Gu-cheon, um caçador de fantasmas solitário e rebelde, afunda em um lago para tirar a própria vida. É assim que ele entra no mundo dos espíritos —semelhante ao mundo invertido de “Stranger Things”—, onde luta contra criaturas macabras usando uma espada. Cada viagem, no entanto, consome sua energia yang, positiva.
O caminho dele cruza com o da princesa Saeng-gang, que tem yang em demasia. Ela também é dotada de habilidades xamânicas e consegue ouvir os mortos, mas é forçada a escondê-las. A dupla recebe a missão do rei de se livrar do “fantasma do lago”, que matou todos os príncipes do palácio no passado e volta prometendo exterminar a linhagem real.
A trama guia “A Leste do Palácio”, k-drama lançado pela Netflix no mês passado. O novo investimento do streaming foge das comédias românticas, o gênero favorito no Brasil das séries sul-coreanas. A tensão cresce entre os personagens ao longo dos oito episódios, mas não é o foco. No lugar, a produção combina fantasia e drama histórico, categorias também populares.
“As pessoas se sentem atraídas pelos elementos de fantasia e sobrenaturais porque eles permitem que cada espectador use a própria imaginação”, avalia o ator Nam Joo-hyuk. Ele dá vida ao protagonista, que odeia o dom de transitar entre os dois mundos, motivo pelo qual sempre foi temido por todos ao redor.
“Acho que pensamos muito nessas coisas, né? Deixamos a imaginação correr solta. Pensamos: ‘E se isso tivesse acontecido no passado?'”, completa Roh Yoon-seo, atriz que faz a princesa destemida. “O gênero de fantasia permite que essas perguntas ganhem vida. Além disso, são coisas que jamais esperaríamos que acontecessem na vida real. Existe uma alegria em poder vê-las ganhar forma visualmente.”
A série traz ainda pitadas de terror, o que provoca alguns sustos, e joga holofote no xamanismo. O conjunto de práticas ancestrais aparece com frequência em produções mainstream da Coreia do Sul —até em “Guerreiras do K-pop”—, mas não é familiar entre o público brasileiro.
O xamanismo é algo enraizado na cultura coreana, afirma Roh. “Por isso, acho natural que as pessoas tenham curiosidade. Ele tem muitos elementos capazes de despertar a curiosidade.”
Seu colega de cena credita a popularização do tema à “Lendas da Cidade Natal”, de 2009. “É uma série lendária à qual todos nós assistíamos enquanto crescíamos. Tudo o que vimos acabou se expandindo e evoluindo para muitos dos diferentes projetos que abordam o xamanismo hoje em dia”, explica.
Ele conta: “Pensar que aquele garotinho que assistia ao programa na TV, morrendo de medo das histórias de fantasmas, agora cresceu e é protagonista de uma série como ‘A Leste do Palácio’ é muito divertido”.
O personagem de Gu-cheon funciona como um professor para o público leigo, ao abordar os diferentes tipos de entidades e rituais. Ele explica, por exemplo, que um ak-gwi nasce quando alguém que carrega um carma pesado morre. Há outros “gwi”, como o won-gwi, alma incapaz de seguir adiante porque o ressentimento se fincou nela e que só é libertada quando a origem do problema é confrontada.
Um bicho que parece um ursinho de pelúcia meio macabro e meio fofo, com olhos grandes e corpo rechonchudo, segue o caçador e atua como alívio cômico. É um gwi-mae do tipo ggeomeoksali, espírito formado por energia negativa (yin) que se alimenta do yang das pessoas.
As almas penadas e outras entidades acabam usadas como peças no jogo de poder da família real, que briga pela sucessão do trono. Elas se proliferam pelo palácio, carregado de yin devido às intrigas e assassinatos que ocorreram ali no passado. No comando está um rei que mata quem precisa, incluindo os próprios parentes, para manter seus segredos escondidos.
Os atores veem com surpresa a febre dos k-dramas pelo globo nos últimos anos. Para Nam, esse sucesso se deve ao interesse de tanta gente por tudo o que é coreano. “Isso nos traz um grande senso de responsabilidade”, ele pondera. “Acredito que essa responsabilidade despertou em nós uma paixão ainda maior, uma vontade genuína de apresentar os melhores projetos ao restante do mundo.”
Segundo Roh, o k-pop desempenhou um papel fundamental em abrir caminho para muitos se interessarem pela k-cultura. “Saber de todo esse carinho no mundo inteiro por tudo o que nós, coreanos, criamos me deixa muito orgulhosa”, ela conta.
A atriz de 26 anos estreou em 2022 e, apesar de recente, tem construído uma carreira elogiada, destacando-se em séries e filmes como “Intensivão de Amor” (2023) e “Garota do Século 20” (2022).
A novidade da Netflix era aguardada por marcar o retorno de Nam Joo-hyuk após o serviço militar obrigatório. Seu último trabalho foi em “Vigilante”, de 2023. Ele ganhou fama por títulos como “Vinte e Cinco, Vinte e Um” e “Fada do Levantamento de Peso, Kim Bok-joo”.
“Quando você está no Exército, isso te dá muito espaço mental para refletir sobre muitas coisas”, ele conta, e diz ter se questionado como gostaria de viver a fase dos 30 anos —hoje, está com 32.
O ator cita a maneira como a série “aguça a imaginação” e as “ótimas cenas de ação” o atraíram ao papel. “Não foi uma questão de pensar: ‘Quero fazer isso?’ Foi mais como: ‘Não há nenhum motivo para eu recusar um projeto como este’.”
“A Leste do Palácio” virou um dos hits do ano, conquistando tanto o público internacional quanto o coreano. O final deixa espaço para uma segunda temporada —algo incomum nos k-dramas. O streaming, porém, ainda não se pronunciou sobre uma continuação.
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Fonte ==> Folha SP
