Desde que visitou o Brasil pela primeira vez, há uma década, a americana Elizabeth Boggs, especialista em investimentos sociais, tem acompanhado, com entusiasmo, os avanços na regulamentação da economia de impacto no país.
Exemplo notável desse progresso, diz ela, é a Estratégia Nacional da Economia de Impacto, política pública instituída pelo governo federal em 2017 e relançada em 2023 com o objetivo de ampliar a oferta de capital e o número de negócios comprometidos em equilibrar resultados financeiros e impacto socioambiental positivo.
De volta a São Paulo no fim de março para palestrar no Impacta Mais, fórum que reuniu protagonistas desse ecossistema, Boggs avaliou que o Brasil conquistou um lugar à mesa nas discussões internacionais sobre finanças sociais.
“Há muito que o mundo pode aprender com a experiência brasileira”, afirma a CEO do GSG Impact, organização que conecta investidores, governos, legisladores e inovadores sociais em 50 nações. “O país tem sido inovador na criação de infraestrutura e incentivos necessários para o fluxo de capital de impacto.”
À Folha a especialista, que ocupou cargos de liderança em instituições como o Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), falou ainda sobre o cenário global de investimentos de impacto após a posse de Donald Trump para seu segundo mandato na presidência norte-americana.
A seguir, os principais trechos da entrevista.
Qual é o estado do mercado global de investimentos de impacto hoje, com o recuo dos Estados Unidos na agenda de desenvolvimento sustentável?
O investimento de impacto oferece uma proposta de valor que transcende divisões políticas. Essa é a percepção que eu e meus colegas da GSG Impact temos após diversas discussões com nossos parceiros em 50 países.
Apesar do crescimento do movimento anti-ESG e de alguma hesitação neste mercado, o setor continua forte. Gestores de fundos com quem me conectei nos EUA e na Europa, principalmente na Suíça, que mantêm ativos significativos sob sua gestão, não estão alterando suas práticas de investimento.
Pelo contrário, eles continuam avançando e levantando novo capital, pois reconhecem a importância e a atratividade da proposta de valor do investimento de impacto.
O que torna o investimento de impacto tão atraente?
Fundos de impacto estão atingindo suas metas de investimento, desafiando a falsa dicotomia de que só é possível ter retornos comerciais ou impacto socioambiental.
É evidente que essa visão é falsa, porque esses fundos entregam retornos na média do mercado ou acima dela, ao mesmo tempo em que alcançam impactos mensuráveis.
No Brasil, a habitação social tem sido fundamental, enquanto, nos Estados Unidos, investimentos em desenvolvimento comunitário têm permitido acesso a capital para pequenas e médias empresas, antes excluídas.
Esse tipo de investimento oferece soluções com retornos mensuráveis, tanto no lado comercial quanto no socioambiental. É difícil negar que se trata de uma boa prática de investimento se ela está funcionando.
Qual é o perfil de quem ainda investe em impacto social, dado que grandes empresas como Walmart e McDonald’s têm se afastado da agenda de inclusão e ESG?
Publicamente, várias empresas estão reduzindo o foco em diversidade de gênero e inclusão, mas acredito que suas estratégias centrais de investimento não estejam mudando tanto assim.
Gerenciar riscos e ter diversidade na estrutura de governança são práticas que comprovadamente geram resultados financeiros positivos. Além disso, o investimento de impacto está mais presente em mercados privados, não nos públicos. E o movimento anti-ESG está concentrado nestes.
De que forma os cortes na ajuda externa dos Estados Unidos, a exemplo da Usaid (Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional), afetam o investimento de impacto ao redor do mundo?
A retirada de US$ 60 bilhões em ajuda internacional tem consequências enormes. Muito do que a Usaid tem feito nos últimos dez anos é justamente criar um ambiente favorável para investimentos.
Ela oferece consultoria empresarial a empreendedores, viabiliza estruturas catalisadoras e participa de mecanismos de compartilhamento de risco de crédito. Ou seja, é um órgão fundamental para viabilizar o investimento de impacto, trabalhando para criar as condições certas para esse tipo de atuação.
Seria ingênuo dizer que isso não importa. Muitas organizações filantrópicas, como as grandes fundações Rockefeller, Ford e MacArthur, têm focado no apoio a estruturas catalisadoras de investimento e na criação desses ambientes favoráveis.
Sem a assistência humanitária da Usaid, a inovação que vimos para destravar impacto, estruturas catalisadoras e financiamento misto pode deixar de ser prioridade. Isso porque as fundações tradicionais que atuam nessa área vão ter que voltar sua atenção à ajuda humanitária.
Como você enxerga o papel do Brasil na economia de impacto global?
A formulação de políticas públicas é essencial para criar infraestrutura e incentivos necessários para o fluxo de capital de impacto. E o Brasil tem sido bastante inovador no desenvolvimento de novas políticas nesse sentido, por exemplo, com a Estratégia Nacional da Economia de Impacto.
O país teve um papel influente no campo das finanças sociais e nas discussões do G20. Esse histórico recente e relevante garantiu ao país um lugar à mesa e a chance de ajudar a moldar o diálogo global sobre finanças sociais de uma forma que não víamos antes.
Estive aqui [em São Paulo] há dez anos, quando lançamos o primeiro fundo de capital de risco de impacto do Brasil, a Vox Capital, quando eu trabalhava no Banco Interamericano de Desenvolvimento. Dez anos depois, é visível o quanto a conversa evoluiu. Há muito que o mundo pode aprender com a experiência brasileira.
Como governos podem criar um ambiente favorável ao investimento de impacto?
A política regulatória pode e deve ser adaptada para apoiar o investimento de impacto por meio do estabelecimento de metas claras e concretas, como a criação de incubadoras e aceleradoras, além da definição de objetivos para o número de negócios de impacto a serem desenvolvidos.
Incluir esse tipo de meta específica nas políticas públicas é uma forma eficaz de promover mudanças significativas.
Fonte ==> Folha SP
