Como a IA ajuda a prever a florada das cerejeiras no Japão – 06/04/2026 – Ambiente

Grupo de pessoas sentadas em toalhas e cangas em parque com árvores de cerejeira floridas. Ambiente ao ar livre com luz suave e clima ameno.

No Japão, a época das cerejeiras em flor costuma ser de despreocupação; é quando as famílias se reúnem para fazer piquenique sob as árvores e os amigos se encontram para a “contemplação” noturna. Já para Hiroki Ito, cientista de dados e meteorologista especializado na delicada arte de prever a data exata da florada, sempre foi sinônimo de estresse.

As flores, tão apreciadas, geram uma receita anual estimada em mais de US$ 9 bilhões (cerca de R$ 46 bi), entre o turismo e outras atividades. Por isso, as companhias aéreas, os hotéis e os restaurantes dependem das previsões —sem falar nos 123 milhões de japoneses que querem saber o momento de ir aos parques e jardins públicos para conferir o auge da floração.

“É muita pressão; sinto o peso da história. Na verdade, tenho um pouco de medo da primavera. Não consigo aproveitá-la plenamente”, confessou ele, que trabalha há mais de uma década na Corporação Meteorológica do Japão em Osaka, uma das principais entidades de previsão.

Além dele, outros especialistas passaram a usar uma ferramenta que deve reduzir parte do fardo da responsabilidade: a inteligência artificial. Estão adotando sistemas para analisar décadas de informações de temperatura e fornecer mapas e “medidores” para as árvores em mais de mil locais, com floradas em épocas diferentes.

Este ano, estão coletando fotos do público para alimentar os bancos de dados e, com isso, poderão rastrear o crescimento dos botões que se formam no verão, permanecem dormentes durante o inverno e levam de duas semanas a um mês para desabrochar, depois de ficarem verdes na primavera.

Antigamente, só contavam com as análises dos padrões climáticos feitas por computador e a observação das árvores para prever a chegada da “frente de floração”, nem sempre com sucesso. Em 2007, por exemplo, os funcionários da Agência Meteorológica Oficial do Japão foram obrigados a se desculpar pela TV, depois que uma falha no sistema gerou uma discrepância de até nove dias em alguns lugares.

Os cientistas afirmam que a IA garante mais eficiência e precisão ao processo, permitindo que as primeiras previsões fossem divulgadas com alguma antecedência, em dezembro —ou seja, três meses antes do início da temporada principal.

Shunsuke Arioka, meteorologista da Weathernews em Chiba que costumava basear as previsões principalmente em modelos básicos de computação e fórmulas, agora realiza análises em milhares de fotos enviadas por usuários através do aplicativo da empresa, que conta com mais de 50 milhões de arquivos. Em um fim de semana recente, a companhia recebeu mais de 8.000, classificadas pela tecnologia em sete estágios de floração. “Poupa um tempo precioso. São dados de milhões de pessoas, mas agora temos condições de classificá-los instantaneamente.”

De fato, há muita coisa em jogo, pois milhões de turistas de fora e de dentro do país planejam a viagem com base no calendário de floração; as prefeituras realizam festivais baseadas na alta temporada; os restaurantes preparam cardápios temáticos de sakura, investindo em ingredientes como flores em conserva; os moradores organizam festas para admirar as flores, às vezes fazendo fila nos parques durante a noite para garantir os espaços tão disputados.

O costume de admirar as floradas, conhecido como hanami, remonta ao século 9, quando o Imperador Saga incentivava o público a admirá-las, chegando a encomendar poemas sobre elas. No Japão, diz-se que sua natureza efêmera —já que caem em uma semana— simboliza a essência da vida.

As primeiras flores aparecem em áreas subtropicais, incluindo Shikoku, no sul, em meados de março; a seguir, na ilha vulcânica de Kyushu, subindo pelos Alpes japoneses até a parte norte de Honshu, encerrando o ciclo no início de maio em Hokkaido, no extremo norte, perto da Rússia. Este ano, Tóquio estava em plena floração em 28 de março.

O aumento das temperaturas globais nas últimas décadas antecipou o fenômeno em alguns dias, dificultando ainda mais as previsões. Este ano não foi diferente, devido ao clima excepcionalmente quente em todo o Japão.

A Agência Meteorológica começou as previsões em 1951, e embora não trabalhe mais com as datas de floração, ainda desempenha um papel importante no processo, coletando dados e anunciando o início da temporada com grande alarde.

Mesmo que os meteorologistas adotem sistemas de ponta, continuam realizando o trabalho de campo, inspecionando as árvores de perto em áreas verdes como o Santuário Yasukuni, próximo ao Palácio Imperial de Tóquio, onde as estudam há décadas, examinando os botões rosa-claro da principal variedade ornamental, conhecida como Somei-yoshino.

Na sede da Corporação Meteorológica, Ito, ansioso, analisa os dados para garantir que a análise de IA seja feita corretamente. A empresa já fez dez previsões desde dezembro sobre a data do pico de floração em Tóquio, e todas foram precisas, com uma margem de apenas um ou dois dias.

Ele se diz otimista em relação à inteligência artificial, embora afirme que os humanos sempre terão um papel importante nas previsões. “Ainda não consigo relaxar totalmente. Talvez daqui a alguns anos, quem sabe, quando os dados se provarem mais confiáveis, eu possa me sentir mais tranquilo.”



Fonte ==> Folha SP

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