Novo choque do petróleo acelera o retorno à energia nuclear – 09/04/2026 – Economia

Complexo industrial com tanques de armazenamento e estruturas industriais próximo ao mar sob céu parcialmente nublado ao entardecer. Área urbana e vegetação visíveis à direita.

Em 2011, um derretimento de núcleo em uma usina nuclear no Japão fez com que governos ao redor do mundo, de Taiwan à Itália, se afastassem de forma decisiva e rápida da energia atômica. Quinze anos depois, um tipo diferente de crise energética está acelerando o movimento de volta.

Espera-se que a guerra no Oriente Médio corte o acesso mundial a milhões de toneladas de gás natural liquefeito, um combustível amplamente utilizado para geração de energia em toda a Ásia. Mesmo na Europa e em outras regiões com acesso contínuo ao gás, a diminuição da oferta de energia está fazendo os preços dispararem.

Em resposta, a energia nuclear, vista pelos países como uma fonte alternativa de energia menos vulnerável a choques externos, está encontrando novo apoio mesmo em alguns dos lugares historicamente mais antinucleares.

Em Taiwan, onde o partido governista se opõe à energia nuclear há décadas, o presidente Lai Ching-te disse no mês passado que a ilha deveria estar aberta à energia nuclear como forma de atender à sua crescente demanda energética. A medida foi uma ruptura abrupta com a estratégia energética anterior de Taiwan. Após o desastre de 2011 —quando um terremoto e tsunami provocaram um triplo derretimento de núcleo na província de Fukushima, no Japão— Taiwan se comprometeu com uma política de “pátria livre de energia nuclear”. A ilha desligou seu último reator em maio de 2025.

No último mês, o fornecimento de energia de Taiwan foi pressionado pela guerra no Oriente Médio. A eliminação gradual da energia nuclear deixou a ilha precariamente dependente de importações para quase todas as suas necessidades energéticas, justamente quando sua vital indústria de semicondutores exige mais energia. Taiwan obtém cerca de um terço de seu GNL do Catar, levando autoridades a correr atrás de carregamentos adicionais dos Estados Unidos.

Dias após as declarações de Lai, a empresa estatal de energia de Taiwan, Taipower, apresentou um plano para reiniciar uma das usinas nucleares da ilha.

A decisão do presidente “surpreendeu muitas pessoas, incluindo membros de seu próprio partido”, disse Titus Chen, vice-diretor de um instituto de pesquisa da Universidade Nacional Chengchi, em Taipei. Dadas décadas de preocupação com a construção de usinas nucleares e o armazenamento de combustível e resíduos em uma ilha propensa a terremotos, ele disse, a oposição do partido governista à energia nuclear “havia se tornado quase intocável”.

Mudanças semelhantes são visíveis em toda a Ásia, que compra cerca de 90% do gás natural liquefeito que o Oriente Médio produz.

No Japão, que desativou toda a sua frota nuclear após o desastre de 2011, reguladores decidiram na semana passada alterar os requisitos antiterrorismo para efetivamente impedir o desligamento de alguns reatores operacionais e facilitar mais reinícios. Na Coreia do Sul, o governo disse no mês passado que aceleraria os trabalhos em cinco das 10 usinas nucleares em manutenção para que pudessem ser reiniciadas mais cedo.

Mesmo que a turbulência no Oriente Médio se acalme, o choque de oferta, e o fato de que as entregas de GNL provavelmente permanecerão interrompidas por anos, está dando aos países “mais um motivo para apostar na energia nuclear”, disse Tatsuya Terazawa, CEO do Instituto de Economia Energética do Japão, um think tank.

As respostas do Japão e de Taiwan, cujas políticas energéticas foram remodeladas pelo desastre de Fukushima, são significativas, disse Terazawa, porque provavelmente influenciarão as posições nucleares de outras nações. “Isso tem um contexto global”, acrescentou.

Em algumas partes do mundo, a crise energética está acelerando uma virada nuclear já em andamento, impulsionada pelas demandas de energia da inteligência artificial e dos data centers.

Nos Estados Unidos, o governo apoiou o ressurgimento da indústria nuclear por meio de bilhões de dólares em garantias de empréstimos federais e créditos fiscais. Antes da guerra, especialistas estimavam que a energia nuclear nos Estados Unidos precisaria triplicar até 2050 para atender à crescente demanda energética. A China vem construindo capacidade nuclear ainda mais rápido.

