“Estou vestido de Leprechaun”, o pastor Lierte Soares Junior, 46, explica por que está usando cartola e blazer verdes no vídeo que envia à Folha, uma gaita de fole na trilha de fundo
A referência pode mesmo passar batida no Brasil. Leprechaun é um duende popular no folclore da Irlanda e aparece em tudo o que é celebração do Dia de São Patrício, ou Saint Patrick’s Day, dia de festa no país europeu. “Sou pastor de norte-americanos com descendência de irlandeses em sua maioria. Sirvo a uma igreja histórica de caucasianos que teve sua fundação em 1785”, conta.
Lierte é pastor tem mais de duas décadas e prega na New Life Community Church, em Georgetown, cidade de Massachusetts, estado dos EUA que só perde para a Flórida em número de brasileiros residentes. Ele não lidera, contudo, cultos para imigrantes conterrâneos, como faz a maioria dos seus colegas de pastoreio baseados ali. Lierte é um autoproclamado “missionário reverso”.
“Vim aqui para reevangelizar os americanos. Essa é a minha missão prioritária”, diz o evangélico que, em 2024, foi eleito presidente da Convenção Batista da Nova Inglaterra, uma aba regional da Southern Baptist Convention —a maior denominação evangélica do país, que funciona de forma parecida com a Assembleia de Deus no Brasil, com milhares de igrejas autônomas e vasta influência social e política.
Lierte escreveu “Reverse Mission – Bringing the Gospel Full Circle” (missão reversa – completando o ciclo do Evangelho), livro sobre o fenômeno em que missionários de países emergentes atuam para reaviver o cristianismo em nações desenvolvidas. O pastor aponta como a região deixou de exportar missões evangelizadoras, praxe que começa na colonização e se espicha até o século 20, para se tornar um território marcado pelo “declínio espiritual e pela secularização”.
Os dados o escoltam. Pesquisas do Pew Research Center indicam um tombo na religiosidade dos Estados Unidos, com 29% dos adultos sem religião em 2024, contra 16% em 2007. O número de cristãos encolheu, caindo de 78% para 62% nesse meio-tempo, enquanto a população jovem é significativamente menos adepta a uma instituição religiosa. No Brasil, a proporção de pessoas sem religião é de 9,3%, segundo o Cesno de 2022.
Entre os séculos 16 e 20, EUA e Europa eram o polo exportador por excelência de missionários. Parece que o jogo virou. Hoje, o que Lierte chama de “missão reversa” são forças evangelizadoras enviadas por igrejas da América Latina, da África e da Ásia (sobretudo Coreia do Sul) para “reacender a chama da fé” no Ocidente, diz o pastor brasileiro.
Cristãos praticantes se assombram com imagens de igrejas antigas transformadas em boates e academias de ginástica no solo europeu, tamanho o desengajamento religioso no continente. Uma das livrarias mais famosas da Holanda, a Boekhandel Dominicanen, ocupa uma igreja de arquitetura gótica do século 13.
Enquanto isso, outros cantos do planeta veem o número de evangélicos crescer. “O Brasil vive um período de avivamento espiritualmente”, diz Lierte. “Já os EUA vivem o pós-cristianismo. Até a região do ‘Bible belt’, o chamado cinturão da Bíblia [que se estende principalmente pelo sul do país], não é mais a mesma. O fenômeno de desigrejados de que se fala hoje no Brasil, aqui já acontece há mais de 20 anos. Os EUA precisam desesperadamente de Deus.”
Para Heath Carter, professor no Seminário Teológico de Princeton (nos EUA), nem é o caso de falar em derrocada espiritual nos países ricos. O poder das instituições cristãs tradicionais de fato está em baixa, mas a religiosidade em si não está necessariamente desaparecendo. “Nos últimos anos, o número de ‘sem religião’ disparou, mas muitas dessas pessoas têm todos os tipos de práticas espirituais. Elas apenas não se identificam com uma igreja, embora às vezes as frequentem.”
A presença de missionários vindos de países emergentes é vista por Carter como um “intercâmbio de cristianismos” que beneficia o pluralismo religioso. O reverendo Israel Olofinjana concorda com ele, embora veja a realidade europeia como mais desapegada de crenças. É a deixa para ele entrar.
Olofinjana se mudou da Nigéria para Londres em 2004 e, desde então, comandou três igrejas diferentes, “nenhuma delas nigeriana”. Daí ser preciso diferenciar igrejas multiculturais de igrejas interculturais, diz.
As primeiras são comunidades onde múltiplas nacionalidades e gerações coexistem. A forma de “fazer igreja”, porém, geralmente segue um modelo dominante —no contexto dele, o “estilo britânico”. As segundas já veem a diversidade étnica e cultural como um “presente de Deus” e buscam um modelo que espelhe isso.
Oloninjana diz, em artigo sobre o tema, que igrejas multiculturais frequentemente apelam a uma “inclusividade performativa”. Ocorre quando, por exemplo, um templo dá destaque a bandeiras de diferentes nações, “mas resta a dúvida se essas pessoas têm alguma voz sobre como a congregação funciona”. Numa igreja intercultural, aí sim “elas terão esse espaço”.
A missão reversa também seria uma forma de recolocar a religião na esfera pública em sociedades que a escantearam para a vida privada. É o conceito do “reflexo abençoado”, em que líderes de países do chamado sul global passam a liderar igrejas multiétnicas ou mesmo de maioria branca.
Fora os teólogos que ajudam a diversificar os currículos de faculdades de países que os colonizaram sua terra natal no passado, introduzindo temas como o cristianismo africano, afirma Olofinjana.
Reverter o desânimo religioso em países desenvolvidos, e de quebra importar valores mais diversos, é a meta da missão reversa. Mas atender o povo imigrante acaba sendo, na prática, um trabalho tão ou mais importante.
O pastor Ney Ladeia aportou no mais rico país das Américas em 2017, nomeado missionário pela Junta de Missões Mundiais da Convenção Batista Brasileira. O projeto tem cerca de 2.500 líderes espalhados em mais de cem países do mundo, ele estima.
Em seu caso, o foco é voltado aos brasileiros que residem nos EUA. É uma gente que conta com suas casas de fé para além do conforto espiritual, afirma Ladeia. “O imigrante tem necessidades que nem sequer consideramos existir enquanto não vivemos a experiência de sair de um país para outro. As igrejas fornecem suporte físico, emocional e até financeiro.”
Também proporcionam “network, algo indispensável a quem está chegando”, alimentação e assistência médica. Ainda há o bônus de lembrar o país natal. “Temos o resgate da cultura e a preservação da língua, extremamente útil sobretudo para a segunda geração: os filhos que nascem ou crescem aqui, em meio à língua inglesa e à cultura americana.”
Tudo isso abre caminho, segundo Ladeia, “para a missão maior da igreja, que é mostrar o caminho da Vida Eterna, e isso se torna muito mais efetivo quando temos a oportunidade não apenas de falar do amor de Deus, mas mostrá-lo na prática”.
Fonte ==> Folha SP
