A Lógica do Enigma – HOJE BAHIA

A Lógica do Enigma - HOJE BAHIA

O sino da igreja batia três horas da tarde quando Tomás fechou os olhos e deixou a melodia de Oswaldo Montenegro ecoar em seu fone de ouvido. Do outro lado da janela, a rua fervilhava – crianças correndo, vendedores gritando, a vida em seu fluxo aparentemente caótico. “O mérito é todo dos santos, o erro e o pecado são meus…” A letra parecia dançar com as cenas do cotidiano.

Tomás era um homem comum, daqueles que carregam perguntas nos bolsos como chaves velhas que não abrem mais portas conhecidas. Trabalhava como contador numa pequena empresa, organizando números em planilhas, criando ordem onde talvez não houvesse nenhuma. Mas suas verdadeiras contas não fechavam nunca. Eram aquelas que a música enumerava com delicadeza e dor.

“Por que que o tal ser humano já nasce sabendo do fim?” Lembrou-se de quando sua filha, ainda com cinco anos, apontou para uma flor murcha no jardim e perguntou: “Papai, ela vai voltar a ser semente?” Ele não soube responder então, assim como não sabia agora.

A memória o levou ao hospital, dois anos atrás, segurando a mão do pai que partia antes dele. “Por que que Deus cria um filho que morre antes do pai?” A pergunta da música parecia escrita na parede branca daquele quarto, entre os pingos do soro e o silêncio das madrugadas. Seu pai, homem de fé simples, sussurrara antes de partir: “Não tente entender, meu filho. Apenas viva.”

Mas como não tentar?

Tomás observou um casal de adolescentes se beijando descuidadamente na esquina, os rostos colados, o mundo ao redor desaparecido. “Se o sexo é tão proibido, por que ele criou a paixão?” Sorriu lembrando de sua própria juventude, dos amores que pareciam divinos em sua intensidade, dos desejos que queimavam como fogo sagrado. Agora, aos cinquenta, via a contradição com mais clareza: como algo tão natural poderia carregar tanto peso de culpa?

No escritório, mantinha uma estante discreta com livros de filosofia e teologia, comprados em sebos ao longo dos anos. Tentara encontrar respostas em Agostinho, em Tomás de Aquino, até mesmo em ateus convictos. Mas as respostas dos livros pareciam sempre muito limpas para a bagunça da existência.

“Se Deus criou o desejo, por que que é pecado o prazer?” A pergunta mais antiga, a que doía nas madrugadas insones. Tomás pensou nos amores proibidos, nas palavras não ditas, nos prazeres pequenos e grandes que a vida oferecia e que a moral, às vezes, condenava. Lembrou-se da tia Madalena, freira por cinquenta anos, que confessara uma vez, em raro momento de vulnerabilidade: “Meu maior sacrifício não foi a castidade, foi calar a música que havia em mim.”

Ao fim da tarde, Tomás desligou o computador e saiu para caminhar. O céu estava naquela cor laranja-rosa que parece um milagre cotidiano. Parou na praça onde os idosos jogavam damas e as crianças ainda brincavam. Observou a cena como um pintor observaria uma tela quase pronta.

E então, sem razão aparente, veio aquele momento de clareza que às vezes surge no meio da confusão. Percebeu que talvez não se tratasse de entender, mas de testemunhar. Que as perguntas não eram falhas na lógica divina, mas parte da própria criação – como se Deus tivesse plantado enigmas no jardim para que os humanos nunca parassem de procurá-Lo.

“E a mim que sou tão descuidado, não resta mais nada a fazer. Apenas dizer que não entendo, meu Deus como eu amo você.”

Tomás não era um homem de grandes gestos. Mas naquele instante, olhando o crepúsculo que pintava o ordinário com cores extraordinárias, sentiu algo parecido com uma resposta. Não uma resposta que fecha questões, mas que as abraça. Como se a própria busca fosse o destino.

Voltou para casa com um passo mais leve. As perguntas ainda estavam lá, todas elas, rodopiando em sua mente como folhas ao vento. Mas agora pareciam menos acusações e mais… orações. Orações de quem não se conforma, de quem insiste em dialogar com o mistério.

Antes de dormir, Tomás escreveu no diário que mantinha há anos: “Hoje entendi que talvez ‘Ora pro nobis’ – rogai por nós – não seja um pedido de intercessão, mas um reconhecimento. Rogai por nós, santos, porque carregamos o fardo e a beleza de não saber. Porque amamos Aquele que não compreendemos. Porque, no fim, é esse amor – confuso, imperfeito, cheio de dúvidas – que nos faz humanos. E talvez seja exatamente isso que Ele esperava.”

Fechou o diário e olhou pela janela. A lua aparecia entre as nuvens, iluminando parcialmente a noite. Como a fé, pensou. Como a vida. Como a lógica da criação – sempre mostrando apenas o suficiente para nos manter caminhando, procurando, amando.

E pela primeira vez em muito tempo, Tomás sentiu que isso era suficiente.



Fonte ==> Bahia Notícias

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