Daniel Vorcaro: quem faz parte de ‘A Turma’ – 04/03/2026 – Economia

Homem de barba e cabelo escuro veste terno azul e gravata clara, falando ao microfone azul em ambiente interno com iluminação azul e público ao fundo.

A decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que autorizou uma nova fase da Operação Compliance Zero e levou Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, novamente à prisão, se baseou em investigações da Polícia Federal, que apontam a existência de um grupo de vigilância e intimidação.

Segundo as investigações, um núcleo informal conhecido como “A Turma” funcionava para monitorar e pressionar pessoas consideradas adversárias do banqueiro ou ligadas às apurações sobre o banco.

De acordo com a Polícia Federal, estão em curso investigações por suspeitas da prática de crimes de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos praticados por organização criminosa.

Daniel Vorcaro

No grupo apelidado de “A Turma”, as autoridades apontam que Vorcaro ordenou ações de intimidação e monitoramento ilegal de adversários, ex-empregados e jornalistas que acompanhavam as denúncias sobre o Master.

Mensagens analisadas pelos investigadores teriam inclusive instruções para uso de violência contra críticos.

O banco é alvo de uma série de apurações por suspeitas de fraude bilionária, lavagem de dinheiro e organização criminosa conduzidas pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero.

Vorcaro foi preso em 17 de novembro de 2025 e novamente em 4 de março de 2026, em São Paulo, por determinação do Supremo Tribunal Federal como parte da terceira fase da operação.

A defesa de Vorcaro afirma que o empresário sempre esteve à disposição das autoridades, colaborando de forma transparente com as investigações desde o início, e jamais tentou obstruir o trabalho das autoridades ou da Justiça. A defesa nega categoricamente as alegações atribuídas ao dono do Master e diz confiar que o esclarecimento completo dos fatos demonstrará a regularidade de sua conduta.

Fabiano Campos Zettel

Cunhado de Vorcaro, o empresário é ex-pastor da igreja Lagoinha e, segundo a Polícia Federal, participou da administração e operacionalização de pagamentos e repasses que sustentavam a estrutura paralela de vigilância e coleta de informação.

Sua prisão preventiva foi decretada junto com a de Vorcaro na terceira fase da Compliance Zero. Seus advogados, Maurício Campos e Juliano Brasileiro, disseram que Zettel se apresentou à Polícia Federal. “Em que pese não ter tido acesso ao objeto das investigações, Fabiano está à inteira disposição das autoridades”, afirmaram, em nota.

Casado com Natalia Vorcaro, nos últimos anos, Zettel ganhou projeção no meio empresarial como fundador e CEO da Moriah Asset, gestora que se apresenta como o primeiro e maior private equity focado em bem-estar no Brasil.

Por meio da Moriah, tornou-se sócio de negócios como o Grupo Frutaria (Frutaria São Paulo, Empório Frutaria e Néctar), da rede de açaí Oakberry, da academia de luxo Les Cinq, da Desinchá e da Super Nutrition, marca de suplementos como creatina.

Em 2022, foi o maior doador das campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, com cerca de R$ 5 milhões no total —R$ 3 milhões para Bolsonaro e R$ 2 milhões para Tarcísio. Também destinou R$ 10 mil à campanha de Lucas de Vasconcelos Gonzalez (Novo) a deputado federal por Minas Gerais. No ranking geral daquele ano, foi o sexto maior doador eleitoral.

Zettel teve ainda passagem por empresas ligadas a Daniel Vorcaro. Foi diretor da Super Empreendimentos, que em 2024 comprou a casa de R$ 36 milhões usada por Vorcaro em Brasília como ponto de encontros com políticos.

A empresa pertence a um fundo gerido pela Reag, alvo da operação Carbono Oculto. A Super também doou um apartamento de quase R$ 4,4 milhões a uma mulher citada em operação policial de 2022 contra o tráfico de drogas —acusação negada pela defesa dela. O imóvel havia sido comprado da Viking, empresa da qual Vorcaro é sócio.

Zettel deixou a diretoria da Super em julho de 2024. Empresas dele e de Vorcaro aparecem registradas no mesmo endereço comercial em Belo Horizonte, segundo levantamento com base em dados da Receita Federal.

Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão

Identificado nas mensagens como “Felipe Mourão” e apelidado de “Sicário”, foi identificado pela PF como operador central de “A Turma”, sendo responsável por coordenar grupos de vigilância e monitoramento de alvos considerados adversários.

As investigações indicam que Mourão acessava bases restritas de órgãos públicos —inclusive sistemas da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e até de entidades internacionais— por meio de credenciais de terceiros.

Ele também atuaria na coleta de dados sobre autoridades, jornalistas e críticos, na remoção de conteúdos digitais mediante expedientes que simulavam pedidos oficiais e na mobilização de equipes para monitoramento presencial e intimidação.

Segundo os investigadores, mensagens analisadas apontam que ele recebia cerca de R$ 1 milhão por mês, por intermédio de Zettel, como remuneração pelos serviços, valor que seria distribuído entre integrantes do grupo.

