Enquanto muitos evangélicos brasileiros debatem nas redes se a música “Auê” (Coletivo Candiero) é heresia ou poesia, cristãos são perseguidos pelo simples fato de confessarem Jesus como senhor.
Segundo a organização cristã Portas Abertas, hoje há mais de 388 milhões de cristãos perseguidos no mundo.
O pastor Homero Aziz, 40, sabe bem o que é isso. Há 12 anos deixou tudo no Brasil e, ao lado da esposa, Débora, e dos filhos, partiu para a Jordânia, no Oriente Médio. Segundo a Lista Mundial da Perseguição 2026, o país está na posição 49 entre os que mais perseguem cristãos no mundo (Coreia do Norte, Somália e Iêmen lideram essa lista).
Em seu relato, o missionário fala sobre ameaças, desafios financeiros e saudade da família. Ao mesmo tempo, celebra os frutos de seu “sim”.
Para quem crê na Bíblia, fazer discípulos é obedecer à grande comissão de Jesus, deixada em Mateus 28:19 e 20: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei”.
Nossa história com o Oriente Médio começou em meados de 2013, quando visitamos a região para realizar um trabalho voluntário na fronteira da Jordânia com a Síria, na única igreja evangélica existente em toda aquela área.
Quando chegamos, milhares de pessoas fugiam diariamente da guerra, e fomos profundamente tocados por suas histórias de perda e sofrimento. Muitas eram famílias cristãs perseguidas, vindas de regiões dominadas pelo extremismo do Estado Islâmico.
Em poucos meses, eu e minha esposa deixamos nossos empregos no Brasil, pegamos nossos filhos e iniciamos nossa jornada de serviço entre os povos muçulmanos.
Com os recursos obtidos pela venda de nossos bens e com o apoio de igrejas de todo o Brasil, nos mudamos para a Jordânia e demos início a projetos sociais com refugiados.
Embora no Brasil eu fosse pastor da Igreja O Brasil Para Cristo, de teologia pentecostal, fui recebido como pastor em uma igreja batista, de teologia reformada. No Reino de Deus não existem placas, e o campo missionário transcultural nos ensina muito sobre unidade.
Hoje o país possui 188 igrejas, 63 são evangélicas. Somos cerca de 160 pastores e apenas cinco denominações são reconhecidas oficialmente no país. Tenho o privilégio de batizar no Rio Jordão.
Antes, trabalhávamos e éramos bem-sucedidos em nossas áreas profissionais. Hoje, dependemos do apoio regular de igrejas, empresários e amigos.
Estar longe da família é outra grande luta. Nossos pais não viram nossos filhos crescerem. Perdemos parentes próximos durante nossa ausência, o que trouxe muita dor, especialmente quando meu sogro faleceu.
Chegamos com pouco conhecimento de árabe. Hoje nos comunicamos bem e nossos filhos são fluentes, mas isso não veio sem preconceito, noites mal dormidas e horas de estudo.
Não posso deixar de mencionar o sofrimento de ver a dor do outro e, muitas vezes, não poder fazer muito. Ver de perto a miséria dos refugiados e a luta diária de pessoas que pagam um preço altíssimo —inclusive com perseguição severa— por seguirem a Jesus, nos marca profundamente.
Uma filha minha na fé quase foi assassinada pelo próprio marido após sua conversão, em um país vizinho. Ela precisou fugir de casa, deixando tudo para trás, inclusive um filho pequeno, pois seria impossível escapar com ele. Há quase dez anos ela não vê sua família. Se o ex-marido a encontrar, ainda hoje poderia matá-la.
Quando aceitamos o desafio, sabíamos que enfrentaríamos riscos de todos os tipos.
Já estive próximo a terroristas do Estado Islâmico no Iraque, atravessei barricadas do Hezbollah no Líbano, conversei com líderes islâmicos da extinta Irmandade Muçulmana no Egito e fui pego no meio de tiroteios e explosões no norte da Síria. Além disso, enfrentamos ameaças de morte, pichações nas paredes da igreja e interrogatórios em delegacias. Não há como driblar a perseguição nessa região.
A lei islâmica proíbe realizar eventos fora da igreja e distribuir publicações. Eu sigo a lei e tento ser criativo ao apresentar o evangelho. A mensagem de Jesus não está acorrentada. O que precisamos é demonstrá-la primeiramente por meio das nossas vidas, em amor. As pessoas estão lendo a gente o tempo todo.
Como fruto desse trabalho árduo, ao longo dos anos realizamos centenas de batismos e plantamos algumas igrejas na região, inclusive no Iraque, Turquia, Síria, Egito e Líbano.
Não existe evangelho sem cruz. Se Jesus está atuando em nós, haverá perseguição. Viver o modelo de Cristo inevitavelmente trará oposição. Isso não significa ausência de medo. Muitas vezes meu coração bate forte e a ansiedade tenta me dominar, mas respondo com a Palavra de Deus e com fé.
Mesmo quando mísseis iranianos cruzaram nossos céus e caíram nas proximidades —centenas atingiram a Jordânia em duas ocasiões recentes, deixando feridos.
A igreja evangélica brasileira cresceu muito em número e influência. Segundo pesquisas do Movimento de Lausanne, o Brasil se tornou o segundo maior enviador de missionários transculturais do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.
Não podemos perder essa oportunidade por causa de distrações, debates menores ou prioridades equivocadas. Missões precisam estar enraizadas em um discipulado profundamente bíblico e prático.
Muitos nos perguntam se um dia voltaremos ao Brasil. Nossa resposta é que somos missionários transculturais de carreira. Enquanto Deus não nos direcionar de outra forma, permaneceremos enraizados no Oriente Médio. Foi uma decisão de vida.
Fonte ==> Folha SP
