Vivendo hoje entre Lima e a Cidade do México, a cineasta Mariana Rondón continua voltando de tempos em tempos a seu país natal, para contar a história da crise humanitária, política e econômica que a Venezuela vive.
A realizadora ficou internacionalmente conhecida por “Pelo Malo”, de 2013, a história de um menino de nove anos que vive num conjunto habitacional popular de Caracas e sonha em alisar o cabelo para sair “bonito” na foto da escola. O filme rodou festivais e terminou com um punhado de prêmios.
Rondón retorna agora com um par de novos filmes. O primeiro deles estreia no circuito brasileiro nesta quinta, “Zafari”, retratando uma das piores fases da crise humanitária no país, entre 2017 e 2018.
O longa tem uma sessão de pré-estreia, promovida pela Folha, nesta quarta-feira (4), às 19h40. A sessão é gratuita, no Espaço Petrobras de Cinema, e com um debate ao final.
“O filme segue duas linhas, uma mais metafórica, representada pela presença de um hipopótamo que vive nos arredores de uma casa de classe média em Caracas. E uma mais realista, de uma família que luta para sobreviver e sonha com poder comer finalmente em algum momento um pedaço de carne, buscar restos de comida onde for possivel”, afirma Rondón, à reportagem.
Entre os tantos significados que a figura do hipopótamo representa, está uma realidade cruel —o momento em que pessoas começaram a invadir zoológicos para buscar animais para comer.
“O mais irônico é que, logo depois desses eventos, em vez de providenciar alimentos e remédios a população, Nicolás Maduro mandou comprar novos animais para repor os que foram mortos por cidadãos que estavam morrendo de fome”, diz a cineasta.
Durante a história, a família protagonista vê pessoas invadindo a piscina do condomínio e a deterioração das relações humanas. Há dois comportamentos. O do marido, que vive praticamente na janela, mirando com estupor o que está acontecendo, e o de sua mulher, que luta a cada dia para que a família siga adiante, dribla o desabastecimento e emagrece a olhos vistos ao longo do filme.
“Eu me sinto como o marido, nesse estado de contemplação e de não saber o que fazer. Isso foi o que me levou a sair do país, ao final das contas”, diz a diretora.
Sobre o tom distópico de “Zafari”, a realizadora lembra que um crítico de cinema especialista em Luis Buñuel a chamou para dizer que tinha gostado do aspecto “surrealista” do filme. Diz ter fica incrédula —”o que está ali é a pura realidade”, afirmou, sobre este que é seu sexto longa.
Afirmou também que o que a urge a fazer esses trabalhos é que muitos não acreditam nas coisas que são relatadas, ainda que saiam nos meios de comunicação.
Rondón diz ainda que se sente abalada com o destino atual da Venezuela após a prisão de Maduro pelas tropas americanas, há um mês. “O que mais me preocupa é a situação dos presos políticos. Há uma promessa de soltá-los, uma discussão sobre anistia, mas o fato é que muito pouco ocorreu até agora. Essa, hoje, é a minha principal preocupação.”
Esse clima urgente é ainda mais claro na sua produção mais recente, “Ainda É Noite em Caracas”, que chega nesta semana a alguns países da Europa. A produção foi exibida durante a Mostra de Cinema de São Paulo, no ano passado, mas ainda não tem data de lançamento no país. O longa é inspirado no livro “Noite em Caracas”, de Karina Sainz Borgo, escritora e jornalista venezuelana hoje radicada na Espanha.
Se “Zafari” aposta na alegoria, “Ainda É Noite em Caracas”, dirigido em parceria com Marité Ugás, segue o caminho oposto. A narrativa é linear, ancorada na experiência de uma única personagem.
A personagem Adelaida, de 38 anos, enterra a mãe e descobre que está sozinha numa cidade em colapso. Seu apartamento é ocupado por mulheres ligadas ao regime, as ruas são atravessadas por protestos reprimidos, e a única alternativa parece ser sair do país.
O filme conta sua saga incrédula nesse ambiente caótico. Ela não consegue emitir os documentos para sair do país, perde o companheiro —preso, torturado e morto pelo regime—, e é chantageada por autoridades de imigração quando finalmente obtém seu passaporte espanhol e está prestes a embarcar num avião.
Caracas surge em fragmentos —são corredores escuros, janelas vedadas, gente com medo dos próprios vizinhos. Uma noite que, de fato, parece não terminar. A violência aparece tanto na repressão estatal quanto na brutalidade cotidiana entre cidadãos. Amigos e afetos desaparecem, mortos de forma abrupta, sem solenidade nem justiça. A sobrevivência exige que Adelaida abandone não apenas sua casa, mas sua própria identidade.
O filme evita datas, slogans e explicações. Em vez disso, aposta na sensação de cerco. A dificuldade de comprar comida ou de encontrar transporte é real para a maioria dos venezuelanos que não têm um segundo passaporte. É mostrado como muitos conseguiram sair apenas de modo ilegal, por meio das chamadas “trochas” —caminhos clandestinos onde moram vários tipos de perigos, de facções transnacionais de crime organizado a dissidências de guerrilhas colombianas.
Os dois longas partem do mesmo diagnóstico —a Venezuela como espaço de vida inviabilizada—, mas constroem respostas estéticas diferentes. “Zafari” trabalha com a metáfora —o zoológico é a sociedade, o hipopótamo é o privilégio, a fome é o motor da barbárie. “Ainda É Noite em Caracas” recusa os símbolos e se fixa na progressão concreta de uma história de uma tentativa de fuga a qualquer custo.
Num caso, o colapso é coletivo; no outro, íntimo. Em “Zafari”, a degradação das relações sociais se dá no confronto entre classes empurradas para o mesmo espaço. Em “Ainda É Noite em Caracas”, ela se expressa no isolamento absoluto da protagonista, que precisa encontrar sozinha um modo de escapar da situação.
Há, porém, um ponto comum decisivo. A brutalidade social não é apenas produto da repressão estatal, mas da forma como o medo reorganiza os vínculos humanos.
Nos dois filmes, a violência se infiltra no cotidiano. O vizinho deixa de ser proteção, o outro passa a ser uma ameaça. A ditadura aparece menos como discurso político e mais como condição atmosférica.
Rondón propõe uma espécie de díptico sobre a experiência venezuelana recente. Um filme mostra como a escassez produz monstros simbólicos. O outro, como ela destrói biografias concretas. Entre a fábula e o thriller, forma-se um mesmo retrato de um país onde o cotidiano se tornou uma negociação com a perda.
Mais que narrar eventos históricos, os filmes insistem na dimensão sensível do colapso. A Venezuela não surge como problema geopolítico, os nomes dos integrantes do regime sequer são citados. O que prevalece é a experiência de fome, medo, deslocamento. Rondón mostra o que acontece quando a política atravessa o corpo. Constrói, assim, não um cinema de denúncia, mas da sensação. A crise não é explicada —é sentida.
Fonte ==> Folha SP
