Medo de altura – HOJE BAHIA

Medo de altura - HOJE BAHIA

Hoje, no buteco da Taís, ouvi um jovem falar para um não tão jovem:

– Eu nasci baixinho assim porque tenho medo de altura.

Ambos caíram na gargalhada, mas eu não. Tenho um metro e setenta de altura, mais ou menos igual ao jovem que se acha nanico. Mas o que justifica estas linhas não é o meu um metro e setenta, é o medo de altura.

Confesso ter pavor de alturas superiores à de uma cadeira. Desde a infância, passando pela adolescência e chegando, sem cerimônia, à velhice. Lembro que, lá pelos meus já muito distantes doze anos, a turma de amigos tinha o péssimo costume de subir pelos fundos da Concha Acústica do Teatro Castro Alves e, lá do alto, uns vinte ou vinte e cinco metros acima do chão, olhar para baixo, do lado do palco. Eu ia. Ia e tremia de medo, mas precisava comprovar a tal “coragem”.

Naquela idade, a pior coisa que podia acontecer a um menino era ouvir dos colegas a sentença: “Amarelou!”. Então a gente subia. Não porque fosse valente, mas porque tinha mais medo da gozação do que do precipício.

Chegava à beirada fingindo uma tranquilidade digna de ator premiado. Por dentro, porém, minhas pernas travavam uma conversa desesperada entre si. O pé direito queria voltar. O esquerdo concordava. O resto do corpo apenas obedecia à lei da gravidade, que parecia me puxar pelo colarinho.

Nunca entendi aquela mania de olhar para baixo. O chão sempre esteve exatamente onde deveria estar. Não havia nenhuma novidade nele. Mesmo assim, meus amigos insistiam em contemplá-lo como quem admirava uma obra de arte. Eu preferia contemplar o céu. Era mais distante e oferecia bem menos risco.

Os anos passaram e descobri que coragem nunca foi ausência de medo. Coragem é fazer a travessia apesar dele. O problema é que, no meu caso, algumas travessias são perfeitamente dispensáveis. Não sinto a menor necessidade de provar bravura em mirantes sem guarda-corpo, sacadas envidraçadas, pontes pênseis ou brinquedos de parque de diversões que prometem “uma emoção inesquecível”. Acredito. Justamente por isso não vou.

Hoje, quando alguém me convida para apreciar uma vista panorâmica do alto de um edifício, respondo que prefiro prestigiar a arquitetura do térreo. É uma posição filosófica. O mundo continua igualmente bonito visto de baixo, com a vantagem de que a pressão arterial agradece.

Talvez aquele rapaz do buteco estivesse certo. Talvez alguns de nós realmente nasçam baixinhos por medo de altura. Eu, infelizmente, cresci um metro e setenta. Foi altura suficiente para descobrir que o verdadeiro abismo não está entre nossos pés e o chão, mas entre a coragem que exibimos aos outros e o medo que escondemos de nós mesmos.

Ainda assim, toda vez que vou na Concha Acústica, olho para o alto e sorrio. Não porque tenha vencido o medo. Isso seria exagero. Sorrio porque sobrevivi à adolescência – fase em que a gente sobe onde não quer, faz o que não gosta e chama isso de coragem.

Depois de velho, aprendi uma lição bem mais confortável: a verdadeira coragem também sabe dizer “não”. Sobretudo quando o “sim” fica vinte e cinco metros acima do chão.



Fonte ==> Bahia Notícias

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