O Alívio do Desprendimento

O Alívio do Desprendimento

Foi numa terça-feira comum, dessas em que nada parece acontecer, que me vi livre. Não foi uma decisão tomada em meio a um drama, nem o desfecho de uma longa terapia. Foi simples, como quem tira um casaco pesado num dia de calor que chegou sem aviso. O vício de que me livrei não estava em nenhuma lista de proibições médicas. Era mais sutil e mais sufocante: a necessidade de ser aprovado.

Durante anos, carreguei uma mochila invisível. Nela, guardava as opiniões alheias sobre minha vida, os olhares de desdém que eu mesmo imaginava, a ansiedade por um “gostar de mim” que vinha de fontes às quais eu mesmo não estimava. Queria ser palatável, inofensivo, compreendido até por quem não me compreendia. Era cansativo. Um vício silencioso que adulterava cada gesto, cada palavra. Dizia “sim” quando queria dizer “não”, ria de piadas sem graça, disfarçava minhas estranhezas para me encaixar.

E então, naquela terça, enquanto esperava o elevador, veio a leveza. De repente. Como um clique interno, uma porta que se abriu e deixou sair o ar viciado. Pensei: “Não quero que as pessoas que não gosto passem a gostar de mim.” A simples ideia foi revolucionária. Que alívio descomunal! Eu não precisava mais daquela moeda falsa, da admiração comprada com a minha própria diminuição.

Me tornei mais leve porque o peso da vaidade – aquela que sussurra “o que vão pensar?” – simplesmente se dissolveu. Percebi que gastava uma energia absurda tentando controlar uma narrativa que não era minha. O mundo pode pensar o que quiser sobre o que eu penso. O sol nascerá do mesmo jeito. Dispensar o que ficou pra trás não é um ato de raiva, é um ato de faxina. Libera espaço.

Os novos sonhos, esses, são diferentes. Não têm a ambição cega de antes. São mais quietos, mais voltados para o afeto verdadeiro. Quero que eles ajudem a quem quero bem, sem o ruído da auto-promoção. Descobri que sem a âncora da vaidade, navega-se mais longe. A honestidade do sentimento é um vento melhor.

Hoje entendo que os começos só chegam quando aceitamos os fins. As flores que imaginei para um jardim que não era meu, que murcharam nos meus sonhos antigos, voaram. E que bom que voaram. Elas vão crescer em outro lugar, e ficarão mais bonitas lá. Não são mais minha responsabilidade. É uma paz estranha, essa de saber que nem tudo que plantamos tem que florescer para nós.

Ando diferente. As mágoas eram como pedrinhas no sapato. A cada passo, uma picada, um lembrete de uma ferida. Tirei-as. A dor que ainda não passou? Eu a carrego, mas não como minha dona. Passo adiante, como quem compartilha um fardo só para dizer: “É pesado, mas não é eterno.” Na vida, tudo realmente passa. Até a urgência de que tudo dure.

E quando vejo alguém que amo entristecido, já não ofereço falsos otimismos ou discursos prontos. Agora só consigo dizer, com uma calma que antes não tinha: “Garanto que o melhor da vida ainda vai acontecer.” Não sei quando, nem como. Mas sei que a vida tem uma astúcia bela para reservar surpresas justo quando deixamos de exigir um roteiro.

O vício se foi. No seu lugar, ficou o olhar. O meu olhar, limpo da névoa da necessidade de agradar. E quando me olho no espelho, lembro do nosso olhar – o meu e o dela, o meu e o dele, o meu e o deles – na primeira vez, puro, antes do vício começar. Era esse olhar que eu buscava, desesperadamente, nos outros. Agora, encontro-o em mim. De repente. Que bom.



Fonte ==> Bahia Notícias

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