A construção civil, historicamente um dos pilares da economia brasileira, atravessa um período de ajustes e transformações profundas.
Depois de anos marcados por instabilidade política, altos custos de crédito e retração em grandes investimentos, o setor começa a dar sinais de recuperação, impulsionado por novos modelos de financiamento, demanda por habitação e pela retomada de obras corporativas e de infraestrutura.
De acordo com dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), o PIB da construção cresceu 2,8% em 2023, acima da média da economia nacional. O setor também registrou a geração de mais de 250 mil novos postos de trabalho formais, consolidando-se como um dos maiores empregadores do país. Mesmo assim, os desafios permanecem: a alta dos juros encarece financiamentos, a falta de mão de obra qualificada preocupa e o setor precisa se adaptar cada vez mais a exigências de sustentabilidade e eficiência.
Para o engenheiro civil Rodrigo Cará Monteiro, que participou de algumas das maiores obras do país, como o Allianz Parque, o complexo JK Plaza em São Paulo e a sede da Petrobras no Rio de Janeiro, o cenário atual exige inovação e planejamento estratégico. “O setor de construção no Brasil vive ciclos muito voláteis, mas também é resiliente. Acredito que a retomada se dará pela combinação entre obras de infraestrutura, que exigem investimento público, e projetos privados de grande porte, que demandam novas soluções construtivas e velocidade de execução”, avalia.
Rodrigo também aponta que a experiência internacional deve servir de inspiração para o Brasil. Entre 2005 e 2008, ele liderou a implantação da Camargo Corrêa em Angola, em um projeto que movimentou quase um bilhão de dólares em contratos. “Trabalhar em mercados em desenvolvimento mostrou como a infraestrutura é decisiva para transformar economias. O Brasil precisa de planejamento de longo prazo e estabilidade regulatória para atrair investidores”, acrescenta.

Outra tendência relevante é o crescimento das obras corporativas e de interiores, setor que ganhou força após a pandemia com a necessidade de espaços mais flexíveis e tecnológicos. De 2018 a 2021, Rodrigo esteve à frente da Athie Wohnrath, maior escritório de arquitetura e obras corporativas do país, e viu de perto essa transformação. “O novo mercado corporativo exige eficiência, sustentabilidade e experiência do usuário. As obras não são apenas sobre construir espaços, mas sobre criar ambientes que reflitam cultura e estratégia das empresas”, explica.
Com o setor em recuperação, especialistas concordam que a construção civil pode ser novamente motor da economia, desde que consiga equilibrar inovação, eficiência e sustentabilidade. A diversificação de materiais, a adoção de tecnologias como BIM e estruturas metálicas, além de novos formatos de parceria entre setor público e privado, são apontados como caminhos para garantir competitividade.
Para Rodrigo, a engenharia brasileira tem capacidade de enfrentar esses desafios. “Já mostramos que sabemos executar obras complexas em tempo recorde e com qualidade. O que falta é continuidade, planejamento e políticas que permitam que o setor avance de forma consistente. A construção pode ser protagonista do crescimento do Brasil se conseguirmos alinhar técnica, economia e visão de futuro.”