Ceará adota linha-dura na segurança com alta letalidade – 26/01/2026 – Cotidiano

Ceará adota linha-dura na segurança com alta letalidade - 26/01/2026 - Cotidiano

Em meio a um país sob impacto da operação mais letal da história, que deixou 122 mortos nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, o governador Elmano de Freitas (PT) foi às redes sociais celebrar uma ação policial que deixou sete suspeitos mortos em Canindé, interior do Ceará.

“Nenhum policial morto. Nenhum inocente alvejado. A população protegida”, escreveu o governador petista em 31 de outubro, dia que fecharia o mês com maior letalidade da história recente do Ceará – foram 41 mortes em ações policiais, maior número desde janeiro de 2013.

Enfrentando um cenário desafiador de avanço das facções criminosas, com embates entre grupos rivais, o governo do Ceará dobrou a aposta em uma política de segurança linha-dura, com mais policiamento ostensivo, recordes de prisões e uma estratégia do presença nas comunidades.

Exemplo disso foram as diversas fases da operação Integração Saturação Total, focada em combater a ação de facções como o Comando Vermelho, Terceiro Comando Puro e Guardiões do Estado. O objetivo é reduzir os indicadores de mortes violentas em Fortaleza e cidades do interior.

Entre janeiro e outubro de 2025, foram presas 2.423 pessoas por suspeita de morte violenta, crescimento de 35% em relação ao ano anterior. No mesmo período, foram 2.135 presos por pertencer a uma organização criminosa, um avanço de 93% comparado aos mesmos meses de 2024.

O governador também adotou medidas para ampliar o efetivo nas ruas, com a nomeação de 3.000 novos policiais e a aprovação de uma lei que autoriza a compra de até dez dias de férias dos policiais militares e civis, desde que o servidor manifeste interesse.

Em 2025, houve recordes na apreensão de armas e queda nos indicadores de roubo e de mortes no total de mortes violentas, interrompendo uma tendência de crescimento.

No ano passado, foram 3.221 mortes violentas, número que inclui homicídio, feminicídio, morte por intervenção policial, roubo seguido de morte e lesão corporal seguida de morte. A redução foi de 6,9% em relação ao ano anterior.

Mesmo com a queda, o Ceará o terceiro estado com mais assassinatos em números absolutos.

As mortes decorrentes de intervenção policial, por outro lado, cresceram no período. Foram 199 casos em 2025, alta de 5,3% em relação ao ano anterior.

Na avaliação do secretário de Segurança Pública, Roberto Sá, o fenômeno está ligado ao acirramento do conflito entre facções.

“Aumentou a letalidade, aumentou o número de armas apreendidas, aumentou as intervenções policiais. A polícia usa os mecanismos que tem para poder se proteger e proteger a sociedade”, afirma.

O avanço da letalidade policial, contudo, é visto com reservas por pesquisadores, parlamentares e familiares de vítimas, que veem uma política de segurança com alto custo social.

“Nós entendemos que a boa operação é aquela que prende. Não se pode glorificar a morte como política pública”, deputado Renato Roseno (PSOL), presidente do Comitê de Prevenção à Violência da Assembleia Legislativa do Ceará.

Estudo mostra tropa sob alto grau de estresse

Os impactos deste cenário são visíveis na própria corporação. Um estudo da Universidade Federal do Ceará com mais de 1.800 policiais militares revela uma tropa sob alto estresse.

Os dados mostram que 67,5% do efetivo possui algum grau de comprometimento operacional ou institucional, 44,1% já manifestou desejo de deixar a corporação e 26,1% vive sofrimento psíquico intenso.

Em uma nota técnica, a universidade alertou para a aprovação da lei que permite a compra de férias dos policiais, destacando que o trabalho sem um período de descanso adequado levará a um aumento nas licenças médicas e a custos extras de milhões de reais.

Na avaliação de Roseno, esse adoecimento é parte do custo de um modelo com foco excessivo no policiamento ostensivo, que seria ineficiente.

O cotidiano marcado pela violência também pressiona as famílias das periferias, que convivem com territórios dominados por grupos criminosos e uma ação do estado que tem a repressão policial como face mais visível.

Mães buscam responsabilização e alternativas à violência na periferia

É neste cenário que surgiram grupos como o Mães da Periferia, criado como um desdobramento de episódios como a Chacina do Curió, ação policial que deixou 11 mortos e sete feridos na periferia de Fortaleza em outubro de 2015.

“Foram todos mortos pela polícia”, diz Edna Carla Souza Cavalcante, 54, pesquisadora social e mãe de Álef Souza Cavalcante, que tinha 17 anos quando foi morto na chacina. Ela é a organizadora do livro “Onze”, que reúne relatos e dá voz aos familiares dos jovens mortos no episódio.

Em setembro, dois policiais foram condenados pela chacina com penas que, somadas, chegam a 591 anos. Outros quatro policiais haviam sido condenados em junho de 2023 e ao menos outros 15 foram absolvidos. “A maior reparação que podia acontecer era nunca mais ter mortos na periferia”, afirma Edna.

O governo cearense tem buscado ampliar ações de prevenção. Uma das vitrines é o PreVio (Programa Integrado de Prevenção e Redução da Violência), que teve R$ 350 milhões em financiamento do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) para atuar em dez municípios.

O Comitê de Prevenção à Violência da Assembleia defende uma estratégia protetiva, com foco em redes comunitárias e sistemas de informação baseados em evidências para evitar que jovens sejam capturados por grupos criminosos.

“Medidas populistas de força rendem voto, mas não rendem eficiência. É preciso identificar quais grupos são mais vulneráveis, como chegar a estes grupos, como fazer com que adolescentes voltem à escola. E também atender a vítima, porque toda vítima de violência letal deixa uma família”, explica Roseno.

Para o secretário Roberto Sá, a proteção social tem que caminhar com o endurecimento da legislação para crimes violentos.

“O Ceará tem muitos programas de inclusão social, tem melhor educação do país. Mas é preciso aumentar as oportunidades. E uma vez que haja oportunidade, aquele que escolhe entrar para o mundo do crime tem que ter uma consequência”, avalia.



Fonte ==> Folha SP

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