Quando o último rio estiver envenenado, os “homens sábios” se reunirão em grandes câmaras de vidro e aço para discutir o problema. Usarão ternos muito bem passados e gravatas apertadas demais para o calor que fará lá fora. Falarão palavras difíceis, como “sustentabilidade” e “matriz energética”, enquanto ajustam os óculos no nariz e pedem mais café – café que virá de algum lugar onde ainda haja água, por enquanto.
Quando a luz do sol não mais atravessar o ar poluído, os “homens sábios” encomendarão estudos. Contratarão consultorias. Formarão comitês. Os laudos ocuparão prateleiras inteiras, com capas coloridas e gráficos que ninguém entenderá direito, mas que parecerão muito científicos. Haverá reuniões extraordinárias, conferências de imprensa, comunicados oficiais. As cortinas das câmaras de vidro e aço ficarão sempre fechadas, para não deixar entrar aquela claridade estranha do lado de fora.
Quando o último peixe for pescado – um lambari magro e triste, encontrado boiando num córrego nos arredores da cidade – os “homens sábios” farão um pronunciamento em cadeia nacional. Falarão com a voz grave e compassada de quem carrega o peso do mundo nos ombros. Dirão que é preciso unir esforços, que vivemos tempos desafiadores, que o momento exige sacrifícios de todos. Pedirão paciência. Pedirão confiança. Pedirão que aguardemos novos estudos.
E então, finalmente, quando não houver mais rios nem peixes nem sol que preste, os “homens sábios” se olharão ao redor da mesa. Ajustarão as gravatas mais uma vez. Limparão a garganta. E um deles, o mais velho e respeitado, levantará os olhos dos papéis e dirá, com toda a sabedoria que os trouxe até ali:
– Meus amigos, precisamos pensar numa solução. Alguém trouxe dinheiro?
Porque é disso que os homens sábios entendem. De dinheiro. De números. De gráficos e relatórios. De discursos e promessas. De tudo, menos daquilo que importa.
E quando o último peixe for apenas uma fotografia num museu virtual, quando o último rio for uma linha pontilhada nos mapas, quando o sol for uma lembrança amarelada em postais antigos, os homens sábios finalmente perceberão, com aquela lucidez tardia que só chega quando não há mais tempo, que o ‘dinheiro não se come’.
Mas, convenhamos, isso eles sempre souberam.
Apenas não imaginavam que um dia precisariam provar.
Fonte ==> Bahia Notícias
