Minha primeira publicação nesta Folha foi sobre um espetáculo que celebrava a vida de Patrícia Galvão. Depois de 15 anos, me deparo novamente com Pagu. Viva, muito viva, tanto na subjetividade de seus textos quanto na criação de um memorial para seus ossos no Cemitério da Filosofia, em Santos, litoral de São Paulo.
No Dia Internacional da Mulher, os restos mortais de Pagu foram transferidos de uma campa de gaveta, escondida na parede, para uma campa em mármore próxima da entrada do cemitério.
Quem acompanhou o desenterrar de Pagu foi Thiago de Souza, idealizador do projeto “O que te assombra?”. “Após a abertura do lóculo pude ver os ossos que sustentaram palavras, posicionamentos, amores, feridas, cicatrizes, coragem e sonhos de uma titânica figura chamada Patrícia Rehder Galvão”, diz.
Nascida em São João da Boa Vista (SP) em 9 de junho de 1910, Pagu foi escritora, poeta, jornalista, desenhista, cronista, tradutora, crítica e dramaturga – símbolo de resistência feminina, ícone do modernismo e do movimento antropofágico. Sob a alcunha Mara Lobo, publicou “Parque Industrial”. Como King Shelter, lançou contos policiais reunidos em “Safra Macabra”. Além de crônicas em jornais, escreveu em coautoria com o marido Geraldo Ferraz o romance “A Famosa Revista”.
A notícia do memorial coincidiu com minha leitura de “Até Onde Chega a Sonda: Escritos Prisionais”, livro póstumo de Pagu publicado pela editora Fósforo em 2023. Escrito em 1939, quando ela estava presa, condenada por atividade comunista, o manuscrito traz à tona o medo, a solidão e a tortura física e psicológica, combinando monólogos de alguém à beira da loucura com passagens de um diálogo entre dois personagens, Mulher e Homem Subterrâneo.
“Eu sou uma pedra arrancando outras pedras que rolam sobre mim, me rolando, pedras vivas com unhas”, diz um dos trechos, levando-me a ver os ossos em um novo lugar de memória.
Pagu morreu no dia 12 de dezembro de 1962, aos 52 anos. “[O memorial] resgata a importância político-cultural que teve, em vida, impedindo que ela caia no esquecimento”, diz Leda Cintra, nora de Pagu, viúva de Geraldo Galvão Ferraz, fruto do casamento de Patrícia Galvão com Geraldo Ferraz.
“[Colocá-los juntos] resgata a injustiça de ligar a Pagu ao Oswald de Andrade, que viveu com ela por menos de três anos. Pagu foi casada com Geraldo Ferraz por 22 anos. Logo, é justo que permaneçam juntos para sempre”, disse Leda.
“Tu me ressuscitaste, tu me tiraste do túmulo em que eu me havia encerrado. Eu queria o absoluto”, diz outro trecho do livro. Diante de uma epidemia de feminicídios no Brasil, ressuscitar Pagu é nos lembrar de combater o machismo incrustado em nossa sociedade. Em 2025, o país contabilizou 1.568 vítimas, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior.
“Na política, lutou contra a desigualdade entre os povos. E sua maior importância, talvez, venha exatamente do fato de que não apenas falava pelos desvalidos, mas lutava por eles, tanto que foi presa 23 vezes por atos políticos”, relembra Leda Cintra.
Ao ler seu livro, não pude deixar de pensar nas reflexões que Pagu traz sobre a morte:
“M. Eu tenho medo da morte.
H. Que pode a morte contra ti, que pode a morte contra mim? Se eu só existo em ti. E para morrer é preciso ser sujeito, existir […] Tu estás dentro de mim, lá onde a morte não chega. Porque lá existe uma fonte maravilhosa de vida. E nós beberemos desta fonte e viveremos eternamente.”
“O cemitério é uma ponte afetiva que, a partir de histórias e espólios físicos, conecta o ontem e o hoje. E foi isso que senti quando pela primeira vez fui até a gaveta onde repousavam as relíquias de Pagu”, diz Thiago Souza.
Elen Miranda, coordenadora dos cemitérios de Santos desde 2025, foi a responsável pela ideia, em parceria com a prefeitura do município e familiares.
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Assim como Thiago, Elen diz que sonha com o reconhecimento dos cemitérios como agentes de cultura, educação e proteção de patrimônios materiais e imateriais, individuais e coletivos. “A gente tem trazido a população santista para conhecer a história da cidade a partir dos cemitérios. É importante demais mostrar a Pagu”.
“Resgatar Pagu do esquecimento é de vital importância para todos, principalmente as mulheres, que se beneficiam da ousadia de uma mulher que esteve sempre à frente de seu tempo, batalhando para que todas tivessem lugar entre seus pares masculinos”, comenta Leda.
Seus ideais continuam entre nós e nos inspiram. Não em uma liberdade romantizada e sem obstáculos, mas na vontade de ser livre e de ser muitas, apesar de todos os obstáculos. Tornar as ossadas de Pagu um memorial é um jeito de trazer de volta a multifacetada mulher e evocar sua coragem para combater o machismo.
O novo memorial de Pagu traz um QRCode com a biografia e uma de suas frases antológicas: “Sonhe, tenha até pesadelos se necessário for, mas sonhe”.
Fonte ==> Folha SP
