Brasil faz parceria com EUA contra tráfico de arma e droga – 10/04/2026 – Cotidiano

Cinco homens sentados ao redor de uma mesa de conferência discutem assuntos formais. Dois deles estão de um lado da mesa, um deles fala gesticulando, enquanto os outros três escutam atentamente. Pequenas bandeiras do Brasil e dos Estados Unidos estão posicionadas no centro da mesa. Copos de água e cadernos estão sobre a mesa, e cadeiras azuis compõem o ambiente.

O ministro da Fazenda Dario Durigan anunciou nesta sexta-feira (10) um acordo de cooperação entre a Receita Federal do Brasil e o órgão de fiscalização fronteiriça dos Estados Unidos para combater o tráfico de drogas e armas entre os dois países.

A parceria com o U.S Customs and Border Protection prevê que autoridades americanas compartilhem com o Brasil imagens de raio-X e relatórios de inteligência de contêineres com destino ao Brasil.

Na via contrária, os brasileiros enviarão aos EUA dados sobre apreensões de armas e drogas de origem americana.

Segundo o Ministério da Fazenda, a nova iniciativa, chamada de MIT (“time de interdição mútua”, na sigla em inglês), é fruto das conversas entre os presidentes Lula e Donald Trump.

Ocorre, também, enquanto os Estados Unidos discutem a ideia de classificar o PCC e o Comando Vermelho –duas maiores facções criminosas do Brasil– como organizações terroristas. O ministro da Fazenda, porém, diz que os americanos não trouxeram esse tema para as conversas.

“Como parte importante [das armas traficadas para o Brasil] vem dos Estados Unidos, a gente espera que a circulação de armas no Brasil diminua com essa parceria”, afirmou Durigan a jornalistas na manhã desta sexta-feira. Ele também disse esperar que a parceria abra caminho para novas frentes de cooperação.

A aduana brasileira apreendeu 500 quilos de armas com origem dos Estados Unidos nos últimos 12 meses, segundo o secretário especial da Receita Federal, Robinson Barreirinhas. Ainda segundo ele, autoridades tiraram de circulação 1,5 tonelada de drogas americanas, principamente haxixe e sintéticos, entre janeiro e março.

O secretário não deu detalhes sobre os critérios do compartilhamento de dados, mas disse que hoje o Brasil tem capacidade de escanear todos os contêineres que deixam o território nacional, e afirmou que a troca de informações obedecerá critérios de risco que nem sempre são iguais para o Brasil e para os EUA.

“Evidentemente, quando nós detectamos, imediatamente já impedimos a saída, assim como os Estados Unidos também [o] fazem”, disse Barreirinhas, da Receita Federal. “Mas são sistemas diferentes. Com a nossa gestão de risco, nós identificamos um risco ali [que os americanos podem não ter detectado].”

O secretário da Receita diz que as apreensões de armas e drogas já existem há décadas, mas que agora será possível avisar as autoridades americanas com agilidade, facilitando rastreio e combate na origem das remessas. “Eu vou avisar imediatamente a autoridade americana e dizer ‘olha, abri um contêiner e tem um fuzil. Por favor, bate na porte do senhor tal, da empresa tal, e veja o que aconteceu”, disse.

Após dois encontros presenciais em 2025, o presidente Lula ligou para Trump em dezembro e defendeu cooperação com os americanos no combate ao crime organizado internacional, de acordo com o Itamaraty.

No telefonema, Lula teria destacado recentes operações realizadas no Brasil pelo governo federal para “asfixiar financeiramente o crime organizado”, identificando ramificações que operam a partir do exterior, segundo registrou comunicado do Itamaraty.

A ligação se deu em meio à escalada militar sem precedentes promovida pelos EUA no mar do Caribe. O país explodiu barcos e mobilizou uma grande armada sob o pretexto de combater o narcotráfico na região –essa mobilização culminou no sequestro do ditador venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro.

Como mostrou a Folha, Lula propôs à Trump um plano com quatro pontos principais –cooperação para combater a lavagem de dinheiro, mirando criminosos brasileiros que transferem recursos para empresas de fachada nos EUA; bloqueio de ativos nos EUA; colaboração entre autoridades alfandegárias; e intensificação do intercâmbio de informações sobre transações com criptoativos.

Em troca, o governo americano pediu que o Brasil recebesse estrangeiros capturados em solo americano, a exemplo do que já faz El Salvador na prisão Cecot, conhecida por violações do direitos humanos.

Também pediu que o Brasil apresentasse um plano para acabar com o PCC, o Comando Vermelho, o Hezbollah e as organizações criminosas chinesas em solo brasileiro, segundo um alto funcionário americano.

Em março deste ano, o jornal americano The New York Times revelou que os Estados Unidos avaliavam classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. O governo se opõe a medida, que poderia abrir brecha para intervenções estrangeiras em solo nacional.

Durigan, que deve viajar aos Estados Unidos na semana que vem para a reunião de primavera do FMI (Fundo Monetário Internacional), foi questionado pelo tema nesta sexta e disse que os americanos não trouxeram essa questão para a mesa.

“Não foi um tema tratado. Mas espero que sim, que a gente possa avançar com cooperação para que a gente evite, como eu disse, que armas venham para o Brasil”, afirmou o ministro. Ele disse que o atual acordo abre espaço para novas áreas de cooperação, por exemplo no rastreabilidade de armas e munições.

Trump e Lula teriam um encontro em Washington, que estava previsto para meados de março, mas foi adiado.



Fonte ==> Folha SP

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