COP30 uniu iniciativas lançadas em outras conferências – 22/11/2025 – Ambiente

Multidão de pessoas com guarda-chuvas e roupas variadas reunidas em frente à entrada do evento COP30 Brasil Amazônia, com fachada decorada e bandeira do Brasil visível.

Em abril, quando o vice-presidente da Fiesp Dan Ioschpe foi escolhido pelo governo federal para assumir o cargo de campeão de alto nível da COP30, ele recebeu um mandato: a conferência deveria ajudar a transformar em prática as promessas de coalizões formadas por empresas e organizações da sociedade civil em eventos climáticos anteriores.

A tarefa não era fácil. Primeiro porque não se sabia quantas coalizões existiam. A UNFCCC, o braço climático da ONU, tem uma plataforma onde elas deveriam estar cadastradas, mas quando técnicos do governo foram checar, no primeiro semestre deste ano, havia apenas 170 registradas.

“Havia várias iniciativas que eu conhecia que não estavam lá, então eu sabia que não era bem aquilo”, diz Bruna Cerqueira, coordenadora-geral da Agenda de Ação da presidência da COP30. Esse é o nome dado pela ONU para o processo das conferências responsável por dialogar com empresas e organizações da sociedade civil.

Foi aí, então, que começou o primeiro trabalho da equipe responsável por essa agenda, formada por cerca de cem pessoas. Ao todo, o grupo contabilizou e entrou em contato com 722 iniciativas globais, sendo que 482 responderam ao chamado. O primeiro pedido dos organizadores era sobre transparência; eles queriam saber em que estágio estavam os compromissos selados por essas coalizões em conferências anteriores.

O passo seguinte foi uni-las em 30 grupos a partir dos seis eixos centrais determinados em conjunto pela presidência da COP30, a UNFCCC e o time sob o comando de Ioschpe. Eles incluem transição energética, biodiversidade, segurança alimentar, adaptação às mudanças climáticas, cultura e financiamento.

Os grupos se reuniram três vezes de julho até o início da COP para se conhecerem e encontrar soluções de forma conjunta.

“Como já havia tantas iniciativas, estávamos menos preocupados em criar novos compromissos. O que a gente queria era efetivar a implementação com a maior rapidez possível”, afirma Ioschpe, figura importante na indústria brasileira, inclusive com passagem por conselhos de administração de grandes empresas.

E o perfil industrial influenciou o andamento da agenda. Dentro dos grupos, por exemplo, as coalizões se uniram para formular planos para acelerar as soluções que elas mesmo tinham em mente quando foram criadas.

O documento, assim como num ambiente corporativo, deveria conter diagnóstico do problema, barreiras a serem encaradas, responsabilidades de cada ator no plano e alavancas que poderiam ajudar na escala das soluções –em alguns casos, também houve contribuições de ministérios brasileiros, como da Fazenda e do Minas e Energia. Ao final, 120 planos foram apresentados.

“Eles já estão publicados, e agora quem toca é quem se propôs a fazer. A ideia é que isso seja monitorado no ano que vem e que tenha um ciclo de reporte anual”, diz Cerqueira, da presidência da COP30.

Entre os participantes, a impressão é que o formato adotado pelo governo foi eficiente, principalmente em reunir iniciativas que não se conheciam antes do trabalho.

“A presidência da COP30 fez algo muito admirável que é organizar a bagunça. A Agenda de Ação começou, lá atrás, de uma forma orgânica, mas neste ano havia mais 700 iniciativas com pouco acompanhamento de implementação”, diz Patrícia Ellen da Silva, fundadora do Aya Earth Partners e participante de alguns grupos.

Marc Moutinho, responsável pelo Acelerador de Transição Industrial (ITA) no Brasil, por exemplo, diz que sua iniciativa, lançada na COP28, participou da construção de cinco planos sobre descarbonização de setores de difícil abatimento. O trabalho foi feito junto com a Breakthrough Agenda, lançada na COP26.

“Os planos para acelerar soluções foram, de certa forma, mais fáceis de fazer em setores onde já havia iniciativas tentando coordenar, como no processo de descarbonização do cimento ou do aço. Mas, no setor de fertilizantes, por exemplo, não havia nenhuma iniciativa na coordenação, então a agenda de ação se tornou valiosa”, afirma.

Para Rohini Kohli, chefe de Adaptação às Mudanças Climáticas da Climate Promise UNDP (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), a coordenação também foi importante para os avanços de discussões sobre adaptação de cidades às mudanças climáticas. Ao final do processo, o grupo responsável pelo tema optou por criar uma aliança entre países e organizações.

“A presidência brasileira realmente liderou essa discussão; eles envolveram o governo da Itália, Alemanha e muitos outros atores em uma mesa redonda”, diz Kohli.

Alguns desses encontros aconteceram em salas temáticas organizadas pela equipe da Agenda de Ação –foi a primeira vez que esse braço da presidência da COP teve um pavilhão próprio na conferência. Para usá-las, aliás, as iniciativas precisavam já ter reportado seus avanços para a equipe da agenda.

Nesses encontros também foram anunciados compromissos importantes, como da Uneza, aliança criada na COP28 entre empresas do setor de energia. A iniciativa, que se uniu na COP30 com outras alianças, se comprometeu a atrair US$ 1 trilhão em expansão de baterias e linhas de transmissão até 2030.

Foi em uma dessas salas também onde aconteceu a cerimônia para celebrar a entrada do Brasil na iniciativa Drive to Zero, que pretende eletrificar todos os veículos médios e pesados do mundo até 2040. Como a Folha reportou, o objetivo vai em direção contrário à estratégia defendida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o que fez o Ministério dos Transportes voltar atrás na adesão.

Agora, com o fim da COP30, o esforço é para que os grupos se mantenham ativos, inclusive focando na implementação de seus planos. Para isso, o engajamento da presidência da COP31, a ser realizada na Turquia, é visto como fundamental, ainda que a interação entre as iniciativas já tenha sido feita s.

“Diferente dos anos anteriores, nós estamos propondo que essa continuidade se dê pela satisfação do ecossistema; isso torna mais fácil a vida de quem está chegando”, diz Ioschpe. “Mas nós vamos ter uma visão mais interessante nas próximas semanas, quando haverá definições sobre a próxima presidência. Espero que não sejam meses, mas sim semanas.”



Fonte ==> Folha SP

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