Em “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria”, Rose Byrne interpreta Linda, uma terapeuta estressada sob constante cerco: seus clientes não a escutam, sua filha não come, seu marido está no mar e seu apartamento está desmoronando. À medida que sua situação piora, Linda começa a reagir agressivamente, embora sua raiva totalmente justificada apenas sirva para piorar as coisas.
Faz anos desde que Byrne teve um papel no cinema tão ousado, e sua performance de nervos à flor da pele já lhe rendeu os principais prêmios New York Film Critics Circle e da Los Angeles Film Critics Association. Com essas credenciais, ela deveria ser uma garantia para uma indicação ao Oscar.
Então por que eu temo que Byrne possa seja completamente ignorada? Talvez seja porque a história recente sugere que os eleitores do Oscar têm dificuldade com mulheres irritadiças.
Apenas no ano passado, Marianne Jean-Baptiste ganhou prêmios desses mesmos grupos de críticos por “Hard Truths”, no qual ela interpretou uma mulher que parecia congenitamente propensa a atacar todos ao seu redor, desde estranhos sem sorte até familiares que muito sofriam.
Jean-Baptiste foi uma força da natureza no papel, mas muitos eleitores homens me disseram que simplesmente não gostavam de sua personagem. Na manhã das indicações ao Oscar, ela foi injustamente esnobada.
Observei na época que quando uma mulher sofre nobremente, isso é considerado isca para o Oscar, mas quando ela faz outros sofrerem, os eleitores são muito menos compreensivos. Com isso em mente, estou de olho não apenas em Byrne, mas também em Jennifer Lawrence e Amanda Seyfried, que apresentaram alguns de seus trabalhos mais fortes este ano interpretando mulheres difíceis, mas ainda permanecem na bolha na maioria das previsões para melhor atriz.
Em maio, quando a distribuidora em ascensão Mubi gastou 24 milhões de dólares para adquirir “Morra, Amor” no Festival de Cannes, uma robusta campanha para premiações de Lawrence parecia certa.
A vencedora do Oscar interpreta Grace, uma mãe cujo relacionamento com Jackson (Robert Pattinson) se tornou tenso desde a chegada do bebê. Sentindo-se invisível e não amada, Grace começa a agir de maneiras perturbadoras, como tirar suas roupas no meio de uma festa infantil lotada ou atacar o incompreensivo Jackson.
Com este material, Lawrence está assumindo riscos que parecem estimulantes e novos. Mas, mesmo em Cannes, eu me perguntava se os votantes teriam problemas com sua personagem.
Muitos dos homens com quem conversei após a estreia ainda estavam reticentes: um crítico de cinema masculino descartou o filme com um curto “Não é para mim”, enquanto um proeminente executivo de cinema independente foi ainda mais direto. “Eu odiei aquela mulher”, disse ele.
Meses depois, quando “O Testamento de Ann Lee” estreou no Festival de Cinema de Veneza, esse debate começou novamente.
O filme é estrelado por Seyfried como Ann Lee, uma mulher de Manchester empobrecida, mas carismática, que se tornou a fundadora do movimento religioso Shaker em meados do século 18.
Forçada a se casar com um cafajeste sexualmente sádico (Christopher Abbott), Lee passa a se ver como uma profetisa, eventualmente persuadindo seus companheiros Quakers a renunciar ao casamento, abraçar o celibato e segui-la para a América para estabelecer uma nova comunidade religiosa.
Seyfried é uma maravilha no papel. Mas, quando saí daquela primeira exibição em Veneza, um jornalista francês parecia totalmente confuso com a personagem: “Ela era antissexo e uma fanática religiosa. Eu deveria gostar dela?”
Para mim, essa reação não entende o ponto principal. Mesmo que a mensagem de abstinência de Lee possa não se encaixar perfeitamente nos costumes contemporâneos, sua rejeição ao sexo pode ter sido a única maneira pela qual essa mulher do século 18 poderia ascender do nada para se tornar líder de uma seita notavelmente igualitária.
Embora eu não esteja inclinado a descrever Ann Lee como uma “chefe empoderada” digna de torcida, isso é porque não assisto a filmes com um ponto de vista tão limitado.
De qualquer forma, não é suficiente achar um personagem fascinante em vez de agradável? Com muita frequência durante a temporada de premiações, percebo que a simpatia é uma métrica aplicada contra protagonistas femininas muito mais frequentemente do que contra homens, que conseguem se safar de praticamente qualquer coisa.
Mulheres agitadoras que pontuam com os eleitores do Oscar tendem a se suavizar até o final de seus filmes — pense em Frances McDormand em “Três Anúncios Para Um Crime”, cuja raiva é modulada de forma precisa — mas se as personagens interpretadas por Byrne, Lawrence e Seyfried cedem, é apenas ao esgotamento.
É interessante, então, comparar essas três performances com aquela que deve dominar a disputa de melhor atriz.
Em “Hamnet”, Jessie Buckley interpreta Agnes, a esposa de William Shakespeare. Como Linda, Grace e Ann Lee, ela está passando por um momento traumático da maternidade enquanto seu marido está amplamente ausente, embora diferentemente dessas mulheres, ela seja quem o encorajou a realizar suas ambições mudando-se para a cidade para seguir a carreira de dramaturgo.
Ressentimentos se acumulam mesmo assim enquanto ela permanece no campo para criar a família. Mas pelo menos quando a tragédia acontece, o poder curativo da arte de seu marido pode ajudar ambos a lidar com a situação.
Buckley não é apenas a favorita, ela também é uma das poucas concorrentes que vem de um forte candidato a melhor filme, em parte porque seu filme culmina em um extravasamento catártico de dor.
Dizer que as outras protagonistas não recebem isso seria subestimar consideravelmente: seus desfechos são complicados, com momentos que beiram o catártico sendo imaginados ou póstumos.
Não quero desvalorizar o quão boa Buckley é nesse papel dilacerante: se ela dominar toda a temporada, será merecido. Ainda assim, me pergunto se essa performance encontrou mais aceitação do que as outras porque sua personagem sofre de maneiras que não são apenas palpáveis, mas palatáveis.
Mesmo quando Agnes confronta seu marido, eu queria que ela o enfrentasse um pouco mais. Os eleitores do Oscar podem aplaudir sua contenção, mas se Agnes realmente precisar se soltar, pelo menos há três mulheres desafiadoras por perto com quem ela poderia aprender algo.
Fonte ==> Folha SP
