Um mês e meio depois de se conhecerem em um aplicativo de relacionamento, a designer Taís Lago, 33, e a engenheira de software Júlia Nofoente, 32, já estavam namorando. O relacionamento tem quatro anos e nove meses e inclui casa compartilhada, viagens frequentes e um noivado.
As duas moram no bairro do Ipiranga, na zona sul de São Paulo, e lembram com humor da rapidez com que tudo começou. Para elas, o início foi mesmo “emocionado” —termo que virou meme nas redes sociais para descrever quem se envolve rápido e demonstra sentimentos com intensidade, algo frequentemente associado a mulheres lésbicas.
A expressão ganhou novo fôlego com a novela “Três Graças”, da Globo, em que o casal lésbico formado por Lorena e Juquinha, interpretadas por Alanis Guillen e Gabriela Medvedovsky, conquistou o público e virou assunto na internet, mesmo sem ser protagonista.
Especialistas ouvidas pela Folha afirmam que o estereótipo não surge totalmente desconectado da realidade, já que algumas mulheres relatam vínculos que se intensificam mais rápido. Ainda assim, destacam que não se trata de regra e que o rótulo pode se tornar problemático quando usado fora da comunidade LGBTQIAPN+ de forma generalizante ou pejorativa.
O fenômeno pode ter algum reflexo em dados sobre uniões formais homoafetivas no país, segundo a psicóloga Jane Felipe de Souza, que trabalha com temáticas de gênero e sexualidade. De acordo com o IBGE, os casamentos civis entre mulheres cresceram 5,9% em 2023 e 12,1% em 2024, ritmo superior ao registrado entre homens nos dois períodos, que tiveram queda de 4,9% no primeiro ano e alta de 3,3% no segundo. Apesar disso, outros fatores, como visibilidade e aceitação social crescentes, também podem explicar a diferença.
Taís admite que o começo da relação com Júlia foi rápido, não só pelo namoro iniciado depois de um mês, mas porque as duas já compartilhavam desde o primeiro encontro relatos íntimos que não eram ditos a mais ninguém.
“Eu acho que esse início foi bem ’emocionado'”, diz. “A gente tem uma compatibilidade muito alta de jeito, de estilo de vida e do que a gente gosta de fazer. No nosso primeiro encontro, eu estava contando coisas para ela que a minha mãe não sabe.”
Quando o assunto é o rótulo, as duas não se incomodam, desde que ele não seja usado para desqualificar o sentimento. “Para mim, ser emocionada é quase um elogio. É ter coragem de se abrir e conhecer alguém profundamente”, diz Júlia. Taís concorda, mas faz uma ressalva: “Só me incomoda quando usam isso para dizer que o sentimento não é real, como se fosse algo menor por acontecer rápido.”
Natália Kleinsorgen, doutora em Mídia e Cotidiano pela UFF (Universidade Federal Fluminense) e pesquisadora lesbofeminista, diz que esse tipo de humor já circulava desde a década de 1970 em espaços de sociabilidade lésbica, como bares e encontros da comunidade. Antes de surgir o termo “emocionada”, já aparecia em piadas como o “caminhão de mudança”, que ironizava a rapidez com que algumas relações entre mulheres evoluem.
“[Fora da comunidade lésbica] A etiqueta da emoção sempre serviu para nos diminuir”, afirma. “Mas saber reconhecer e comunicar nossas emoções não é algo ruim, é uma vantagem.”
Kleinsorgen diz que o meme “não é descolado da realidade”, mas ressalta, porém, que o estereótipo não descreve todas as relações lésbicas. “Temos muitas mulheres na comunidade questionando esse padrão hoje em dia, inclusive debatendo monogamia e não monogamia. É tudo bem se apaixonar, o que você faz com isso é outra questão”, diz. “Somos muito plurais. Não existe uma verdade sobre a gente que se reproduz em todos os casais.”
