Bruno Schulz encanta pela visão mágica de mundo em chamas – 14/02/2026 – Ilustríssima

Bruno Schulz encanta pela visão mágica de mundo em chamas - 14/02/2026 - Ilustríssima

[RESUMO] Embora ainda não seja amplamente conhecido, Bruno Schulz foi um dos escritores mais intrigantes do século 20. Artista gráfico reconhecido nos anos 1920, com foco em temas sadomasoquistas, ele dedicou-se na década seguinte aos contos, com uma prosa que buscava restituir uma visão mítica do cotidiano. No plano pessoal, viveu em um mundo em convulsão política e foi assassinato por oficial nazista, fatos que ainda lançam debate sobre a raiz de sua obra.

A obra literária do polonês Bruno Schulz (1892-1942) não pode ser entendida separadamente de sua obra visual. Ele era, antes de tudo, um artista gráfico. Conto e gravura são duas linguagens que Schulz utilizava para criar, transmitir, articular o mesmo universo mítico.

Schulz viveu em época e local conturbados. Nasceu austríaco, viveu como polonês e morreu judeu. Em sua curta vida, sem sair da mesma cidade, Drohobycz, morou em cinco países: Império Austro-Húngaro (1892-1918), República Popular da Ucrânia Ocidental (1918-19), Polônia (1919-39), União Soviética (1939-40) e Alemanha nazista (1940-42). Oitenta anos depois, Drohobycz, novamente ucraniana, ainda está ameaçada pela Rússia. Em 2023, um míssil russo destruiu sua rede elétrica.

Hoje, em nossos tempos de identitarismo literário, ele está no meio de um triplo cabo-de-guerra: é um autor polonês, ucraniano ou judeu?

A obra completa de Bruno Schulz abrange cerca de 30 contos lançados em dois livros: 15 de “Lojas de Canela” (1934), 13 de “Sanatório sob o Signo da Clepsidra” (1937), e alguns outros nunca coligidos por ele em alguma obra. Já publicada pela Imago e Cosac Naify, na tradução de Henryk Siewierski, é relançada agora pela Editora 34, que lançou o último volume do autor neste ano.

Nele, o texto mais importante é “A Mitificação do Real”, de 1936, um microensaio de três páginas incrivelmente rico e denso, onde Schulz sistematiza e articula sua teoria da literatura.

Os novos textos também incluem o primeiro e o último conto de Schulz.

“Úndula” foi escrito com pseudônimo e publicado em 1922 em uma obscura revista da indústria petroleira. Descoberto em 2019, foi atribuído a Schulz, pois Úndula era uma personagem recorrente de “O Livro da Idolatria”, uma compilação de gravuras sadomasoquistas que ele compusera em 1921, ano anterior à publicação do conto.

Na década de 1920, a produção de Schulz foi mais gráfica, e concentrada em temas sadomasoquistas, enquanto que na sua ficção literária, escrita na década de 1930, esse aspecto sexual só aparece escondido ou sublimado.

“Úndula”, seu único conto abertamente sadomasoquista, é muito anterior aos outros. Parece ser a ponte que une ambas as fases e ajuda a entender os demônios, ou melhor, as demônias que impulsionaram a obra de Schulz.

Destaque também para “O Cometa”, publicado em uma revista em 1938 e incluído na edição brasileira de “Lojas de Canela”, geralmente considerado pelos especialistas como fechamento do ciclo de contos de ambos os livros e já antecipando o que talvez teria sido uma próxima fase que nunca aconteceu.

Esse texto apocalíptico reúne quase todos os elementos mais característicos de sua prosa. Dos seus contos que chegaram até nós, foi o último a ser escrito. Quatro anos depois, em 1942, Schulz foi assassinado por um oficial nazista.

Uma prosa mítica e religiosa

Hoje, 80 anos após sua morte, a reputação de Schulz só fez crescer.

O escritor americano Jonathan Safran Foer disse sobre “Lojas de Canela”: “Nunca li nenhum livro tão intensamente nem tantas vezes”. Para o britânico V. S. Pritchett, esse livro era uma obra-prima do humor: “solene, mas demente; com uma escrita cotidiana, mas poética”. Já a escritora polonesa Olga Tokarczuk, vencedora do Nobel de Literatura de 2018, afirmou: “Eu amo Schulz, mas também o odeio. Não tem como competir com ele. É o gênio da língua polonesa”.

Sua obra literária se ergue sobre três pilares: seu pai, o protagonista; a cidade provincial, o cenário; e a mulher dominadora, a antagonista triunfante. O pai, mercador-profeta e maluco-beleza, paladino da imaturidade, em defesa dos valores mais altos e mais abstratos da humanidade, se insurge contra o excesso de provincianismo (ou de progressismo!) da cidade, acaba posto em seu lugar de velho doido inofensivo pela criada malvada, bela e castradora, mas de infalível senso prático, e cai aos pés dela, derrotado e não de todo insatisfeito.

