Macho alfa expõe retórica de domínio em feminicídio de PM – 29/03/2026 – Cotidiano

Homem sem camisa fala ao telefone em corredor estreito de prédio residencial. Outras pessoas estão ao fundo, algumas encostadas na parede, em ambiente interno com paredes brancas e portas ao lado.

“Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa: com amor, carinho, atenção e autoridade de macho alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa.”

A frase, enviada por mensagem de texto pelo tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto a sua mulher, a soldado Gisele Alves Santana, antecipa em linguagem crua uma gramática de poder que atravessou o relacionamento do casal e culminou com um feminicídio, segundo indicam os investigadores.

Preso, o policial nega a autoria do crime. Sua defesa afirma que houve divulgação de informações de sua vida privada “por meio de conteúdos descontextualizados, ocasionando exposição indevida”.

Nas trocas de mensagens com Gisele, Neto também descreveu a si mesmo como “rei” e “soberano”, numa sequência de mensagens em que cobrava “amor, carinho, atenção, dedicação e sexo” em troca do seu investimento financeiro na vida do casal.

Mais do que um detalhe retórico, o uso do termo “macho alfa” revela a circulação contemporânea de um vocabulário que mistura biologia mal interpretada, autoajuda masculina e ideologias de dominação de gênero para legitimar práticas violentas como algo natural.

A expressão tem origem em estudos de comportamento animal, sobretudo com lobos e primatas. Popularizada a partir da década de 1970, a acepção do termo foi posteriormente revista por cientistas.

O biólogo norte-americano David Mech, por exemplo, reconheceu que a ideia de hierarquias rígidas entre “machos alfa” e suas matilhas de lobos era fruto de observações em cativeiro, não aplicáveis à vida selvagem, onde os grupos são estruturados como famílias.

Na primatologia, o termo também foi usado para designar o indivíduo de maior status, mas não necessariamente o mais agressivo. O primatologista holandês Frans de Waal destacava que a liderança entre chimpanzés envolve alianças e habilidades sociais, e não apenas força física. Esta nuance, dizia Waal, que é, em geral, apagada quando o conceito é transposto para humanos.

“O macho alfa não tem nada a ver com a experiência humana e tem a ver com uma liderança das famílias de animais. Mas se tornou uma expressão da cultura machista”, afirma o psicólogo Benedito Medrado, professor da Universidade Federal de Pernambuco e coordenador do Núcleo Feminista de Pesquisas sobre Gênero e Masculinidades (Gema). Para ele, a apropriação do termo revela menos sobre ciência e mais sobre a persistência de valores patriarcais.

Segundo Medrado, a retórica da dominância masculina atualiza velhos dispositivos de poder. Ele cita a tese da “legítima defesa da honra”, usada até os anos 1990 para absolver homens que matavam parceiras supostamente para defender o que entendiam como honra. “Equiparava-se a honra de um homem à vida de uma mulher. Os termos às vezes parecem novos, mas são a mesma roupa com outros adereços”, diz.

A embalagem contemporânea desse imaginário encontrou na internet um ambiente fértil. Influenciadores como o ex-campeão de kickboxing Andrew Tate, que se apresenta como empresário bem-sucedido, difundem uma versão do “macho alfa” associada a riqueza, controle emocional e dominação nas relações.

Em seu livro “Alpha: How to Be an Alpha Male Who Does Not Give a Fuck” (“Como ser um macho alfa que não está nem aí”, em tradução livre), ele difunde uma abordagem violenta da masculinidade e defende que homens exerçam autoridade sobre mulheres.

Esse tipo de discurso, segundo o psicólogo Adriano Beiras, professor da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), integra a chamada masculinidade idealizada e hegemônica. “A ideia de macho alfa representa o homem no controle e no poder sobre outros homens, chamados de betas, e, principalmente, sobre as mulheres”, afirma ele, que coordena o Grupo Margens, de pesquisa sobre masculinidades. “É um termo usado por homens cuja masculinidade se estrutura na contraposição e dominação do feminino.”

Beiras aponta que a popularização dessa retórica é uma reação de parcela dos homens aos avanços na reivindicação de direitos por mulheres e pela população LGBT. “É uma masculinidade ressentida que quer o retorno do status de domínio do homem”, diz.

Em redes sociais e fóruns online, esse discurso se organiza em comunidades que oferecem explicações simplificadas para frustrações afetivas, sexuais e profissionais, frequentemente culpando mulheres e sua emancipação pela suposta perda de poder masculino.

Nesses ambientes, categorias como “alfa”, “beta” e “incel” estruturam uma visão hierárquica das relações. Homens seriam classificados conforme atributos físicos, financeiros e comportamentais, numa lógica que transforma vínculos afetivos em disputas por status. “É um discurso muito perigoso porque legitima a violência e atitudes misóginas”, afirma Beiras.

No caso investigado em São Paulo, as mensagens atribuídas ao tenente-coronel combinam essa retórica com práticas descritas pela acusação como controle e intimidação. Segundo relatório da Corregedoria da PM, Neto utilizava sua posição hierárquica para constranger a mulher no ambiente de trabalho.

Beiras, que há anos trabalha com grupos reflexivos e responsabilizantes para homens autores de violência, afirma que “muita gente ainda entende a violência como algo inerente ao masculino”. “O trabalho é mostrar que não é assim, que ser homem não significa ser violento, e que a violência é uma escolha.” Segundo ele, há também grupos de homens incomodados com essa masculinidade hegemônica e que buscam formas plurais de ser homem no mundo.

No mais novo documentário, “Pode Dentro da Machosfera” (Netflix), o jornalista britânico Louis Theroux mergulha no universo de influenciadores como Tate, que pregam submissão das mulheres a um modelo idealizado de homem (provedor, bem-sucedido, forte e dominador) em vídeos e cursos em que dizem ensinar “homens a serem homens”.

Numa cena, Andrew Tate ilustra essa lógica ao dizer que “um homem que não é perigoso não será visto como bem-sucedido”. Em outra, um influencer da machosfera apresenta sua namorada a Theroux chamando-a de “minha máquina de lavar” e “minha faxineira”. E há ainda um corte em que outro influencer diz: “se sua namorada for para a boate mesmo quando você não deixou, você ferra com a vida dela”.

A persistência e a atualização desses discursos ajudam a explicar por que, mesmo com avanços legais como a Lei Maria da Penha, casos de feminicídio seguem ocorrendo. Entre mensagens que evocam hierarquias, o vocabulário do “macho alfa” deixa de ser apenas uma metáfora equivocada desde sua matriz para se tornar uma chave de interpretação de relações marcadas por submissão e por riscos.



Fonte ==> Folha SP

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