Escolas se engajam no combate à misoginia e ao machismo – 12/04/2026 – Educação

Doze jovens mulheres sentadas lado a lado em um sofá vermelho, com braços ao redor umas das outras, em ambiente interno com parede bege ao fundo. Almofadas vermelhas e cinzas estão dispostas no degrau à frente do sofá.

Diante da explosão de conteúdos misóginos nas redes sociais e da repercussão de notícias de feminicídio e de estupros coletivos no país, as escolas estão dando espaço para projetos de combate ao machismo e à misoginia. As iniciativas muitas vezes têm partido de grupos de alunas, que procuram professores e gestores para relatar incômodo com o que vivem e presenciam dentro e fora da escola.

No ano passado, a repercussão da série britânica “Adolescência” (2025, Netflix), que mostra como a cultura misógina das redes sociais levou um aluno a assassinar uma colega, ajudou a alavancar o debate nas escolas ano passado. Outras obra da plataforma, deste ano, joga luz nessa temática, o documentário “Por Dentro da Machosfera”.

No Brasil, entre os casos recentes mais chocantes foi o estupro coletivo de uma estudante de 17 anos em um apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro, no fim de janeiro. Os envolvidos são um ex-namorado, da mesma idade, e quatro jovens de 18 e 19 anos. Dois dos acusados estudavam no tradicional Colégio Pedro 2º, que após protestos de alunos anunciou a a criação de uma política institucional de prevenção e enfrentamento a casos de assédio. A instituição é federal.

Misoginia e machismo são combustíveis do cyberbullying, com meninas sendo as principais vítimas em apps de mensagens e perfis de fofocas, os “explanas”.

No mês passado, veio à tona um caso de suspensão de alunos do Colégio São Domingos, em Perdizes (zona oeste de São Paulo), em razão de mensagens misóginas em grupos de WhatsApp do 9º ano.

Meninos de 14 e 15 anos fizeram um “ranking” meninas, falando de atributos físicos (“peito” e “bunda”). Postaram figurinhas com foto de Jeffrey Epstein, conhecido por criar uma rede de abuso sexual de menores nos EUA, e uma imagem de um mangá com a frase “Vou te estuprar” –a partir daí, circulou a informação de que havia uma lista de “estupráveis”, o que foi negado pela escola e pelos pais dos envolvidos.

Não é algo raro. Casos semelhantes estão no cotidiano de escolas privadas e públicas, das vulneráveis às abastadas, das conservadoras às progressistas.

O pai de um dos alunos suspensos do São Domingos conta que foi pego de surpresa, porque a família é extremamente crítica à misoginia. Diz que determinou que filho escrevesse uma carta de desculpas às colegas, à mãe e à avó, fez uma devassa nas atividades digitais do menino e bloqueou seu acesso às redes sociais e ao WhatsApp. Também o colocou para fazer terapia.

Em nota, o diretor pedagógico do colégio, Luís Fernando Weffort, afirmou que a escola realizou uma série de encontros com os estudantes envolvidos, seus familiares e turmas de outras séries. Foi instituído um grupo de trabalho, com professores, psicóloga e advogada, para indicar as “medidas institucionais e restaurativas cabíveis”.

AMIGAS, NÃO RIVAIS

No colégio Bandeirantes, de São Paulo, a discussão sobre misoginia e machismo se amplificou nos currículos e nos coletivos de alunos, segundo Beatriz Kohlbach, coordenadora de Convivência Positiva e Apoio Emocional. “É um tema trazido pela CCA [Comunidade de Cuidado e Apoio, formada por alunos] e por coletivos como o Bandiversidade [apoio à comunidade negra e LGBTQIA+] e o Girl UP [ligado a um movimento internacional de meninas].”

Em março, foi realizada a Girl Night, noite das meninas, com a temática “Somos amigas, não rivais”. Aluna do 3º ano do ensino médio e integrante do Girl UP, Laura, 16, diz que a força do coletivo é a troca entre as próprias alunas.

“Uma menina pode se sentir desconfortável de conversar com um adulto sobre determinadas questões”, diz. “Compartilhamos situações de machismo que observamos e enfrentamos dentro e fora da escola, fazemos debates sobre educação menstrual, mulheres nos esportes, na ciência, no ambiente de trabalho, e violência contra a mulher. Também já fizemos artes marciais para autodefesa.”

Na escola municipal Maria Pavanatti Fávaro, de Campinas (interior de SP), há um atuante coletivo de meninas, o Clube da Lua, que, em uma carta à diretoria, solicitou a criação de um protocolo antimisoginia.

“Temos observado que alguns alunos estão obrigando e pressionando meninas a beijarem garotos”, escreveram. Ao se recusarem, “acabam sendo perseguidas ou se tornam alvo de comentários inapropriados.” Comentários machistas e misóginos são diários. Há “casos de meninas que chegam a se sentir tão mal que faltam por dias na escola”.

Coordenadora do projeto, a professora Karina Mayara Leite Vieira afirma que esses episódios são comuns. “São frases ditas em aula, como ‘mulher tem que lavar louça’, ‘não pode jogar futebol’”, conta. “Uma menina reclamou que um garoto de 13 anos ficava falando ‘Quem a gente vai comer hoje?’. Há casos de toques não consensuais. Meninas são chamadas de gordas, são vítimas de racismo.”

Ela defende “um letramento de gênero” com professores e alunos de forma a destacar a atuação de mulheres na literatura, nas artes, na ciência. “Meninos absorvem muito conteúdo misógino nas redes sociais. Temos que criar outras narrativas nas escolas.”

Outro projeto nessa linha é o Juventudes AntiMisoginia, lanlado em 2025 pelo Sesi São Paulo em 134 escolas, com cerca de 100 mil alunos do 9º ano do fundamental e do ensino médio.

A inspiração partiu de um coletivo feminista do Sesi Regente Feijó, também no interior paulista, criado por meninas insatisfeitas com o comportamento de alguns garotos.

Segundo Lilian Engracia, supervisora técnica do Sesi-SP, o programa consiste em definir diretrizes para as escolas, selecionar professores que tenham afinidade com essas temáticas e oferecer formação e apoio financeiro para que trabalhem duas vezes por semana com o projeto no contraturno das aulas. Há também a estruturação de comitês de estudantes, com meninas e pelo menos um menino.

Busca-se também impactar as famílias. Lilian conta que alguns pais se incomodaram com o coletivo feminista. “O nome Juventude AntiMisoginia deixa claro que o combate a essa violência é um assunto de todos.”

Aluno do 3º ano do ensino médio, Luiz Gustavo, 17, integra o comitê do Sesi Ferraz de Vasconcelos (Grande SP) e passou a reconhecer machismo e a misoginia em situações que antes considerava normais. “Não via problema, por exemplo, no fato de as mulheres ganharem menos do que os homens. Isso foi passado para mim pela sociedade patriarcal”, diz.



Fonte ==> Folha SP

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