A brasileira Luana Lopes Lara, fundadora da plataforma de previsões Kalshi, afirmou que as apostas ligadas a resultados eleitorais são a principal fonte de receita do setor.
“Os títulos sobre eleições são as galinhas dos ovos de ouro dos mercados de previsão”, disse nesta terça-feira (7), durante evento em Sunnyvale, na Califórnia.
A Kalshi e sua concorrente Polymarket operam os chamados mercados de previsão, plataformas que funcionam como Bolsas nas quais usuários negociam apostas sobre eventos diversos —do resultado de eleições e indicadores econômicos ao desfecho de programas como o Big Brother Brasil.
A Kalshi estreou em eleições no pleito presidencial americano de 2024. Segundo Lara, a operação foi feita com autorização das autoridades, embora o regulador do setor, a CFTC (Comissão de Negociação de Futuros de Commodities), fosse contrário à oferta desse tipo de contrato.
“Mas esse segmento é muito importante para os mercados de previsão, e nós sabíamos que precisávamos deles por serem muito grandes. Por isso, nós tivemos que processar o regulador”, disse a brasileira.
Cerca de 18 meses depois, essa vitória judicial alçou a Kalshi ao valor de mercado atual, próximo de US$ 22 bilhões (R$ 113 bilhões). O crescimento fez da brasileira a bilionária mais jovem a construir sua própria fortuna, segundo a Forbes.
Lara recorda que a criação de títulos sobre eleições foi central para a ideia que motivou a criação da companhia. Em 2016, ela e o cofundador, Tarek Mansour, estavam angustiados com os efeitos de uma possível vitória de Donald Trump e da escolha pelo Brexit, no Reino Unido.
Por isso, voltaram de uma aula do MIT (Massachusetts Institute of Technology) discutindo sobre a falta de ferramentas para se proteger financeiramente nessa situação. Ambas os eventos se concretizaram.
“O consenso na época era de que, se Trump ganhasse, a Bolsa de Nova York iria cair. Quem acreditou nisso perdeu um monte de dinheiro, porque a Bolsa mudou de direção. Eu vi esses acionistas perdendo quando eu trabalhei na Bridgewater [uma grande corretora americana]”, disse.
O processo de registro da Kalshi na CTFC começou em 2020. Segundo a executiva, a companhia passou quatro anos sem receitas enquanto esperava um desfecho do processo.
“Há uma lista de 33 princípios que o CFTC passa e nós falamos que os mercados de previsão cumpria todos”, disse a brasileira. O CFTC não concordou e respondeu com 20 questões. “Nós então trabalhamos nessa lista, fizemos uma análise legal, passamos por advogados. Foram quatro anos indo e voltando”.
De acordo com ela, a empresa tampouco foi lucrativa de início. “Não fomos como uma grande farmacêutica que disparou após conseguir a licença de um medicamento.”
Foi a vitória judicial sobre as apostas eleitorais que mudou o destino da empresa e, por isso, a história foi o tema de uma mesa sobre “Como apostar em um negócio que ainda não existe”, no evento Brazil at Silicon Valley.
“Esse foi o ponto em que nós realmente pensávamos que não íamos desistir até que nós tentássemos todas as coisas, incluindo processar o regulador”, afirmou.
Durante a entrevista, Lara reiterou planos de abrir um escritório da Kalshi no Brasil e expandir a atuação na América Latina.
No Brasil, especialistas em direito eleitoral alertam que produzir estatísticas sobre o processo eleitoral deveria ser uma atividade supervisionada pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). O tribunal já derrubou sites que ofereciam o serviço.
Mesmo assim, a Folha já conseguiu comprar contratos futuros na Kalshi sobre temas relacionados às eleições presidenciais brasileiras de 2026. Para isso, precisou enviar dinheiro para uma conta nos EUA usando criptomoedas, em um procedimento feito no próprio site da empresa de Lara.
A Kalshi, em sua última rodada de investimentos, em novembro, anunciou expansão para mais de 140 países, sem citar o Brasil de forma explícita. Na prática, a companhia implementou um sistema para receber remessas internacionais por meio de criptomoedas e pagamentos por cartão.
Nos termos de uso, Kalshi e Polymarket determinam impedimentos apenas para cidadãos de países com restrição judicial contra as empresas ou alvos de sanções econômicas do governo americano. No total, usuários de 52 países não podem acessar mercados de previsão.
No Brasil, nem o Ministério da Fazenda, responsável pela regulação de apostas, nem a CVM (Comissão de Valores Mobiliários), que supervisiona o mercado de derivativos, se posicionaram até o momento sobre a atuação dessas empresas.
Reino Unido: Exige licença da Gambling Commission para qualquer oferta de “prediction market”.
França: A autoridade de jogos iniciou bloqueios à Polymarket em 2024 por falta de autorização.
Itália e Austrália: Mantêm restrições a sites de apostas offshore sem sede ou representação legal no país.
Folha Mercado
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O repórter viajou a convite do Brazil at Silicon Valley
Fonte ==> Folha SP
