O Carnaval é o Brasil que deu errado. A provocação foi feita pelo compositor, escritor e historiador Luiz Antonio Simas em 2020. Agora, seis anos depois, ela ganha novos contornos com a profusão de megablocos pelo país e a dificuldade que agremiações tradicionais têm enfrentado para continuar saindo às ruas.
A afirmação de Simas parte de uma reflexão de que o país foi projetado para segregar, desarticular todo grupo que não pertence à classe dominante e eliminar as culturas não brancas. É no Carnaval que esse projeto dá errado, quando esses excluídos encontram um sentido coletivo de vida, quando espontaneamente quebram o ordenamento imposto, segundo o historiador.
Em entrevista à Folha, Simas diz que o Carnaval sempre foi muito mais uma festa do conflito do que do consenso.
O historiador, no entanto, diz ter preocupação com os rumos do Carnaval de rua no país, já que vê uma captura da festa para a lógica da “cultura do evento”.
Para ele, a ânsia de prefeitos em ter o “maior Carnaval do mundo” ou a disputa pelo bloco que reúne mais foliões são reflexos de um fenômeno maior, a financeirização da vida.
Em várias cidades do Brasil, há críticas e tensões em torno da organização do Carnaval. As disputas pela festa estão se acirrando?
Se tem algo que marca o Carnaval desde o seu surgimento é a pluralidade. Qualquer tentativa de entendê-lo a partir de uma ideia de festa homogênea não resiste a nenhuma análise. O Carnaval sempre foi muito mais uma festa do conflito do que do consenso.
No caso do Brasil, nós temos um Carnaval que chega com a colonização portuguesa e vai sendo fortemente impactado e redefinido pela brasilidade, com a presença dos povos africanos e originários. O Carnaval foi moldado com muita tensão e conflito.
No século 19 e no século 20, por exemplo, os Carnavais sempre foram marcados pela disputa pela rua, o direito à cidade, as tensões advindas do racismo religioso. Tudo que continua presente até hoje. Por isso, esse é um conjunto de festas muito significativo para a gente tentar entender o Brasil.
O que tensiona o Carnaval atualmente?
Me parece que o Carnaval é impactado muito fortemente por três dimensões. O primeiro é o conflito entre a ordem pública e o direito à rua, à cidade. De um lado, está o poder público que tenta ordenar o que acontece na rua. E de outro lado, você tem uma festa caracterizada por uma certa espontaneidade e que historicamente questiona esse ordenamento. Esse talvez seja o embate mais tradicional do Carnaval e ele continua muito forte.
Uma segunda dimensão é vinculada a um certo imaginário que liga o Carnaval ao pecado. Isso ocorre pelo avanço, nos últimos 30 anos, de algumas designações pentecostais —não todas, mas algumas— que elaboram um discurso de desqualificação dos saberes afro-brasileiros e das culturas de festa do Brasil. É uma disputa do mercado religioso e isso tensiona alguns prefeitos, como vimos há alguns anos com o [Marcelo] Crivella, no Rio.
A terceira dimensão é a que considero mais crucial nesse momento: o mercado. O mercado é um elemento disciplinador das sociedades contemporâneas e ele também tem interesse em disciplinar o Carnaval, a ordem pública. É isso o que vejo acontecendo em São Paulo e no Rio com os megablocos.
Porque há esse conflito entre os megablocos com artistas e os mais tradicionais?
O Carnaval vive hoje um dilema, porque há uma tensão entre o que é um evento da cultura e aquilo que é a cultura do evento. Parece só um jogo de palavras, mas não é.
O evento da cultura é orgânico. Podemos citar, por exemplo, um cortejo de maracatu, o desfile de uma escola de samba tradicional ou um Carnaval de rua com marchinhas, como acontece em São Luiz do Paraitinga [no interior de São Paulo]. Esses são efetivamente eventos da cultura.
O problema é que a gente vive num mundo cada vez mais marcado pelo imediatismo da cultura do evento, tudo tem que ser um grande evento, tem que ser mostrado e visto como exclusivo.
O mercado, então, entende o Carnaval como mais uma possibilidade de lucro se for disciplinado aos seus interesses. É o que está acontecendo em algumas cidades.
No Rio e em São Paulo, por exemplo, tem se usado muito a expressão dos megablocos. Se partirmos do ponto de vista da tradição do Carnaval, eles não são blocos. São, na verdade, um show que acontece no período carnavalesco.
Eles não têm a característica que é a essência do Carnaval de rua, que é a espontaneidade, o caráter transgressor. Essa essência está indo para as cucuias com os megablocos.
Como os megablocos podem prejudicar o Carnaval de rua?
Os blocos que fazem o Carnaval como um evento da cultura estão cada vez mais perdendo espaço para os shows. Isso é especialmente complicado porque não temos políticas públicas no Brasil para salvaguardar as tradições carnavalescas.
