David Byrne lança no Brasil conto sobre animal estranho – 08/05/2025 – Ilustríssima

O músico, compositor e escritor David Byrne

[RESUMO] O músico David Byrne conta como criou a história de “Ela”, sobre a paixão não correspondida de um professor por uma fêmea de estranha espécie de réptil, narrativa curta que inaugura editora brasileira voltada a publicar livros sobre animais.

“Ela” é uma breve narrativa escrita por David Byrne, que inaugura uma editora brasileira dedicada a histórias sobre animais. É a Talking Animals Publishing House, criada pela designer gráfica Renata Zincone. O lançamento do livro acontece nesta quinta (8/5), no centro cultural literário Escrevedeira, na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo.

O texto, ficcional, nos convida a conhecer a experiência de um professor que descobre e faz contato com um animal raramente avistável, a Chamandra. O que se lê são os registros deixados por ele —e expostos pelo narrador— sobre seus encontros com uma fêmea da espécie, que foi encontrada nos subúrbios de St. Louis, nos Estados Unidos.

“A aparência física da Chamandra é surpreendente: grandes olhos castanhos e uma pelagem castanha lustrosa; e, quando adulta, seus pelos crescem ligeiramente mais do que os do macho. Numerosas glândulas em seu corpo secretam um unguento oleoso e perfumado, que a Chamandra usa exclusivamente para alisar e acalmar o parceiro”, revelam as anotações.

Uma relação ambígua se estabelece entre ele e ela, a Chamandra, com tentativas de aproximação e de entendimento que podem sugerir a alguns jogos de sedução entre humanos, no caso entre um homem e uma mulher.

A alusão não parece descabida, como diz Byrne ao comentar, em entrevista por e-mail, as origens da narrativa: “Às vezes, eu brincava chamando minha parceira como se ela fosse a fêmea de alguma espécie animal —e então eu assumia um tom professoral e fingia explicar os hábitos, comportamentos e peculiaridades da espécie dela. Claro que todos nós somos animais, então usando esse artifício de distanciamento, eu podia falar do humano como se fôssemos uma espécie exótica —o que de certa forma somos! Era um jogo divertido, mas também servia como uma forma de olhar para nós mesmos”, diz Byrne à Folha ao comentar, em entrevista por e-mail, como surgiu a narrativa.

O cantor, compositor, escritor, diretor de cinema e estrela da banda Talking Heads, uma das mais importantes em atividade na década de 1980, conta que tinha lido algumas histórias do escritor norte-americano H.P. Lovecraft (1890-1937) —”e daí veio a ideia de o narrador descobrir os papéis do professor sobre a Chamandra”.

“Percebi que o animal não deveria ser fofo ou aconchegante, mas sim um réptil de algum tipo —um que fosse esquivo, mas que às vezes pudesse ser encontrado nos subúrbios norte-americanos. Uma selvageria nos lugares mais domesticados. Imaginei que o amor e a fixação dele por essa criatura deveriam ser surpreendentes, talvez até um pouco repugnantes também”, diz. E completa: “Decidi que não deveria haver intimidade física, mas na história há paixão e amor, embora pareça ser unilateral. Um amor desesperadamente não correspondido.”

Byrne diz que frequentemente tenta conversar com animais. “Imito o canto dos pássaros quando os ouço na floresta, só para ver se eles me respondem. Faço ‘múú’ para as vacas e ‘béé’ para as ovelhas. Não tenho certeza se funciona, mas de alguma forma sinto que isso pode tranquilizá-los de que não vou lhes fazer mal.”

Desnecessário dizer que ele vê com apreensão as agressões ambientais cometidas pela espécie humana.

“Ontem à noite fui a um show e usei um chapéu com os dizeres ‘espécie invasora’. Em nosso curto tempo como humanos na Terra, fizemos mudanças enormes —parece que tornaremos nosso habitat muito mais difícil de viver. Se medirmos o sucesso pela sobrevivência e pelo tempo de existência na Terra, então os insetos e muitas outras criaturas são mais bem-sucedidos do que nós. Sociedades tradicionais —na Amazônia e em outros lugares— existem há mais tempo do que nós e, por isso, podem ser vistas como mais bem-sucedidas.”

Renata Zincone, que criou a editora, trabalhou em revistas da editora Abril, na Trip e em projetos com o designer americano David Carson, entre outros. A iniciativa foi a seu ver uma consequência natural de seu interesse e de sua relação com animais, que acompanham sua vida desde a infância.

A ideia surgiu durante um período em que morou na Itália, num templo budista. “Por falar inglês o tempo todo, comecei a chamar de Talking Animals. Ao retornar ao Brasil, tentei nomes em português, mas todos que eu pensava já existiam. Talking Animals ficou”, diz. Ela também tem-se dedicado à escrita e fez um livrinho artesanal para distribuir entre amigos que conta a surpreendente história de um cachorro, Jack, que apareceu em sua vida em 2011.

Zincone conheceu Byrne quando morou em Nova York e o admira como escritor. Decidiu então avisá-lo do projeto e convidá-lo a participar, caso tivesse interesse. “Ele foi muito generoso e me disse que tinha um conto.” Foi assim que a inédita história de Chamandra e do professor veio agora a ser lançada em livro —em português, no Brasil.



Fonte ==> Folha SP

Leia Também

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *