Empresas americanas de energia eólica offshore estão correndo para colocar em operação seus projetos e resistir aos esforços de Donald Trump para paralisar um setor multibilionário.
Após conquistar várias vitórias judiciais no último mês, o setor redobrou esforços para concluir os projetos, de modo que possam começar a gerar energia e desenvolver o financiamento e as cadeias de suprimentos necessárias para manter a indústria funcionando até Trump deixar o cargo.
Em dezembro, o Departamento do Interior paralisou cinco projetos que estavam em andamento na costa leste, citando preocupações de segurança nacional devido a interferência em radares. Cada uma das empresas entrou na Justiça e obteve permissão para retomar a construção, em uma série de casos em tribunais distritais entre janeiro e início de fevereiro.
O juiz Royce Lamberth, do distrito de Columbia, considerou que a justificativa do governo era “arbitrária e caprichosa”, no caso do projeto Revolution Wind, da Orsted, de US$ 6,2 bilhões (R$ 32,43 bilhões), no litoral de Rhode Island.
Agora, desenvolvedores como a Dominion Energy, cujo projeto de 2,6 gigawatts na costa da Virgínia deve começar a gerar energia antes do fim de março, estão “totalmente focados” em conclui-los, segundo uma fonte próxima à empresa. O Revolution Wind deve entrar em operação “em semanas”, de acordo com a empresa, enquanto seu outro projeto, o Sunrise, deve iniciar a produção no segundo semestre do ano.
Embora Trump tenha atacado uma ampla gama de tecnologias de energia limpa desde que assumiu o cargo pela segunda vez, em 2025, nenhuma sofreu a fúria do governo como a eólica offshore, que o presidente descreveu como “a pior”.
Em resposta, a indústria se engajou em negociações e lobby, frequentemente com a ajuda de políticos republicanos (aliados de Trump), o que levou à reversão de ordens anteriores de paralisação de obras. A estratégia, desde então, mudou para o uso de ações judiciais para ganhar o máximo de tempo possível para que os projetos entrem em operação e provem seu valor.
Líderes da indústria e dos estados também estão planejando uma série de medidas para garantir que os projetos possam ter acesso a financiamento e fortalecer a cadeia de suprimentos.
Falando no International Partnering Forum na terça-feira (10), Doreen Harris, presidente da Autoridade de Pesquisa e Desenvolvimento Energético do Estado de Nova York, disse que o estado havia prometido US$ 300 milhões para preparar portos para o desenvolvimento de energia eólica offshore e anunciou um pedido de informações sobre como o estado pode apoiar a indústria em meio aos ataques do governo federal.
A indústria também está olhando para o norte da fronteira para se sustentar enquanto Trump sabota o desenvolvimento nos EUA.
Tim Houston, premiê da Nova Escócia (Canadá), apresentou sua província como um porto seguro para desenvolvedores e fornecedores fazerem negócios. “Somos uma jurisdição regulatória previsível e confiável”, declarou.
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A província está avaliando o interesse da indústria em licitar áreas de seu oceano, como parte de sua iniciativa “Wind West”, que visa desenvolver até 60 gigawatts de energia eólica offshore para uso e exportação.
Mas alguns temem que a indústria ainda possa ser paralisada e corra risco de colapso total de investimentos e da cadeia de suprimentos.
O sentimento positivo é “otimista, mas não realista”, disse Juan Gabriel Sanchez, gerente de desenvolvimento de negócios do grupo belga de energia offshore Jan De Nul.
O governo sinalizou que continuará usando os tribunais e sua própria autoridade para interromper projetos, aumentando ainda mais os custos para os desenvolvedores. A Dominion disse em seu processo que o atraso estava custando US$ 5 milhões (R$ 26,15 milhões) por dia, enquanto o Revolution e o Sunrise Wind acumularam perdas diárias de US$ 1,44 milhão e US$ 1 milhão (R$ 7,53 milhões e R$ 5,23 milhões), respectivamente.
Na quarta-feira (11), o secretário do Interior, Doug Burgum, prometeu que recorrerá das decisões que permitiram que os projetos continuassem a construção.
“[Os projetos] representam riscos reais à segurança nacional”, comentou Burgum à Bloomberg News. “Quando chegarmos ao tribunal e compartilharmos informações confidenciais, haverá mais discussões sobre isso”, prometeu.
A indústria estava presa em uma “batalha perpétua”, disse Joshua Weinstein, sócio-gerente da Global Business Alliances LLC. “Você tem um governo determinado a combater essa tecnologia energética específica —aparentemente sem motivo.”
O investimento em nova energia eólica offshore deve despencar, com a BloombergNEF cortando sua previsão para 2035 em 85% após a eleição de Trump e prevendo o atraso ou cancelamento de US$ 114 bilhões em investimentos.
Fornecedores afirmam que estão voltando seu foco para mercados fora dos EUA. “Estamos nos concentrando na Europa e em outros lugares que vão crescer este ano, como Austrália, Nova Zelândia e Taiwan”, afirmou Tomas Fertig, vice-presidente de desenvolvimento de negócios da Entrion Wind, que desenvolve fundações para energia eólica offshore. “Não acho que o mercado [dos EUA] esteja morto, mas estará em alguns anos”, finalizou.
Fonte ==> Folha SP
