PA e AM lideram atraso escolar em áreas rurais ribeirinhas – 07/01/2026 – Educação

Três crianças sentadas em um barco pequeno, cada uma lendo um livro, enquanto um adulto com chapéu de aba larga rema. O barco está sobre água estilizada em tons de rosa, com um círculo rosa representando o sol ao fundo.

A dificuldade de chegar à escola ajuda a explicar por que o atraso escolar é mais acentuado nas áreas rurais e ribeirinhas do Brasil, onde estudantes da rede pública acumulam índices de defasagem superiores aos das cidades, especialmente no Norte do país.

No ensino fundamental, 16,5% dos alunos das escolas rurais estão fora da série adequada para a idade, contra 11,6% nas urbanas. No ensino médio, essa proporção sobe para 29,8% entre os estudantes do campo, frente a 19% nas cidades, segundo dados do Inep.

O atraso educacional, tecnicamente chamado de distorção idade-série, ocorre quando o aluno está dois ou mais anos abaixo da série esperada para sua idade —um retrato de desigualdades no acesso e na permanência escolar.

Pará e Amazonas têm os piores indicadores do país no recorte rural e ribeirinho. Nos anos finais do ensino fundamental, as taxas são de 33,2% no Pará e 21,5% no Amazonas. No ensino médio, as proporções sobem para 42,2% e 50,6%, respectivamente.

Os índices são resultado de um levantamento com base em dados do Inep, tratados pelo QEdu, portal que reúne e disponibiliza informações públicas da educação básica brasileira.

Nesses dois estados da região Norte, as dificuldades de transporte agravam a distorção idade-série nas áreas rurais, onde o acesso à escola muitas vezes exige longos deslocamentos por rios ou estradas precárias, com impacto direto na frequência e no aprendizado.

É nesse cenário que vive Rafaela de Souza, dona de casa e moradora de uma comunidade ribeirinha na zona rural de Manaus, onde o filho de 12 anos estuda em uma escola municipal. Ele está no terceiro ano do ensino fundamental, um atraso de ao menos quatro anos em relação à série esperada para sua idade.

Todos os dias, ele depende de um barco escolar para tentar chegar à escola, que fica a dezenas de quilômetros de casa pelo rio. “É triste ver que meu filho ainda está muito atrasado. O barco fica semanas sem aparecer, ele perde muita aula, e isso cobra um preço. Ele mal consegue ler”, relata a mãe.

A reportagem enviou à Prefeitura de Manaus perguntas sobre a qualidade e a regularidade do transporte escolar na zona rural, mas não houve resposta até a publicação deste texto.

Para Eraldo Souza do Carmo, professor da UFPA (Universidade Federal do Pará) e pesquisador da educação do campo, parte do quadro resulta de uma oferta tardia e irregular de escolarização fora dos centros urbanos.

Ele aponta que o transporte escolar é um dos pontos centrais desse problema, especialmente quando envolve deslocamento aquaviário. O professor também destaca que o financiamento não acompanha o custo real de operar esse tipo de transporte na Amazônia, o que sobrecarrega os orçamentos municipais.

“Em muitos municípios ribeirinhos, os estudantes dependem de canoas, barcos e longas viagens em rios para chegar às salas de aula. A chamada nucleação [fechamento de escolas pequenas para concentrar alunos em unidades maiores e mais distantes] ampliou ainda mais esses percursos”, afirma.

Mesmo quando a frequência é mantida, muitas vezes por causa de programas sociais que vinculam benefícios à presença na escola, o tempo de deslocamento e o cansaço afetam diretamente o aprendizado, explica Fábio Alexandre Ferreira Gusmão, professor colaborador do Observatório da Educação Tiradentes da Unit (Universidade Tiradentes).

“Entre priorizar o estudo, que é um direito, e a condição de sobrevivência, às vezes, a condição de vida fala mais alto.”

Segundo o FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), o governo federal concluiu em 2025 o pagamento do adicional de 50% nos recursos destinados ao transporte escolar aquaviário dentro do Pnate (Programa Nacional de Apoio ao Transporte do Escolar), previsto em resolução de 2024.

A parcela liberada neste ano destinou cerca de R$ 31,2 milhões a pouco mais de 400 entes federativos, beneficiando aproximadamente 290 mil estudantes da educação básica que dependem de embarcações para chegar à escola, sobretudo na região Norte. O apoio, porém, ainda não cobre a dimensão do problema, segundo os pesquisadores ouvidos pela reportagem.

A Folha questionou as secretarias de Educação do Amazonas e do Pará sobre os desafios para garantir transporte escolar e reduzir o atraso educacional. O Pará atribuiu parte do problema à dificuldade dos alunos de conciliar estudo e trabalho, à infraestrutura limitada e à complexidade do transporte escolar nesses territórios. O Amazonas não respondeu à reportagem.

O MEC (Ministério da Educação) e o FNDE também foram questionados sobre o financiamento do transporte escolar, especialmente aquaviário, mas não responderam até a conclusão deste texto.


Esta reportagem é resultado do laboratório de jornalismo de dados de educação e cultura, promovido pela Folha e pela Fundação Itaú em outubro de 2025.



Fonte ==> Folha SP

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