Em conversas, Mourão se dispõe a colocar pessoas para seguir alvos e reage positivamente a mensagens que sugerem agressões físicas contra o jornalista Lauro Jardim, de O Globo, o que levou a polícia a apontar indícios de planejamento de atos violentos para constranger ou silenciar críticos.

A defesa dele não foi localizada pela reportagem.

Marilson Roseno da Silva

Policial federal aposentado é apontado pela PF como integrante relevante da estrutura de coerção do grupo de Vorcaro. Segundo a Polícia Federal, ele teria usado sua experiência e seus contatos para acessar dados sensíveis, monitorar pessoas consideradas adversárias —como jornalistas e ex-funcionários— e antecipar riscos decorrentes de investigações oficiais.

As apurações indicam ainda que ele colaborava na logística das diligências informais, ajudando a identificar e localizar alvos e a levantar informações estratégicas, em coordenação com outros integrantes do núcleo, sob liderança operacional de Sicário.

A defesa dele não foi localizada pela reportagem.

Paulo Sérgio Neves de Souza

Paulo Sérgio Souza era chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central e, segundo as investigações, passou a atuar informalmente em favor de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master —instituição que ele próprio ajudava a fiscalizar.

As investigações da PF indicam que o servidor prestava consultoria estratégica ao banqueiro, orientando sobre a atuação do Banco Central em processos administrativos, sugerindo argumentos para reuniões e revisando previamente ofícios e relatórios que seriam enviados à autarquia. Também teria funcionado como interlocutor interno dos interesses do banco, fornecendo informações sobre procedimentos em curso, antecipando movimentações detectadas pelos sistemas de monitoramento e indicando caminhos para reduzir riscos regulatórios.

As apurações apontam ainda que ele participava de grupo de mensagens com Vorcaro e outro investigado, Belline Santana, para discutir estratégias e compartilhar documentos, além de intermediar tratativas relacionadas a operações societárias e financeiras do conglomerado.

Em contrapartida, há indícios de recebimento de vantagens indevidas, supostamente viabilizadas por estruturas destinadas a ocultar os pagamentos. Mensagens também sugerem que o banqueiro teria custeado serviços para uma viagem do servidor a parques temáticos em Orlando, nos Estados Unidos, reforçando a suspeita de contrapartidas ilícitas.

A defesa dele não foi localizada pela reportagem.

Belline Santana

Ocupava o cargo de Chefe do DESUP (Departamento de Supervisão Bancária) no Banco Central quando parte dos fatos ocorreu. Segundo as investigações, ela manteve interlocução frequente com Daniel Vorcaro, passando a atuar informalmente em favor da instituição que deveria supervisionar.

De acordo com os elementos reunidos, ele prestava consultoria estratégica ao banqueiro sobre processos administrativos e temas regulatórios, revisava minutas e documentos que seriam enviados ao próprio Banco Central e participava de reuniões reservadas, inclusive fora da autarquia. Também integrava um grupo de mensagens com Vorcaro e outro servidor para discutir estratégias e acompanhar decisões internas da supervisão bancária.

As apurações indicam ainda que Belline teria recebido pagamentos pelos serviços, por meio de contrato simulado com uma empresa de consultoria, utilizado para justificar repasses financeiros. Mensagens citadas na investigação apontam preocupação em ocultar a origem dos valores e em estruturar os pagamentos de forma indireta, com indícios de lavagem de dinheiro.

A defesa dele não foi localizada pela reportagem.

Leonardo Augusto Furtado Palhares

É apontado pela Polícia Federal como o responsável por formalizar o contrato usado para justificar pagamentos à então chefe do DESUP, Belline Santana.

Na condição de administrador da Varajo Consultoria Empresarial, ele assinou proposta de prestação de serviços que previa a contratação de Belline para um suposto projeto sobre inserção de jovens no mercado financeiro. Segundo as investigações, o documento foi elaborado para dar aparência de legalidade aos repasses financeiros a ele.

A reportagem não localizou a defesa de Palhares.

Ana Claudia Queiroz de Paiva

Segundo a PF, Ana Cláudia atuou na operacionalização de movimentações financeiras relacionadas ao grupo investigado, atuando na gestão e execução de transferências financeiras associadas a iniciativas atribuídas a Daniel Vorcaro.

Sua atuação incluía a movimentação de recursos e a execução de pagamentos a integrantes do núcleo. Ela também integrava formalmente a estrutura societária usada para viabilizar a circulação de recursos, como sócia da Super Empreendimentos e Participações S.A.

As investigações indicam ainda que diversas empresas teriam sido utilizadas como instrumentos para formalizar contratos fictícios, estruturar repasses, intermediar recursos e ocultar a origem de valores, no contexto de suspeitas de crimes financeiros e lavagem de dinheiro.

Procurada por e-mail e três chamadas telefônicas desde às 13h03, Ana Cláudia não respondeu nem atendeu às ligações da reportagem até o momento.



Fonte ==> Folha SP

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