Blocos de rua do Rio de Janeiro viabilizam seus Carnavais através de editais públicos e privados, festas pagas e apresentações até em casamentos. Entre 17 de janeiro e 22 de fevereiro, a cidade terá 462 blocos oficiais, com diferentes estratégias de financiamento.
Organizadores de blocos e patrocinadores ouvidos pela reportagem indicam que um bloco de porte médio a grande, com cerca de 50 mil foliões, precisa de ao menos R$ 20 mil para custear a estrutura inicial para tocar o Carnaval, que inclui carro de som, expedição de alvarás e contratação de seguranças.
No Rio, cortejos mais tradicionais, já conhecidos do público, conseguem contratos ao longo do ano com apresentações em casamentos, festas de formatura, participações em shows e ensaios pagos. O dinheiro auxilia no pagamento de músicos e equipamentos. Parte dos blocos atuais tem CNPJ.
Outras formas de financiamento são os editais de fomento, oferecidos pelo setor público e por empresas privadas.
“O custo de regularização no Vem Cá, Minha Flor sai na faixa de R$ 25 mil. Temos 150 componentes [músicos voluntários] e 30 prestadores de serviço. Hoje conseguimos financiar esse custo através de leis de incentivo voltados para o Carnaval. Foi assim nos últimos cinco anos”, afirma Leonardo Guidolini, produtor cultural e um dos fundadores do bloco que sai no dia 16 de fevereiro, no centro.
O governo estadual selecionou 60 blocos para receber R$ 50 mil cada um, via edital “Folia RJ 2026”. A mesma seleção destinou 40 vagas a blocos afro e afoxés, cada um com o mesmo valor em premiação. A prefeitura do Rio faz repasses através de associações de blocos, com aportes que variam entre R$ 5 mil e R$ 50 mil.
No setor privado, a Ambev publicou para este Carnaval editais no Rio e em São Paulo com valor de patrocínio de até R$ 1,4 milhão para cada um dos estados. Blocos com público estimado em até 5 mil foliões receberam R$ 10 mil. Os blocos médios, entre 5.001 e 20 mil foliões, embolsaram R$ 20 mil.
A novidade deste ano, também presente no Carnaval de São Paulo, é a criação de um bloco por uma empresa. Com Ivete Sangalo como atração, o aplicativo de mobilidade 99 idealizou os blocos “SeráQPede?”, que desfilou no último domingo (1°), no Rio, e o “Quem Pede, Pede”, dia 7, em São Paulo.
No Rio, três empresas de entregas e mobilidade, um banco digital, um site de apostas esportivas, uma plataforma de hospedagem e três marcas vinculadas à Ambev patrocinam a estrutura do Carnaval de rua.
O aporte, segundo fontes, passa dos R$ 30 milhões.
O patrocínio do setor privado banca estruturas como instalação de banheiros, gradeamento, montagem de postos de saúde e contratação de equipes para coleta de resíduos.
A Prefeitura do Rio concede a operação logística do Carnaval à Dream Factory, que também atua em outros eventos, como a árvore de natal da Lagoa.
“A cada fim de semana de Carnaval, a cidade entra em um novo ritmo, e nossa operação já está preparada para esse movimento”, afirma Bruno Guerra, diretor de produtos da Dream Factory.
Blocos passam por seis etapas de credenciamento
Blocos cadastrados pela prefeitura precisam passar por seis etapas de credenciamento, que incluem pedidos de autorização para polícias Militar e Civil, Corpo de Bombeiros, além de rotas, datas e estimativa de público.
Há blocos que preferem se manter fora da lista oficial, ou não conseguem a autorização. Procurados pelas redes sociais, eles não possuem itinerário e horário definidos, e costumam se encontrar, criando cortejos que podem passar das dez horas de duração, com milhares de pessoas.
Em bairros com ruas apertadas, como Santa Teresa, no centro, moradores têm protestado contra a presença dos blocos não oficiais, já que nestes não há oferta de banheiros químicos nem interdição do trânsito, por não estarem cadastrados.
A prefeitura carioca espera 6 milhões de pessoas no Carnaval de rua, entre turistas e moradores. O número superlativo é quase o de habitantes da capital fluminense —6,2 milhões, segundo o Censo de 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Em São Paulo, a prefeitura afirma que 627 blocos estão inscritos para o Carnaval. O patrocínio é de R$ 30,2 milhões, fechado com a Ambev.
Apesar do aporte, organizadores têm reclamado de falta de acesso a verba de patrocinadores, e blocos conhecidos ameaçam não desfilar. O Sargento Pimenta afirmou que não irá desfilar em São Paulo. O cortejo está confirmado no Rio, dia 16.
Entre os obstáculos citados em São Paulo está a concorrência com megablocos, com apresentação de artistas famosos.
O presidente da SPTuris, Gustavo Pires, afirmou que este ano foi registrado recorde de inscrições e menor número de desistências, indício, segundo ele, de que não há dificuldade para a viabilização dos desfiles.
Tradição de cortejos ganhou novo fôlego na última década
Fundadores de blocos e foliões do Rio atribuem a magnitude do Carnaval de rua carioca a uma retomada orgânica da tradição a partir da década de 2010. Eles afirmam que o hábito de frequentar blocos no Rio estava adormecido, com parte da classe média preferindo viajar durante o feriado do Carnaval.
Blocos como o Cordão do Boitatá, Monobloco e Imprensa que eu Gamo— que encerrou as atividades no ano passado —são, na visão deles, alguns dos responsáveis pelo renascimento da folia de rua carioca.
“Teve um período entre o fim dos anos 1990 e início dos anos 2000 que a cidade passou por um esvaziamento de blocos. A partir de 2008, o Carnaval de rua foi retomado e virou um fenômeno da economia criativa da cidade. Mas para sair é preciso compromisso com órgãos públicos, uma série de documentos, é um trabalho oneroso, não é um processo fácil”, diz Guidolini.
O Carnaval de rua do Rio de 2008, citado por Guidolini, contou com patrocínio privado de uma cervejaria nos principais blocos.
Fonte ==> Folha SP
