O mercado brasileiro de tecnologia sempre foi marcado por sua capacidade de adaptação. Em um cenário de constantes crises econômicas e rápidas mudanças digitais, os empreendedores de software têm mostrado resiliência e visão estratégica ao identificar oportunidades em setores inesperados.
Um exemplo disso está no setor jurídico. Nos últimos anos, escritórios de advocacia passaram a adotar plataformas digitais para automatizar rotinas, reduzir custos e aumentar a eficiência na gestão de processos. Segundo a Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs (AB2L), o número de startups voltadas ao mercado jurídico saltou de 30, em 2015, para mais de 400 em 2024, um crescimento que evidencia a demanda reprimida por soluções digitais nesse segmento.
Foi justamente nesse cenário que a engenheira de software Raquel da Rosa Oliveira Leira Nicolau encontrou seu primeiro grande nicho de inovação. Ao lado do marido, fundou uma empresa dedicada a desenvolver sistemas para escritórios de advocacia, criando funcionalidades pioneiras como a distribuição automática de tarefas e a integração com publicações judiciais. O produto, conhecido como Legalsoft, abriu caminho para novos negócios e se tornou referência entre advogados que buscavam eficiência tecnológica.
A lógica de identificar gargalos e transformá-los em soluções também a levou a criar startups como o Web Diligência, que conectava correspondentes jurídicos em todo o país, e o Portal Pré-Contencioso, voltado para a automação de acordos. Embora esses projetos não tenham seguido adiante, consolidaram a percepção de que o verdadeiro diferencial de um empreendedor em tecnologia está em saber enxergar onde os processos podem ser mais rápidos, mais simples e mais escaláveis.
Essa mesma visão foi levada para sua trajetória internacional. Raquel atuou em empresas como a Timely, no Canadá, e a fintech americana Promontory Mortgage Path, onde colaborou no desenvolvimento de plataformas robustas e inovadoras para concessão de crédito e hipotecas. Hoje, como head de engenharia no iFood, lidera uma equipe de mais de 30 pessoas responsável por ferramentas internas que sustentam a operação de uma das maiores plataformas digitais da América Latina.

Para ela, a conexão entre empreendedorismo e inovação está justamente na habilidade de antecipar demandas:
“Muitas vezes, os setores mais tradicionais guardam as maiores oportunidades. O jurídico é um exemplo, mas poderíamos citar também áreas como saúde, educação e varejo. A tecnologia só tem valor real quando resolve dores concretas das pessoas e das empresas”, afirma.
De acordo com a Abstartups, o Brasil já soma mais de 14 mil startups ativas, sendo que pelo menos 30% estão voltadas a setores como saúde, educação e serviços financeiros. O espaço para novas soluções é vasto — e o caminho para os próximos anos deve incluir cada vez mais a aplicação de inteligência artificial e análise de dados para transformar mercados.
Histórias como a de Raquel Nicolau ilustram esse movimento: de sistemas jurídicos a plataformas de delivery, passando por startups e empresas globais, sua jornada mostra que o empreendedorismo em software é menos sobre o setor escolhido e mais sobre a capacidade de unir visão estratégica, inovação e execução.