Mercados de gás sofre após Qatar ser atingido por mísseis – 19/03/2026 – Economia

Vista ampla de um complexo industrial com vários tanques cilíndricos brancos de armazenamento de combustível ao fundo. Estruturas metálicas, guindastes e edifícios industriais ocupam o centro da imagem. Duas pessoas caminham pela estrada asfaltada à direita, que atravessa a área desértica e cercada por cercas.

Enquanto equipes de emergência vasculhavam os destroços fumegantes no complexo de Ras Laffan, no Qatar, na manhã de quinta-feira (19), analistas na Europa e na Ásia acordavam para uma nova crise energética.

Em tempos normais, um quinto do suprimento mundial de GNL (gás natural liquefeito) flui de Ras Laffan, um vasto complexo industrial quase três vezes maior que Paris, construído ao longo de três décadas a um custo de centenas de bilhões de dólares.

Terminais de GNL estão entre as maiores e mais complexas construções da história humana, e Ras Laffan é o maior de todos, transformando as enormes reservas de gás do Qatar em um combustível super-resfriado que pode ser transportado ao redor do mundo. Pelo menos antes da chegada dos mísseis iranianos.

“Acordei esta manhã e pensei: ‘Não, por favor, não'”, disse Anne-Sophie Corbeau, ex-chefe de análise de gás da BP que agora trabalha no Centro de Política Energética Global da Universidade de Columbia. “Este sempre foi meu pesadelo, meu Armagedom, aquele que eu não queria que acontecesse.”

Dois analistas de gás disseram que estavam tendo dificuldade em processar a notícia após o Irã lançar um ataque duplo, disparando mísseis balísticos contra a instalação, primeiro na noite de quarta-feira (18) e depois novamente nas primeiras horas da manhã desta quinta-feira (19). “Isso não tem precedentes”, disse um dos traders.

Os preços do gás na Europa subiram 30% com a reabertura dos mercados e mais que dobraram desde o início da guerra, enquanto traders tentam calcular o impacto de meses, ou mais, sem o gás do Qatar fluindo para os mercados mundiais.

Os preços do petróleo também saltaram 10%, para quase US$ 119 o barril, devido a temores de novos ataques a suprimentos de energia.

A QatarEnergy, estatal operadora de Ras Laffan, disse à Reuters que os danos a duas de suas unidades de GNL, nas quais a ExxonMobil era coinvestidora, levariam de três a cinco anos para serem reparados, custariam à empresa US$ 20 bilhões por ano em receita perdida e a forçariam a cancelar contratos de longo prazo com Itália, Bélgica, Coreia e China.

O volume de gás agora perdido para o futuro previsível é de aproximadamente 17% da capacidade total do Qatar.

Antes do ataque, traders presumiam que o fluxo de GNL de Ras Laffan seria retomado assim que o conflito no Oriente Médio diminuísse e o estreito de Hormuz estivesse seguro para a passagem de navios. Os preços do gás, tendo subido na semana passada, haviam se estabilizado bem abaixo dos níveis vistos durante a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022.

Mas essa suposição agora foi destruída.

Um trader disse que os preços do gás na Europa seriam empurrados para cima “até 2027” e que a Europa teria mais dificuldade em reabastecer seus tanques de armazenamento de gás neste ano, à medida que compradores asiáticos arrematam GNL dos EUA para compensar a perda de suprimento.

A Ásia já enfrentava escassez e racionamento devido à perda de suprimento do Golfo.

A Europa, que se tornou mais dependente do GNL desde que a Rússia cortou as exportações por gasoduto durante sua guerra com a Ucrânia, agora deve entrar em competição direta contra países como Japão e Coreia do Sul por cargas.

Laurent Segalen, banqueiro de investimentos em energia limpa, disse: “É o apocalipse agora. Os próximos meses para importadores de gás serão um banho de sangue”.

Ras Laffan possui 14 unidades de liquefação de gás que resfriam o gás em 77 milhões de toneladas por ano de GNL, suficiente para atender toda a demanda anual de gás do Japão, ou mais do que Reino Unido e Itália combinados.

O equipamento especializado para resfriar o gás em GNL é incrivelmente complexo e terá que ser substituído meticulosamente, um trabalho que só começará quando o Qatar estiver confiante de que os trabalhadores podem acessar o local com segurança, sem medo de novos ataques.

“O que podemos concluir imediatamente é que, independentemente de quando o conflito termine agora, uma retomada da produção normal do Qatar não vai acontecer em questão de semanas”, disse Tom Marzec-Manser, especialista em GNL da consultoria de energia Wood Mackenzie.

Ele havia estimado anteriormente que levaria cerca de 40 dias para o Qatar reiniciar a produção em Ras Laffan, “mas isso agora não é mais o caso”.

Os planos do Qatar de expandir enormemente Ras Laffan, adicionando mais seis unidades de liquefação ao longo deste ano e do próximo, também serão adiados, disse ele. “Há um elemento de incerteza, mas sabemos agora que esta é uma redução de suprimento que durará meses”, acrescentou.

Embora alguns projetos dos EUA estejam começando em breve, não há compensação adequada para o gás qatariano que “não seja politicamente muito complicada”, disse Corbeau, observando que alguns políticos já vinham pedindo uma flexibilização das proibições ao gás russo.

Enquanto isso, muitos países já estão começando a mudar para geração de energia a carvão, e alguns complexos industriais no sudeste asiático estão tendo que racionar sua produção ou fechar. “O mundo da energia vai se fraturar entre os que têm e os que não têm”, disse Segalen.



Fonte ==> Folha SP

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