Dizem que os deuses antigos morreram, substituídos por outros talvez mais implacáveis: o boi gordo, o latifúndio, o consumismo, o progresso de fachada. Mas as histórias, essas nunca morrem. Elas apenas mudam de roupa e reaparecem onde menos se espera. A de Erisíchton, por exemplo, vestiu-se de couro e algodão e se instalou no sertão.
Aqui, ele não era um rei da Tessália, mas um coronel. Coronel Erisíctônio da Silva. Homem de barriga grande e alma pequena, para quem a terra não era mãe, era cifrão. Herdou léguas e léguas de caatinga, um manto verde-cinzento salpicado de juazeiros de sombra abençoada, umbuzeiros gordos de promessas e xique-xiques resistentes como o povo nordestino. E no centro da propriedade, uma única árvore descomunal, um angico centenário. Era sob ele que os vaqueiros descansavam, que as preces dos retirantes eram sussurradas, que a vida, teimosa, insistia em prosperar. O povo chamava aquela árvore de “A Catedral”.
Mas o coronel não via catedral. Via obstáculo. Um amplo terreno, plano e perfeito, ideal para plantar capim e alimentar mais gado, estava “estragado” por aquela sombra imensa. Um dia, movido por uma ganância que é prima-irmã da loucura, ordenou: “Derrubem o angico”.
Os peões se olharam, desnorteados. O vaqueiro mais antigo, seu Raimundo, voz enrugada pelo tempo e pela poeira, tentou a razão: “Coronel, é muita sombra boa que o sinhô está deitando fora. É a alma deste lugar. Quem corta a sombra do sertanejo, corta a sua própria alma”.
O coronel riu, um som seco de quem não acredita em alma, só em saldo bancário. “Sombra atrapalha o progresso. Derrubem tudo. E que venha serra elétrica, quero ver a madeira virar riqueza de verdade!”
E assim foi feito. O ronco da motosserra, um monstro de metal vomitando barulho, cortou o silêncio sagrado do sertão. Era um grito de agonia. A lâmina dentada mordeu o tronco venerável, cuspindo serragem como sangue marrom. A cada golpe, um estremecimento percorria a terra, um lamento surdo que só os pés descalços e os corações antigos conseguiam sentir. Quando a grande árvore tombou, com um baque que ecoou como um suspiro final da própria terra, uma poeira ocre levantou, cobrindo o sol – era o véu de luto da caatinga.
A maldição, naquele novo Olimpo de sol inclemente, não veio de uma deusa chamada Deméter, mas da própria natureza ofendida. E não assumiu a forma de uma fome insaciável, mas de uma sede insuportável.
Nos dias seguintes, os poços secaram. Não foi uma seca comum, daquelas que se anuncia e se combate. Foi um secar repentino, absoluto, cruel. A água sumiu dos cacimbões, dos barreiros, das cisternas. A terra, sem a proteção das raízes profundas do angico, tornou-se um deserto rachado e estéril. O gado, a nova riqueza do coronel, começou a morrer, seus corpos inchados sob um sol que agora não tinha piedade nem sombra.
O coronel, porém, não entendeu. A maldição já habitava seu corpo. Uma sede insana, devoradora, acendeu-se dentro dele. Uma sede que nenhum líquido era capaz de saciar. Ele bebeu toda a água mineral estocada na sede da fazenda. Bebeu a água dos radiadores dos tratores. Bebeu até a água salobra do último reservatório. E quanto mais bebia, mais a sede o consumia, como um fogo que se alimenta de seu próprio combustível.
Ele vendeu os tratores para comprar água de carro-pipa. Vendeu as joias da mulher. Vendeu as terras, uma a uma, para seus vizinhos, que olhavam para aquele homem outrora poderoso com um misto de pena e terror. Ele já não era um coronel, era um fantasma seco, perambulando pelo terreno árido, os lábios rachados, os olhos vidrados, procurando uma gota de orvalho que não existia mais.
A maldição de Erisíctônio não foi apenas a sua sede. Foi a sede que ele legou a todos. A terra, sem sua “catedral” verde, perdeu a capacidade de reter a vida. O progresso que ele tanto quis era, na verdade, um retrocesso até o pó.
A história do coronel que cortou a árvore da vida virou lenda no sertão. Um conto de Franz Kafka, um ensinamento amargo. Ele não foi punido por um deus do Olimpo, mas pela lei mais simples e mais sábia que rege o Nordeste, e o planeta: você não pode cortar a mão que te alimenta, não pode envenenar o poço de onde bebe, não pode calar a voz da terra que te sustenta.
A defesa do meio ambiente no sertão não é um gesto de poesia ou um luxo de cidade grande. É uma questão de sobrevivência pura e dura. É a certeza de que cada árvore de pé é uma cisterna viva, cada rio preservado é uma veia pulsante, cada animal da fauna nativa é um sinal de que o equilíbrio ainda respira.
A maldição do Erisíctônio da vida real, aquele que assola o bioma com queimadas e desmatamentos, não é uma fome mitológica. É a seca real que avança, a fome concreta que volta, o êxodo doloroso que se intensifica. É a sede que nunca se sacia.
Porque a natureza não perdoa. Ela apenas devolve, com juros e correção, toda a violência que recebe. E no sertão, essa conta sempre vem com o carimbo severo do sol.
Fonte ==> Ba.gov