Escala um para um. Antonio Dias anotou essa legenda ao descrever seu quadro “Anywhere Is My Land”, um retângulo preto de quase dois metros de largura em que finíssimas linhas dividem todo o espaço em quadrados iguais —cada um deles encerra respingos de tinta branca. Seriam constelações de estrelas mapeadas no espaço, não fosse a dimensão apontada pelo artista, o tal um para um.
O corpo do espectador é deslocado para o vácuo sideral ao mesmo tempo em que não sai do lugar, um homem em frente a um quadro. Esse trabalho é considerado um dos pontos de partida da fase mais radical —e de beleza mais feroz— na obra do artista que foi um dos pilares da cena do país ao longo do século passado.
Quase uma década depois de sua morte, outros trabalhos da mesma série de suas chamadas pinturas negras estão juntas agora numa mostra na galeria Gomide&Co, em São Paulo, um conjunto raríssimo. Era a sua arte negativa para um país negativo.
Dias estava no exílio quando criou essas obras na virada da década de 1960 para os anos 1970. No rastro do AI-5, o momento mais violento da ditadura militar no país, fugiu para Paris e depois se radicou em Milão. O calor dos protestos de 1968 na capital francesa inflama ainda mais essas obras já moldadas pelo horror à brasileira, campos minados, jaulas e prisões virados do avesso para lembrar céus estrelados.
Esse embate violento entre escalas, o íntimo contra o infinito, atravessa todos esses trabalhos. Dias constrói narrativas impossíveis, enigmáticas, com o que parece ser nada. Fala do cerco à liberdade, do pavor do desconhecido, da descrença no futuro, da dor do exílio, a tal ideia de que qualquer terra é minha terra, tudo isso enquanto repensa a superfície física da pintura, revolve as entranhas do que entendemos como arte.
Na mostra da galeria na avenida Paulista, organizada por Gustavo Motta com arquitetura do artista Deyson Gilbert, a montagem torna isso explícito. Do lado de fora, uma grande caixa bloqueia a visão, anulando a ideia de vitrine do espaço envidraçado. É um eco do pensamento de Dias, que queria não retratar a realidade, mas fazer da imagem coisa mental, construída pelo espectador a partir de uma arena vazia.
É também um dispositivo brechtiano, a caixa que trouxe a pintura bloqueia a vista da própria pintura, deixando claras as engrenagens materiais do sistema da arte, do mercado e seus movimentos. Não estamos na esterilidade do cubo branco, por mais que as obras do artista nos iludam com os mais belos vazios, válvulas de escape do ar irrespirável de sua época e também do nosso presente asfixiante.
O quadro escondido, carro-chefe da mostra, é também uma das maiores pinturas já realizadas por Dias e dá nome à exposição. “Image + Mirage” é um enorme retângulo branco com duas linhas que se cruzam no meio da tela, que tem no alto a palavra “image” e embaixo, “mirage”. Imagem se confunde com miragem no fogo cruzado disposto bem no centro da imensidão vazia.
Dias resume nessa obra toda a sua estratégia visual, aquilo que chamava de “não-pintura”, a obra como “instrumento para uma ação mental que coloca o espectador em condições de realizar a sua própria interpretação da realidade”. Mas também fala da realidade que ele interpretava.
Na condição de uma imagem ausente, o branco ameaçador do quadro, a miragem, impera. Estamos no deserto, enganados por fantasmas. E somos o alvo, a cruz que é também a mira de uma arma. Não é um detalhe tão ao acaso que Mirage é também o nome dos caças de guerra franceses, mais rápidos que a velocidade do som, usados em conflitos armados até hoje —a delicadeza brutal dessa série está nesse choque de realidades.
É coisa que gruda na pele, o artista não deixa de repetir sem tanto mostrar. Nesse sentido, dois trabalhos da mostra parecem estar nos opostos extremos desse espectro, um painel de pinturas e um filme-performance.
O primeiro deles é uma série de quadros esbranquiçados, com respingos de tinta preta terminando com um quadro preto de respingos brancos, sendo que um deles está faltando, onde está escrito “isolation”, ou isolamento. Os outros, numa progressão que lembra os fotogramas de um filme, um “storyboard” abstrato, têm as palavras “cell”, “flesh”, “skin” justapostas a “pattern”, “image”, “vision”, ou seja, célula, carne, pele e estampa, imagem, visão. Esse conto termina com o preto “universe”, o universo inteiro que sublinha o tal isolamento.
O segundo é um filme que mostra uma ferida aberta na própria pele, coberta com duas fitas de esparadrapo na forma da cruz, ou do alvo. A cena avança com a carne viva e exposta voltando a ser pele branda, a cicatriz como superfície da imagem e presença física no celuloide.
Dias faz da imagem não um espetáculo, mas uma construção no nível da cicatriz, o rastro de uma violência que separa o mundo plácido das arquiteturas cósmicas da imaginação da carnificina real de vísceras em convulsão, bombardeios e explosões. É a imagem enquanto reparação, o vazio de um deserto que pode esconder oásis cristalinos ou feras famintas.
Isso fica nítido noutra obra da mostra, o chamado quadrado do terror, porque é um quadrado branco pintado sobre fundo preto, mas poderia ser também a praça do terror, na dubiedade do inglês que usou como língua franca. Na tal praça, está delimitado no centro o espaço reservado a uma pantera rodeado por nada menos que escuridão. A dúvida é quem tem mais fome, se o bicho cercado ou aqueles no breu do desterro.
O artista dá uma pista no último quadro da exposição, uma sucessão do que parecem ser quadrados iguais tingidos de um vermelho tímido, todos com a palavra “hungry”, ou faminto, repetidos, o filme da exasperação. Seria o mapa da fome do Brasil, a denúncia da indigência, a vista aérea dos lotes de terra vermelha na construção de Brasília que o jornalista italiano Alberto Moravia chamou de bifes ensanguentados no balcão de um açougueiro. Antonio Dias, na secura e na fissura dessas obras, no fundo desvelava uma dor que cala fundo na carne, tudo sob a mais alva das peles de um charme minimalista.
Fonte ==> Folha SP