“O conflito no Oriente Médio terá implicações de longo prazo para a energia nuclear”, disse David Brown, diretor de pesquisa de transição energética da Wood Mackenzie, uma consultoria. Interrupções prolongadas no fornecimento e preços elevados de energia “podem desbloquear um novo nível de apoio político”. No entanto, ele disse, a energia nuclear terá um custo elevado: “A capacidade de financiar nova capacidade nuclear e escalar novas políticas de cadeia de suprimentos são as respostas políticas a serem observadas nos próximos meses”.

Para alguns, a aceleração da energia nuclear não é uma notícia bem-vinda. Em 11 de março, no 15º aniversário do desastre de Fukushima, o Centro de Informação Nuclear dos Cidadãos, um órgão de vigilância no Japão, emitiu uma declaração lamentando o que chamou de uma política energética nacional que prioriza a expansão nuclear em detrimento da segurança pública.

No dia anterior, a 9.600 quilômetros a oeste de Tóquio, dezenas de países se reuniram em Paris para trabalhar em direção à triplicação da capacidade global de energia nuclear até 2050, uma meta estabelecida em 2023. Um total de 38 países assinaram, incluindo quatro que endossaram a meta pela primeira vez no mês passado: Bélgica, Brasil, China e Itália.

A Itália, em particular, se destacou.

Em 2011, apenas meses após o desastre de Fukushima, a Itália realizou um referendo nacional no qual mais de 90% dos eleitores rejeitaram um plano do governo para reiniciar o programa nuclear do país. A votação efetivamente paralisou as ambições nucleares da Itália por mais de uma década, cimentando sua dependência de eletricidade e gás natural importados.

Agora, o governo da primeira-ministra Giorgia Meloni propôs uma lei para desenvolver novas tecnologias nucleares com o objetivo de fazer a energia nuclear cobrir de 11% a 22% da demanda de eletricidade até 2050. Esse plano está tramitando no parlamento.

Na Suíça, que também implementou uma política de eliminação gradual da energia nuclear após o derretimento de Fukushima, o parlamento está discutindo uma proposta para suspender a proibição de construção de novas usinas nucleares. A medida pode eventualmente ser submetida a uma votação nacional.

O obstáculo fundamental para muitas nações é que reiniciar usinas nucleares paradas —para não falar de novas construções— é um processo lento, improvável de aliviar as atuais crises de fornecimento de energia, pelo menos no curto prazo.

Em Taiwan, mesmo que um reinício nuclear fosse aprovado em todas as instâncias e passasse sem problemas pelo processo de inspeção e licenciamento necessário, especialistas dizem que levaria anos para religar os reatores. Uma das usinas de Taiwan já está inativa há tempo demais para ser reativada.

Os cronogramas prolongados alimentaram críticas de que os líderes deveriam, em vez disso, priorizar fontes de energia renovável que, segundo defensores, são mais seguras, se alinham com as metas climáticas de longo prazo existentes e podem ser implantadas mais rapidamente.

“Sempre que ocorre uma crise energética, o tema da energia nuclear surge da perspectiva da segurança energética”, disse Hajime Matsukubo, secretário-geral do Centro de Informação Nuclear dos Cidadãos. Levando em conta os altos custos das instalações nucleares e os longos tempos de construção, “não há solução imediata aqui”, disse Matsukubo. “É muito mais racional investir esse dinheiro em energia renovável”.

Outros observadores expressaram frustração de que governos que recuaram da energia nuclear após Fukushima simplesmente trocaram um conjunto de riscos por outro, deixando as nações dependentes de combustíveis importados.

“Perdemos tanto tempo”, disse Yang Chia-fa, fundador do grupo de defesa de energia limpa Climate Vanguards, que também trabalha para a empresa estatal de energia de Taiwan. Nos últimos anos, ele participou de reuniões em toda a ilha para protestar contra o fim da energia nuclear. “Se você sabia que precisava de energia nuclear”, disse Yang, “por que insistiu em uma pátria livre de energia nuclear em primeiro lugar?”

Em uma conferência de energia em Houston no mês passado, Katherina Reiche, ministra de Assuntos Econômicos e Energia da Alemanha, surpreendeu os participantes da indústria quando lamentou a decisão anterior da Alemanha de eliminar gradualmente a energia nuclear.

Após o desastre de Fukushima, a Alemanha estava entre os países que reagiram de forma mais agressiva, eliminando gradualmente uma frota nuclear que antes fornecia um quarto da eletricidade do país.

Agora, a guerra no Oriente Médio está fazendo os preços da gasolina, diesel e combustível de aviação dispararem e colocando pressão sobre a “frágil recuperação da economia da Alemanha”, disse Reiche. “A eliminação da energia nuclear foi um erro enorme, um erro enorme, e sentimos falta dessa energia”, acrescentou.



Fonte ==> Folha SP

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