O que nos atrai a Schulz, entretanto, não são seus enredos, mas a maneira como ele mergulha no próprio mecanismo das palavras. Não é uma leitura que nos impulsione para frente, para ler mais e mais adiante, virando as páginas ansiosamente, para saber o que vai acontecer, mas sim uma leitura para dentro, mais e mais fundo, em direção às profundezas das palavras, do que as faz funcionar, do que as conecta.

A palavra “religião” vem do latim “religare”, ou seja, é uma nova ligação, uma conexão entre coisas que antes estavam separadas. Nesse sentido, para Schulz, a atividade da escrita era literalmente religiosa, pois consistia em re-ligar palavras a sentidos e conotações que haviam sido perdidos, desconectados.

Na infância, sob nosso olhar ainda limpo e não corrompido, nasce um mito a cada esquina: Schulz queria catalogá-los. Sua obra, tanto gráfica e literária, parece uma verdadeira autobiografia da infância: um retorno a uma certa visão mágica e mítica do cotidiano, uma volta à língua que usávamos antes de ela ser soterrada sob o peso de uma avalanche de lugares-comuns e expressões-feitas, uma religação com essa realidade ainda não sistematizada por experiências práticas e racionais.

E nós, que não lemos polonês, assim como alguém que lê Guimarães Rosa na tradução coreana, nunca saberemos tudo o que estamos perdendo.

A quem pertence a obra de um artista?

Quando Drohobycz foi tomada pelos nazistas, ele sobrevivia desenhando para os alemães, não apenas retratos, mas também murais e afrescos nas paredes de suas casas. Com o tempo, tornou-se protegido de um dos oficiais da Gestapo.

Seus amigos insistiam para que fugisse, mas ele hesitava. Por fim, conseguiu um passaporte falso e parece que tentaria a fuga no dia 19 de novembro de 1942. Nesse mesmo dia, porém, foi assassinado em plena rua, a poucos metros de casa. As versões para sua morte variam: na mais dramática, teria sido morto por um oficial cujo protegido tinha sido assassinado pelo protetor de Schulz. “Você matou o meu judeu, eu matei o seu”, teria dito o assassino ao seu desafeto.

Em 2001, depois de décadas de buscas, os murais que pintou foram reencontrados por dois documentaristas alemães. No meio das discussões sobre o que fazer com os murais, uma equipe do Yad Vashem, o museu israelense do Holocausto, apareceu na casa, retirou os afrescos e levou os pedaços de reboco para a sede em Jerusalém.

Israel respondeu que o museu existia justamente para proteger a memória das vítimas do Holocausto e que países que exterminaram sua população judaica não tinham direito, nem moral nem legal, sobre a obra de seus artistas judeus assassinados. A família de Schulz, contudo, não praticava o judaísmo, nem ele poderia ter tido conexão alguma com Israel, afinal o país só começou a existir seis anos após sua morte.

Schulz era um autor polonês de família judia? Ou era um autor judeu que calhou de ser polonês? O Leste Europeu foi de fato um lar para essa comunidade judaica vibrante que a Segunda Guerra apagou? Ou foi apenas um dos lugares por onde os judeus passaram antes de existir Israel? Levar os murais de Schulz para Israel foi um roubo ou um resgate?

Bruno Schulz e Guimarães Rosa

A linguagem de Schulz é suculenta e fulgurante, adjetivada e ornamentada. Seria concebível sustentar uma prosa tão intensa ao longo de toda uma carreira literária?

Sua obra, como a temos hoje, escrita ao longo de menos de dez anos, pode ser considerada um único romance fragmentário de autoficção. Para Schulz, ser ele mesmo, ser intensa e profundamente ele mesmo, parecia a única religião de que era capaz.

Sua obra é como “Sagarana” sem “Grande Sertão: Veredas”. “Sagarana” (1946), em termos de inventividade vocabular e estilística, é tão incrível quanto os contos de Schulz, mas “Grande Sertão: Veredas” (1956) nos deu toda essa mesma inventividade, afinada por dez anos de aperfeiçoamento, a serviço de um enredo envolvente e atemporal, remanescente da “Ilíada” e dos livros de cavalaria medievais.

Apesar de “Sagarana” ser excelente, o lançamento de “Grande Sertão” transforma o antecessor, retroativamente, em seu ensaio, em sua preparação. Em um mero exercício.

Em seus últimos quatro anos de vida, Schulz estava escrevendo um romance chamado “O Messias”, mencionado em várias de suas cartas, que seria a culminação do ciclo dos contos da infância e, talvez, apontaria uma nova fase da sua produção literária. No caos da guerra, ele teria dado os originais a um padre, mas eles nunca foram encontrados.

Perdemos o “Grande Sertão: Veredas” de Bruno Schulz? Seriam seus contos exercícios para uma obra-prima que foi escrita, mas nunca chegamos a conhecer?



Fonte ==> Folha SP

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