O ministro da Fazenda Dario Durigan anunciou nesta sexta-feira (10) um acordo de cooperação entre a Receita Federal do Brasil e o órgão de fiscalização fronteiriça dos Estados Unidos para combater o tráfico de drogas e armas entre os dois países.
A parceria com o U.S Customs and Border Protection prevê que autoridades americanas compartilhem com o Brasil imagens de raio-X e relatórios de inteligência de contêineres com destino ao Brasil.
Na via contrária, os brasileiros enviarão aos EUA dados sobre apreensões de armas e drogas de origem americana.
Segundo o Ministério da Fazenda, a nova iniciativa, chamada de MIT (“time de interdição mútua”, na sigla em inglês), é fruto das conversas entre os presidentes Lula e Donald Trump.
Ocorre, também, enquanto os Estados Unidos discutem a ideia de classificar o PCC e o Comando Vermelho –duas maiores facções criminosas do Brasil– como organizações terroristas. O ministro da Fazenda, porém, diz que os americanos não trouxeram esse tema para as conversas.
“Como parte importante [das armas traficadas para o Brasil] vem dos Estados Unidos, a gente espera que a circulação de armas no Brasil diminua com essa parceria”, afirmou Durigan a jornalistas na manhã desta sexta-feira. Ele também disse esperar que a parceria abra caminho para novas frentes de cooperação.
A aduana brasileira apreendeu 500 quilos de armas com origem dos Estados Unidos nos últimos 12 meses, segundo o secretário especial da Receita Federal, Robinson Barreirinhas. Ainda segundo ele, autoridades tiraram de circulação 1,5 tonelada de drogas americanas, principamente haxixe e sintéticos, entre janeiro e março.
O secretário não deu detalhes sobre os critérios do compartilhamento de dados, mas disse que hoje o Brasil tem capacidade de escanear todos os contêineres que deixam o território nacional, e afirmou que a troca de informações obedecerá critérios de risco que nem sempre são iguais para o Brasil e para os EUA.
“Evidentemente, quando nós detectamos, imediatamente já impedimos a saída, assim como os Estados Unidos também [o] fazem”, disse Barreirinhas, da Receita Federal. “Mas são sistemas diferentes. Com a nossa gestão de risco, nós identificamos um risco ali [que os americanos podem não ter detectado].”
O secretário da Receita diz que as apreensões de armas e drogas já existem há décadas, mas que agora será possível avisar as autoridades americanas com agilidade, facilitando rastreio e combate na origem das remessas. “Eu vou avisar imediatamente a autoridade americana e dizer ‘olha, abri um contêiner e tem um fuzil. Por favor, bate na porte do senhor tal, da empresa tal, e veja o que aconteceu”, disse.
Após dois encontros presenciais em 2025, o presidente Lula ligou para Trump em dezembro e defendeu cooperação com os americanos no combate ao crime organizado internacional, de acordo com o Itamaraty.
No telefonema, Lula teria destacado recentes operações realizadas no Brasil pelo governo federal para “asfixiar financeiramente o crime organizado”, identificando ramificações que operam a partir do exterior, segundo registrou comunicado do Itamaraty.
A ligação se deu em meio à escalada militar sem precedentes promovida pelos EUA no mar do Caribe. O país explodiu barcos e mobilizou uma grande armada sob o pretexto de combater o narcotráfico na região –essa mobilização culminou no sequestro do ditador venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro.
Como mostrou a Folha, Lula propôs à Trump um plano com quatro pontos principais –cooperação para combater a lavagem de dinheiro, mirando criminosos brasileiros que transferem recursos para empresas de fachada nos EUA; bloqueio de ativos nos EUA; colaboração entre autoridades alfandegárias; e intensificação do intercâmbio de informações sobre transações com criptoativos.
Em troca, o governo americano pediu que o Brasil recebesse estrangeiros capturados em solo americano, a exemplo do que já faz El Salvador na prisão Cecot, conhecida por violações do direitos humanos.
Também pediu que o Brasil apresentasse um plano para acabar com o PCC, o Comando Vermelho, o Hezbollah e as organizações criminosas chinesas em solo brasileiro, segundo um alto funcionário americano.
Em março deste ano, o jornal americano The New York Times revelou que os Estados Unidos avaliavam classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. O governo se opõe a medida, que poderia abrir brecha para intervenções estrangeiras em solo nacional.
Brasília Hoje
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Durigan, que deve viajar aos Estados Unidos na semana que vem para a reunião de primavera do FMI (Fundo Monetário Internacional), foi questionado pelo tema nesta sexta e disse que os americanos não trouxeram essa questão para a mesa.
“Não foi um tema tratado. Mas espero que sim, que a gente possa avançar com cooperação para que a gente evite, como eu disse, que armas venham para o Brasil”, afirmou o ministro. Ele disse que o atual acordo abre espaço para novas áreas de cooperação, por exemplo no rastreabilidade de armas e munições.
Trump e Lula teriam um encontro em Washington, que estava previsto para meados de março, mas foi adiado.
Fonte ==> Folha SP
