratégicos, experiências que misturam o físico e o digital, tudo isso funciona bem, mas o mais importante é a vontade de participar juntos. Quando isso acontece, o brincar se torna conexão. E a conexão se torna confiança.
A Mattel consolidou sua importância no brincar e nos brinquedos ao longo dos anos. O que é mais importante ao escolher um brinquedo e como a empresa pesquisa novidades para oferecer ao mercado?
A Mattel tem 80 anos de história e um objetivo, inspirar a imaginação, a alegria e o desenvolvimento infantil. Escolher um brinquedo é escolher uma experiência e, muitas vezes, uma memória emocional.
Três critérios são muito úteis ao escolher um brinquedo. Idade e adequação ao desenvolvimento, com brinquedos que ofereçam o nível certo de desafio e estimulem habilidades. Qualidade e segurança, que são compromissos inegociáveis. Potencial de conexão, com brinquedos que inventam histórias, brincadeiras compartilhadas, construção e imaginação.
Para inovar, a Mattel investe continuamente em pesquisas com famílias, especialistas e tendências culturais. O estudo Shape of Play é um exemplo disso, ele nos ajuda a entender como as famílias brincam hoje, o que está mudando, o que está funcionando e onde estão as lacunas emocionais nas brincadeiras.
As equipes de design e desenvolvimento também realizam testes com crianças, observação comportamental, cocriação com os pais e análise de tendências globais, desde tecnologia até movimentos culturais, como nostalgia e ‘kidulting’ [movimento no qual adultos consomem produtos de criança]. O objetivo é sempre o mesmo, criar brinquedos que façam sentido hoje, mas que também tenham o potencial de acompanhar gerações.
A IA entrou nos brinquedos? Em quais? Auxilia ou pode atrapalhar por excesso de tecnologia? Quais as recomendações sobre brinquedos com IA?
Sim, a IA já está presente em algumas categorias da indústria de brinquedos, especialmente aquelas que envolvem interatividade e personalização. Ela pode enriquecer a brincadeira, criar respostas inteligentes, expandir narrativas, facilitar o aprendizado e permitir que as crianças participem de histórias mais imersivas.
Mas, como tudo na vida, é preciso equilíbrio. O estudo The Shape of Play revela que 54% dos pais estão preocupados com o fato de que brinquedos altamente tecnológicos reduzam a criatividade espontânea das crianças. Nossa visão na Mattel é simples. A tecnologia deve abrir portas, não fechá-las. Ela deve apoiar a imaginação, não substituí-la.
Nossa recomendação geral é escolher brinquedos com IA que ofereçam espaço para a criação, não apenas para o consumo; alternar brincadeiras tecnológicas com experiências manuais, de construção, narrativas e de movimento; observar se o brinquedo incentiva a autonomia ou ‘faz tudo sozinho’ e usar a tecnologia como aliada para enriquecer a brincadeira, não como o centro absoluto da experiência.No final das contas, a IA pode ser uma ótima parceira, desde que a essência seja mantida. Brincar é humano, relacional e emocional.
Fonte ==> Folha SP
