Geração ansiosa

Parte – 1 Como chegamos a uma sociedade que desaprendeu a desacelerar

Há alguns anos venho observando uma mudança que aparece tanto nas conversas cotidianas quanto no consultório, nas salas de aula e nos ambientes profissionais. Pessoas muito diferentes entre si começam a descrever sensações parecidas. A cabeça não para. Há dificuldade para descansar sem culpa, uma necessidade quase automática de verificar o celular, antecipação constante de problemas e uma impressão persistente de que existe alguma coisa atrasada, mesmo quando não existe.

A ansiedade não nasceu agora, evidentemente. Seria um erro começar por aí.

Ela faz parte de nossa constituição biológica e teve importância decisiva para a sobrevivência humana. Diante de uma ameaça, precisamos reagir antes de elaborar longamente o que está acontecendo. O organismo mobiliza recursos, aumenta a vigilância, prepara o corpo para responder. Esse mecanismo continua existindo e continua sendo necessário.

O que mudou foi o ambiente em que ele opera.

Grande parte das ameaças que mobilizam o homem contemporâneo já não está diante dele. Está na possibilidade. No emprego que talvez seja perdido, na conta que poderá não ser paga, na doença que pode aparecer, na resposta que ainda não chegou, na expectativa do outro, no julgamento social, na carreira que parece não avançar na velocidade esperada. O acontecimento muitas vezes nem ocorreu, mas o organismo já começou a responder a ele.

Essa diferença merece atenção porque ajuda a compreender uma característica importante da ansiedade contemporânea. Somos capazes de sofrer antecipadamente por cenários que existem apenas como hipótese. E fazemos isso repetidas vezes.

Talvez o problema de nossa época não seja simplesmente haver mais motivos para ansiedade. Não sei se essa comparação histórica poderia sequer ser feita de maneira tão simples. Nossos antepassados enfrentaram fome, epidemias, guerras, mortalidade infantil e condições de vida que dificilmente chamaríamos de tranquilas. A diferença parece estar também na continuidade dos estímulos. A ameaça moderna pode ser menos concreta, mas encontrou meios de nos acompanhar durante praticamente todo o dia.

Uma mente que raramente fica sozinha

O telefone celular talvez seja o exemplo mais evidente dessa transformação, embora não seja sua única causa.

Acordamos e, muitas vezes antes de levantar-se da cama, entramos em contato com mensagens, notícias, cobranças, publicidade, conflitos, opiniões e acontecimentos ocorridos enquanto dormíamos. Em poucos minutos sabemos de uma guerra do outro lado do planeta, da crise política, da tragédia de alguém que nunca conhecemos, do sucesso profissional de um conhecido e das férias aparentemente perfeitas de outra pessoa.

Nada disso é necessariamente ruim quando considerado isoladamente. O problema começa na quantidade, na frequência e na ausência de intervalo.

Durante boa parte da história humana, havia momentos inevitáveis de baixa estimulação. Esperava-se. Caminhava-se sem consumir conteúdo. Fazia-se uma refeição sem uma tela ao lado. Uma fila era apenas uma fila. O silêncio não precisava ser preenchido imediatamente.

Hoje, qualquer espaço vazio pode ser ocupado em segundos.

Essa disponibilidade permanente de estímulo modificou nossa relação com o tédio, com a espera e, de maneira mais profunda, com a própria atenção. Quando nos habituamos à sucessão rápida de novidades, permanecer em uma única atividade durante muito tempo passa a exigir um esforço que antes talvez não percebêssemos.

Existe ainda outro aspecto. O aparelho que usamos para conversar com nossos filhos, trabalhar e falar com pessoas queridas é o mesmo que nos entrega notícias alarmantes, cobranças profissionais e comparações sociais. Os contextos se misturaram.

O trabalho entra em casa. A casa entra no trabalho. A notícia entra no jantar. A discussão política entra no quarto. E a mente precisa administrar tudo isso sem uma fronteira muito clara dizendo, agora terminou.

Em muitos casos, não termina.