Tudo está sendo engolido pela financeirização da rua, da cidade, da vida. O mercado que abocanha tudo, hoje, está em cima do cangote do Carnaval. Talvez a gente ainda não tenha se dado conta da dimensão dessa captura pela lógica da cultura do evento.
O Carnaval de rua está sendo tragado e perdendo a sua dimensão existencial, de construção de vida, de encontrar uma identidade coletiva e reconstruir um encanto pelo mundo.
Tudo isso está sendo solapado por essa gana pelo gigantismo dos megaeventos. O mercado investe no que potencialmente irá trazer mais lucro, ainda que não tenha nenhuma relação com a tradição do Carnaval.
Tradição não é algo estático. A rigor, tradição é aquilo que é contemporâneo, mas dialoga com o passado. Um DJ escocês [Calvin Harris fez apresentação no pré-Carnaval de São Paulo] será que dialoga com a nossa tradição de Carnaval? Pode ser que sim. Eu não sou um purista, mas me soa estranho porque há uma ecologia sonora muito forte que marca a história dessa festa e que não está sendo preservada, apoiada, incentivada.
Como o senhor vê essa disputa entre prefeitos para ter ‘o maior Carnaval do mundo‘, o maior público?
É a financeirização em sua forma mais explícita. Buscam o maior Carnaval do mundo não porque as pessoas se divertem mais lá ou cá, mas para entrar no Guinness, para angariar mais dinheiro.
É evidente que o Carnaval tem uma dimensão econômica, mas é complicado quando você submete o Carnaval a essa lógica. É uma inversão que coloca em risco a própria festa. Porque o Carnaval fica submisso à marca que o patrocina, que está estampada na camisa do bloco, na bebida que o folião pode ou não beber. O que estão fazendo é colocar o Carnaval a serviço das marcas.
Ninguém está propondo que a gente volte ao carnaval de 1920. Mas precisamos refletir sobre como tudo isso está engolindo o Carnaval, tentando discipliná-lo à lógica dos grandes eventos. O conflito que está acontecendo é um sintoma poderoso do mundo em que a gente vive. Mas coloca em risco uma questão existencial do Carnaval.
Obviamente, o Carnaval mobiliza a economia, gera circulação de capital. Mas, se algum dia ele deixar de mobilizar e gerar lucro, vai ter algum maluco que vai pro meio da rua tocar “Jardineira” e vai ser acompanhado por outros caras. O Carnaval sobreviveu todos esses anos e a todas as tentativas de ordená-lo porque ele tem uma dimensão única de reconstrução coletiva do sentido da vida.
Em diversos momentos da história do Brasil houve tentativas de cercear o Carnaval, como ocorreu na ditadura. O senhor fala em um disciplinamento do Carnaval pelo mercado. Existe um paralelo entre o que aconteceu lá atrás e o que acontece agora?
Acho que são questões diferentes, mas há um paralelo ligado à ideia de você disciplinar a rua. E aí, podemos ir muito mais para trás do que a ditadura.
Por exemplo, o famoso episódio de 1912, quando o governo do presidente Hermes da Fonseca (1855-1923) quis transferir o Carnaval para outra data por causa da morte do Barão do Rio Branco (1845-1912). E o pau comeu. É o famoso ano em que tivemos dois carnavais, porque a turma ignorou a ordem do presidente e foi para rua fazer Carnaval. O couro comeu, mas o Carnaval existiu.
Depois com o Estado Novo, com Getúlio Vargas (1882-1954), que o tempo todo tentou disciplinar a rua, a festa. Ele tentou disciplinar não com a proibição, mas em uma lógica de cooptação.
O Carnaval, de certa maneira, sempre sobreviveu a essas tentativas de cerceamento. Eu sou um pessimista na maioria das coisas em relação à minha vida, mas, curiosamente, sou muito otimista em relação ao Carnaval. A história do Carnaval é um banho de otimismo.
O Carnaval tem essa incrível capacidade de se meter nas maiores encrencas e encontrar brechas pelas frestas para se reinventar. Isso é notável. Mas eu seria muito cauteloso em comparar as tentativas passadas de disciplinar o Carnaval com o que acontece hoje.
Hoje, o que está engolindo o Carnaval é o mercado. Existem tensionamentos políticos, mas a grande ameaça hoje é a financeirização da festa. O conflito travado pelos blocos de rua está em carne viva e é muito preocupante.
Raio-X | Luiz Antonio Simas, 58
1967, Rio de Janeiro. É carioca, escritor, professor, historiador e compositor. Autor de vários livros sobre cultura brasileira, história social, filosofia popular e religiosidades. Em 2023, foi homenageado pela Acadêmicos da Abolição, escola de samba da zona norte do Rio, na época na série Prata do Carnaval carioca, com o enredo “Bato Tambor, Logo Existo – Luiz Antonio Simas: a Essência e Resistência da Rua”.
Fonte ==> Folha SP