A pesquisadora aponta ainda que a intensidade nos relacionamentos entre mulheres pode ser também uma estratégia de sobrevivência. “Viver com uma mulher pode significar dividir aluguel, sair de casa sem sofrer violência masculina”, afirma. “Estamos falando de mulheres tentando sobreviver.”
Ela ressalta que a dinâmica tende a ser diferente em relacionamentos entre homens gays. Apesar da orientação sexual, eles continuam sendo socializados como homens, formados em uma cultura que valoriza mais a autonomia individual e a sexualidade desvinculada de compromisso.
A influenciadora Jaque Pinheiro, 42, que mantém uma página de humor e feminismo nas redes sociais (@jaque.conserta), reconhece esse padrão na própria trajetória. Ela foi casada três vezes e observa que todos os seus relacionamentos começaram de forma rápida e intensa. Em dois deles, estava morando com a parceira em menos de três meses.
“É um padrão na minha forma de me relacionar. Sempre fui muito voltada para o cuidado com a outra, e acredito que isso tem muito a ver com a cultura patriarcal, que estimula as mulheres a demonstrar amor cuidando”, comenta.
Ela diz, porém, que esse padrão mudou. A postura de cuidado nas relações passadas a levou a um processo que ela compara a uma simbiose: “É comum nos fecharmos para o mundo, viver só o casal, e isso pode ir acabando com nossas individualidades. Sem uma individualidade bem alimentada, um relacionamento não se sustenta de forma saudável.”
O que explica a intensidade em algumas relações lésbicas
A psicóloga Jane Felipe de Souza, que é professora aposentada na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), diz que a expressão “lésbica emocionada” caracteriza vínculos que se aprofundam rapidamente porque, desde cedo, as mulheres são educadas para cuidar, expressar sentimentos e assumir responsabilidades afetivas —um aprendizado cultural que ocorre independentemente da orientação sexual.
Na avaliação dela, homens frequentemente não assumem o mesmo nível de responsabilidade emocional na relação, e cita como exemplo situações em que parceiros abandonam mulheres diante de dificuldades, como doenças ou problemas de saúde dos filhos.
A psicanalista Regina Navarro Lins, autora de 14 livros sobre relacionamento amoroso, é mais cautelosa. Diz que atende muitos casais lésbicos no consultório e não necessariamente observa esse padrão. “Pode até existir, pode ser que existam mulheres assim, mas não me parece que seja uma regra”, afirma.
Para ela, o estereótipo é reflexo de um condicionamento cultural e não de uma característica essencial das mulheres lésbicas. “A mudança de mentalidade é lenta e gradual”, diz.
Ela aponta que os homens foram educados dentro de um ideal que não admite a demonstração de sentimentos, o que ajuda a explicar por que, em muitos relacionamentos heterossexuais, existe proximidade sexual, mas menos abertura para compartilhar vulnerabilidades.
Essa análise dialoga com o que a escritora e teórica feminista Bell Hooks defende no livro “Tudo Sobre o Amor”. Na obra, ela argumenta que meninas são ensinadas desde a infância a exercer o papel de cuidadoras e a valorizar a conexão emocional, enquanto os homens costumam ser educados para priorizar poder, controle e distanciamento —padrões que entram em conflito com a abertura que o amor exige.
Quando duas pessoas criadas com essa lógica do cuidado se encontram, a tendência a investir emocionalmente pode ser maior, e vínculos entre mulheres podem representar um espaço mais seguro e horizontal de poder, o que contribui para que o relacionamento avance mais rapidamente.
Souza alerta, porém, que relações que evoluem muito rapidamente precisam priorizar ainda mais o estabelecimento de “combinados” claros desde o início, como acordos sobre monogamia, moradia e formas de compromisso afetivo que podem ser revistos ao longo do tempo para que a relação se ajuste às mudanças na vida do casal.
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Fonte ==> Folha SP