A pandemia não criou tudo isso, mas acelerou muita coisa

Quando a pandemia começou em 2020, vários processos que já estavam em curso foram comprimidos em um período muito curto.

De repente, o que parecia relativamente previsível deixou de ser. Havia medo da doença, preocupação com familiares, isolamento, insegurança profissional, dificuldades financeiras e uma quantidade enorme de informações que mudavam à medida que se aprendia mais sobre o que estava acontecendo.

O futuro próximo, que normalmente utilizamos para organizar a vida, ficou difícil de imaginar.

Não sabíamos exatamente quando voltaríamos ao trabalho presencial, quando as escolas abririam, quando poderíamos viajar, abraçar determinadas pessoas ou simplesmente retomar hábitos que até então pareciam banais.

Esse período teve consequências importantes para a saúde mental. Mas existe algo que me interessa particularmente quando observo o que veio depois. A pandemia terminou como emergência global, porém muitos hábitos adquiridos ou intensificados naquele período permaneceram.

Passamos mais tempo diante das telas. Incorporamos reuniões virtuais à rotina. A comunicação profissional tornou se ainda mais imediata. Serviços que antes exigiam deslocamento passaram a estar disponíveis em segundos. Isso trouxe benefícios evidentes, que não devem ser ignorados. Ao mesmo tempo, aumentou a expectativa de disponibilidade.

Se tudo pode acontecer rapidamente, começamos a estranhar aquilo que demora.

E a vida real continua demorando.

Uma formação profissional demora. Um relacionamento amadurece devagar. O corpo possui seus próprios tempos. Uma perda não é elaborada apertando um botão. Nem toda pergunta encontra resposta na primeira busca.

Talvez uma das tensões mais interessantes do nosso tempo esteja justamente aí. Criamos tecnologias capazes de reduzir drasticamente o tempo de muitas tarefas, mas não necessariamente aprendemos o que fazer com a impaciência produzida por essa velocidade.

O trabalho também entrou nessa equação

Existe uma palavra que ganhou enorme prestígio nas últimas décadas: desempenho.

Ela tem seu valor. Trabalhar bem, produzir, crescer profissionalmente e buscar competência não são problemas em si. Eu mesmo passei boa parte da vida profissional em ambientes nos quais resultado, metas e competitividade faziam parte da rotina. Seria incoerente demonizar isso.

O problema aparece quando desempenho deixa de ser uma dimensão da vida e começa a determinar o valor que a pessoa atribui a si mesma.

Já não basta fazer um bom trabalho. É preciso crescer. Mostrar que cresceu. Atualizar-se. Produzir. Ser visto produzindo. Acompanhar as mudanças. Não ficar para trás.

O descanso começa a provocar culpa.

O erro, que deveria fazer parte de qualquer processo de aprendizagem, ganha um peso desproporcional. A comparação deixa de ocorrer apenas com colegas próximos. Pelas redes sociais, alguém no início da carreira pode comparar sua vida diariamente com profissionais que estão vinte ou trinta anos à sua frente.

É uma comparação injusta, mas emocionalmente funciona.

E há uma ironia nisso. Temos acesso a uma quantidade extraordinária de informação sobre como viver melhor e, ainda assim, muita gente termina o dia com a sensação de não ter feito o suficiente.

A ansiedade chegou às crianças

Talvez seja aqui que minha preocupação aumente.

Quando adultos desenvolvem dificuldade para lidar com o excesso de estímulos, estamos falando de pessoas cujo desenvolvimento emocional, ao menos em princípio, já passou por suas etapas fundamentais. Com crianças, a situação é diferente.

Elas estão aprendendo a esperar, tolerar frustrações, organizar emoções, sustentar atenção e compreender limites. Ao mesmo tempo, muitas já entram muito cedo em contato com um ambiente de estímulo contínuo.

Não seria correto atribuir o aumento dos problemas emocionais infantis simplesmente ao celular ou às redes sociais. Desenvolvimento infantil é muito mais complexo do que isso. Existem fatores familiares, biológicos, sociais, escolares e individuais que precisam ser considerados.

