Ontem à noite, enquanto aguardava, na Internet, o início do jogo do Cruzeiro contra o Flamengo, me deparei com uma frase de Agatha Christie. Ela disse uma coisa que, à primeira vista, pareceu-me conselho de vovó Dedé:
Case-se enquanto é jovem, porque, à medida que envelhece, você se torna mais sábio.
Li a frase duas vezes. Na primeira, achei bonita. Na segunda, comecei a desconfiar.
Porque, se entendi direito, Agatha está sugerindo que o casamento deve acontecer antes que a sabedoria chegue. E isso me parece bastante razoável. Afinal, se a pessoa, ainda jovem, adquirir juízo antes de casar, corre sério risco de nunca mais assinar o dito cujo contrato.
Imagine o sujeito aos vinte e cinco anos. Apaixonado, derramando hormônios pelos poros, muita coragem e uma preocupante incapacidade de enxergar defeitos.
A moça pergunta:
– Você me ama?
Ele responde:
– Mais que tudo, minha filha!
E casa.
Aos cinquenta, depois de duas décadas e meia de convivência, ocorre a mesma pergunta:
– Você me ama?
Ele pensa. Olha para a mulher. Olha para a televisão. Olha para o boleto da geladeira nova. E responde:
– Claro que amo.
Só que agora ele sabe exatamente o que significa a palavra amo. É aí que reside a sabedoria.
A juventude casa com a esperança de que o outro mude. A maturidade descobre que ninguém muda. No máximo, troca de senha do celular.
O jovem entra no casamento pensando:
Ela vai aprender a gostar de futebol.
A mulher entra pensando:
Ele vai aprender a guardar a roupa no armário.
Vinte anos depois, os dois descobrem que nenhum dos dois aprendeu coisa nenhuma. Ele continua assistindo futebol. Ela continua reclamando de tudo.
E ambos, de maneira muito sábia, chegaram à conclusão de que é melhor não mexer no que está funcionando.
O casamento, aliás, é uma instituição curiosa. Começa com duas pessoas dizendo:
Eu não consigo viver sem você.
E depois de alguns anos transforma-se em:
Você vai sair? Então compre pão.
Talvez seja por isso que reconheço: Agatha Christie tem razão.
É preciso casar antes que a sabedoria nos alcance. Porque a sabedoria é inimiga do casamento impulsivo. O sábio começa a fazer perguntas:
Será que somos realmente compatíveis?
Será que nossos projetos de vida combinam?
Será que essa pessoa respeitará minhas manias?
Será que eu conseguirei conviver com alguém que aperta o tubo de pasta de dentes pelo meio?
Pronto. Acabou o romance. Ninguém casa depois de fazer uma pesquisa dessas.
O amor, para funcionar, precisa de uma certa dose de cegueira. Não é à toa que os apaixonados dizem:
Ele é perfeito.
Ela é maravilhosa.
Não tem defeito.
E os amigos, que não estão apaixonados, ficam olhando uns para os outros com aquela expressão de quem acaba de ouvir uma notícia preocupante.
Depois vem o casamento. E, aos poucos, a cegueira desaparece. A pessoa começa a enxergar. Descobre que ele ronca. Que ela demora quarenta minutos para escolher uma roupa. Que ele tem o hábito inexplicável de guardar objetos que ninguém mais sabe para que servem. E que ela, por sua vez, guarda embalagens vazias porque um dia podem ser úteis.
O casamento é o lugar onde duas pessoas passam a vida tentando entender por que a outra faz coisas que qualquer pessoa normal jamais faria.
E, depois de alguns anos, ocorre o milagre. Você para de tentar entender.
Isso também é sabedoria.
Talvez seja essa a grande sacada de Agatha Christie. Quando somos jovens, casamos porque acreditamos que sabemos tudo sobre o amor. Quando envelhecemos, percebemos que não sabemos absolutamente nada. E, curiosamente, é justamente aí que aprendemos a amar. Porque o amor maduro já não exige perfeição.
Aceita o ronco.
O mau humor.
As manias.
As pequenas implicâncias.
Aceita até aquele sujeito que passa cinco minutos procurando os óculos enquanto eles estão na cabeça.
E talvez o casamento seja exatamente isso: duas pessoas que começaram acreditando que encontrariam a felicidade uma na outra e terminaram descobrindo algo muito mais importante – que felicidade não é encontrar alguém perfeito.
É encontrar alguém com quem seja possível envelhecer sem precisar fingir que somos o suprassumo da perfeição.
Agatha Christie estava certa. Case-se enquanto é jovem. Antes que você fique sábio demais para isso.
Porque, depois que a sabedoria chega, você começa a perceber que casamento dá trabalho, custa dinheiro, exige paciência e inclui uma pessoa que, invariavelmente, terá opiniões diferentes das suas sobre absolutamente tudo.
E aí, meu amigo, já era.
Você ficou sábio.
E gente sábia, como se sabe, pensa duas vezes antes de casar.
O problema é que, no amor, quem pensa duas vezes invariavelmente perde a vez.
Em tempo: o jogo terminou, também, no um a um!
Fonte ==> Bahia Notícias
