Um ex-alto executivo da Chevron está levantando US$ 2 bilhões para projetos petrolíferos venezuelanos enquanto investidores correm para atender ao chamado de Donald Trump para injetar “bilhões de dólares” no país após os EUA derrubarem o presidente Nicolás Maduro.
Ali Moshiri, ex-chefe de operações da Chevron na América Latina, disse ao Financial Times que seu fundo Amos Global Energy Management identificou múltiplos ativos venezuelanos e está conversando com investidores institucionais sobre uma colocação privada para iniciar investimentos.
A captura de Maduro por forças especiais americanas no sábado (3) e o chamado de Trump para que empresas dos EUA revitalizem a indústria petrolífera da Venezuela criaram uma oportunidade repentina, disse Moshiri.
“Estávamos antecipando esse avanço há algum tempo e nosso memorando de colocação privada de US$ 2 bilhões está pronto para avançar com vários alvos de investimento identificados”, disse ele em entrevista.
“Recebi uma dúzia de ligações nas últimas 24 horas de potenciais investidores. O interesse na Venezuela passou de zero para 99%.”
O ataque dos EUA a Caracas e o aviso de Trump de que Washington ditaria os termos aos novos líderes da Venezuela levantou a perspectiva de uma corrida corporativa para um país que possui as maiores reservas de petróleo do mundo.
Isso marca uma potencial nova era para as empresas. A última grande abertura das reservas de um país foi em 2009 no Iraque, onde leilões de campos petrolíferos atraíram lances de bilhões de dólares seis anos após a invasão americana.
Mas as três grandes petrolíferas americanas receberam com cautela o chamado de Trump para investimentos devido a preocupações com instabilidade política, histórico de expropriação de ativos na Venezuela e as vastas somas necessárias para aumentar a produção.
Um insider da indústria disse que os CEOs da ExxonMobil, Chevron e ConocoPhillips foram pegos de surpresa pela ação militar dos EUA.
“Nenhum dos players da indústria que têm o capital e a expertise para investir na Venezuela foi avisado ou consultado antes da remoção de Maduro ou das declarações do presidente ontem”, disse o insider.
O esforço de captação da Amos marcará um teste inicial do apetite de Wall Street para financiar a reconstrução da infraestrutura petrolífera deteriorada da Venezuela, que foi degradada após anos de má gestão e sanções.
O memorando para investidores preparado pela Amos, que foi visto pelo FT, está datado de dezembro de 2025. Ele mostra que o fundo pretende adquirir 20 mil a 50 mil barris por dia de produção de petróleo e 500 mil barris de reservas da estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA). Prevê uma saída dentro de cinco a sete anos e um retorno sobre o investimento de duas vezes e meia.
Outros investidores privados também sinalizaram seu potencial interesse na Venezuela após a intervenção dos EUA.
Harold Hamm, o magnata do xisto americano e um proeminente doador de Trump, disse ao FT que sua empresa Continental Resources consideraria investir na Venezuela sob as circunstâncias certas.
“Embora não tenhamos planos imediatos em relação à Venezuela, acreditamos que o país tem potencial significativo de recursos e, com estabilidade regulatória e governamental melhorada, definitivamente consideraríamos investimentos futuros”, disse ele.
Enquanto se espera que investidores atendam ao chamado de Trump mais rapidamente, analistas da indústria disseram que apenas as grandes empresas americanas teriam o peso e a expertise para reconstruir o vasto e complexo setor de petróleo pesado do país.
A Chevron, que já opera no país sob uma licença especial fornecida pelo governo Trump, é considerada a produtora melhor posicionada para aumentar investimentos. Mas disse estar focada na segurança dos funcionários e na integridade de seus ativos.
Sua rival ExxonMobil não respondeu aos pedidos de comentários sobre suas intenções na Venezuela. A empresa ainda busca o pagamento de uma sentença arbitral de US$ 1,6 bilhão ligada à expropriação de ativos há quase duas décadas por Hugo Chávez, antecessor de Maduro.
A ConocoPhillips, que ganhou uma sentença arbitral de US$ 8,4 bilhões pela expropriação de seus ativos venezuelanos, disse que continuaria os esforços para cobrar sua sentença e que era “prematuro” especular sobre atividades futuras.
Enquanto Trump foi explícito ao pedir que empresas americanas investissem, seu secretário de Estado Marco Rubio deixou a porta aberta para produtores de países aliados —mas não para aqueles de adversários dos EUA.
A China é o maior cliente de petróleo da Venezuela e suas empresas, assim como empresas russas, têm sido investidoras em sua produção.
“O que não vamos permitir é que a indústria petrolífera na Venezuela seja controlada por adversários dos Estados Unidos”, disse ele ao programa Meet the Press da NBC News. “Por que a China precisa do petróleo deles, por que a Rússia precisa do petróleo deles, por que o Irã precisa do petróleo deles? … Este é o hemisfério ocidental, é onde vivemos.”
Algumas empresas europeias com operações na Venezuela —a espanhola Repsol e a italiana Eni— poderiam investir se as sanções americanas fossem suspensas, disseram analistas. Mas esperariam para ver se os termos fiscais para empresas não americanas seriam favoráveis.
Moshiri tentou comprar ativos venezuelanos no passado. Em 2022, ele assinou uma joint venture com a Gramercy Funds Management para investir no Golfo de Paria offshore. A Amos posteriormente concordou em comprar alguns ativos de petróleo e gás venezuelanos pertencentes à chinesa Sinopec.
Moshiri disse que os negócios fracassaram porque o fundo de investimento não conseguiu obter uma licença do governo Biden.
“Agora com o governo Trump, que é mais comercialmente amigável e economicamente orientada, estamos iniciando um novo fundo e estamos muito confiantes”.
Folha Mercado
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Fonte ==> Folha SP