Mas também seria ingênuo imaginar que o ambiente digital não participa dessa formação.

Uma criança acostumada desde cedo a alternar rapidamente imagens, sons, jogos e recompensas está construindo sua relação com atenção e espera dentro de um contexto muito diferente daquele vivido pelas gerações anteriores.

Some-se a isso a pressão escolar, agendas cheias, expectativas dos adultos e, em determinadas famílias, pouco tempo de convivência sem interferência de telas.

Não estou defendendo uma infância sem tecnologia. Isso seria pouco realista e talvez nem fosse desejável. Estou falando de proporção. De perceber que aquilo que ocupa muitas horas da vida de uma criança inevitavelmente participa de sua formação.

Há uma diferença importante entre usar tecnologia e ser permanentemente estimulado por ela.

Ainda estamos aprendendo a lidar com essa diferença.

Não é um fenômeno das grandes cidades

Durante muito tempo associamos a vida acelerada às metrópoles. Trânsito, ruído, longos deslocamentos, excesso de trabalho e multidões pareciam explicar por que o habitante de uma grande cidade vivia mais tenso.

Essa fronteira ficou menos evidente.

Uma pessoa pode morar hoje em uma cidade pequena, olhar pela janela e encontrar uma rua silenciosa enquanto segura nas mãos o mesmo fluxo de informação consumido por alguém em São Paulo, Nova York ou Tóquio.

A geografia continua influenciando nosso modo de viver, claro. Mas a mente tornou se muito menos local.

As preocupações econômicas são compartilhadas. Os conflitos políticos chegam simultaneamente. Tendências de comportamento atravessam países em poucas horas. A comparação social também deixou de depender da vizinhança.

Isso ajuda a explicar por que tranquilidade externa e tranquilidade interna já não caminham necessariamente juntas.

Podemos estar sentados em silêncio e mentalmente percorrer dezenas de assuntos em poucos minutos.

Talvez tenhamos desaprendido o intervalo

Quanto mais observo esse fenômeno, menos me convenço de que a questão central seja simplesmente a velocidade.

Velocidade também produz coisas extraordinárias. A tecnologia aproximou pessoas, democratizou conhecimentos, facilitou diagnósticos, criou possibilidades profissionais e resolveu problemas que consumiam horas de nossas vidas.

Não creio que a solução esteja em romantizar o passado ou imaginar uma retirada do mundo contemporâneo.

O ponto parece ser outro.

Criamos um ambiente que oferece estímulo praticamente ilimitado, mas continuamos possuindo um organismo que necessita alternar ativação e repouso, atenção e dispersão, contato e recolhimento.

Talvez tenhamos começado a eliminar justamente os intervalos que permitiam essa alternância.

O minuto sem fazer nada.

A caminhada sem telefone.

A refeição que termina sem que outra tela imediatamente se abra.

A conversa que não precisa competir com notificações.

Não parecem grandes acontecimentos. Provavelmente por isso receberam tão pouca importância.

Mas existe uma diferença considerável entre uma mente que acelera quando necessário e outra que já não sabe retornar.

É a partir dessa diferença que, no próximo artigo, pretendo avançar para uma questão menos visível: o que acontece quando a ansiedade deixa de ser percebida apenas como pensamento e começa a organizar também o corpo, a atenção e a maneira como interpretamos aquilo que acontece ao nosso redor.

Continua na Parte 2: Quando a ansiedade deixa de estar apenas na mente.

Murillo C. Freitas

Murillo C. Freitas
Terapeuta, escritor, professor e pesquisador do comportamento humano, dos estados de consciência, da Hipnose Não Verbal, ativação da Kundalini, pioneiro no ensino da Kundalini Negra, do Magnetismo Humano, da Fascinação Hipnótica  e da espiritualidade aplicada. Autor de 6 livros, dedica-se há décadas ao estudo da mente humana, da psicologia simbólica, das tradições iniciáticas, investigando os pontos de encontro entre ciência, filosofia e espiritualidade.

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