O que acontece na Groenlândia não fica na Groenlândia.
O destino da maior ilha do mundo tem uma importância desproporcional para bilhões de pessoas no planeta. Isso se deve a algo que a Groenlândia está perdendo rapidamente: gelo.
A maior parte da massa terrestre da Groenlândia, que ocupa cerca de 2 milhões de quilômetros quadrados no total, ou quase 840 mil milhas quadradas, é coberta de gelo. Esse gelo está derretendo rapidamente porque as regiões polares do mundo estão esquentando rapidamente, com amplas consequências para a estabilidade do clima da Terra.
A culpa é da queima de carvão, petróleo e gás. Suas emissões elevaram as temperaturas globais, de forma mais impressionante no Ártico, que está esquentando pelo menos duas vezes mais rápido que o resto do planeta.
À medida que o Ártico aquece, potenciais novas rotas comerciais se abrem, assim como o acesso a riquezas minerais, incluindo aquelas que são vitais para tecnologias de energia limpa úteis para desacelerar as mudanças climáticas.
Em resumo, as mudanças climáticas tornam o Ártico mais acessível e um alvo mais estratégico para potências mundiais, um fato não ignorado pelo presidente Donald Trump.
“Sua fixação na Groenlândia é uma admissão de que a mudança climática é real”, disse John Conger, ex-funcionário do Pentágono no governo Obama que agora é conselheiro do Centro para Clima e Segurança, um instituto de pesquisa.
Aqui estão três aspectos relacionados ao clima global para ter em mente.
Gelo e suas consequências
Nos 12 meses encerrados em 31 de agosto de 2025, a Groenlândia perdeu 105 bilhões de toneladas métricas de gelo, segundo cientistas do Instituto Meteorológico Dinamarquês, que publicaram suas descobertas no portal Carbon Brief.
Isso não foi uma anomalia. A camada de gelo da Groenlândia tem diminuído nos últimos 29 anos.
Ela encolheu quase 2.000 milhas quadradas (cerca de 5.100 km²) de 1985 a 2022, de acordo com um estudo publicado na revista científica Nature.
O derretimento do gelo significa mais água doce no oceano, o que eleva os níveis do mar e pode ser perigoso para regiões costeiras em todo o mundo. O nível global do mar subiu cerca de 4 polegadas (10,1 centímetros) desde 1993.
Se todo o gelo da Groenlândia derretesse —embora seja um cenário impossível durante este século— isso poderia resultar em 23 pés de elevação do nível do mar, ou 7,4 metros, dizem os cientistas. O aumento do nível do mar torna as inundações piores durante tempestades e marés altas.
“A Groenlândia está em uma trajetória imparável de derretimento”, disse Sarah Das, glaciologista e cientista emérita no Instituto Oceanográfico Woods Hole.
A perda de gelo marinho tem outro efeito. À medida que derrete, reduz a área total de superfície brilhante que pode refletir a luz solar de volta para a atmosfera. Mais calor do sol é absorvido pelo oceano e, por sua vez, o oceano aquece ainda mais.
Depois, há o efeito nos padrões de circulação oceânica. Pesquisas recentes sugerem que o derretimento da camada de gelo da Groenlândia está ajudando a desacelerar uma rede de correntes oceânicas, com o potencial de afetar padrões climáticos até no hemisfério sul.
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As riquezas da Groenlândia
A Groenlândia, território semiautônomo da Dinamarca, está localizada sobre uma variedade de minerais, incluindo grafite, zinco e terras raras. Muitos desses são importantes para as nações da União Europeia que tentam expandir a adoção de tecnologias de energia renovável. A maioria do que o bloco de 27 países identificou como matérias-primas críticas pode ser encontrada na Groenlândia.
O grafite é crítico para baterias, por exemplo, e a China domina o mercado global de grafite.
Alguns dos aliados de Trump demonstram interesse em mineração na Groenlândia e ao seu redor.
Extrair esses minerais não é uma tarefa fácil por causa de todo aquele gelo. Além disso, o governo da Groenlândia proibiu a mineração de urânio, citando o risco de danos ambientais.
Depois, há o petróleo.
Empresas petrolíferas tentaram por 50 anos extrair petróleo nas águas ecologicamente sensíveis do Ártico ao largo da costa da Groenlândia.
Em 2021, o governo disse que pararia de conceder licenças de exploração de petróleo, citando “considerações climáticas, considerações ambientais e bom senso econômico”.
Novas rotas marítimas
O aquecimento do Ártico já está causando problemas para os groenlandeses. Os portos tendem a se tornar rasos à medida que o gelo derrete, e o derretimento do permafrost (solo congelado) pode danificar estradas.
Mas as mudanças climáticas também estão abrindo uma nova rota marítima ao longo do mar do Norte. A China está ansiosa para explorar essa rota, pois encurtaria significativamente o comércio com a Europa. Pequim a chama de “Rota da Seda Polar”, um corredor de navegação que passa pela costa norte da Rússia e está aberto apenas alguns meses do ano.
Ambientalistas alertam para graves riscos ecológicos do aumento do transporte marítimo, incluindo o carbono negro produzido pelo óleo combustível pesado que alimenta os navios.
A perspectiva de uma nova e mais rápida rota marítima estimulou uma corrida para construir quebra-gelos. A Rússia tem a maior frota, seguida por vários membros da Otan, incluindo Canadá, Finlândia e Suécia.
Conger disse que isso tornaria ainda mais valioso para Washington fortalecer seus laços com a Otan em vez de iniciar uma briga sobre a Groenlândia com um aliado da Otan como a Dinamarca.
“Os Estados Unidos ganham força por fazer parte da Otan”, disse Conger. “Têm aliados com capacidade.”
Fonte ==> Folha SP
