Ela se chama Keroly Vitoria de Oliveira Ramos Carvalho, tem 18 anos, e sua vida conta boa parte da história da educação no Brasil. Aluna recém-formada em uma escola estadual de São Paulo, é da primeira geração da família a chegar ao ensino médio.
O pai, pedreiro, estudou até o 9º do fundamental, e a mãe, merendeira, até o 7º. Os avós só puderam cursar os primeiros anos. Dos três irmãos de Keroly que já concluíram o ensino médio, dois foram para cursos superiores, um presencial e outro a distância. E a mãe voltou a estudar e está em um curso técnico de radiologia.
A família é um retrato do aumento expressivo da escolarização no Brasil nas últimas décadas. Se, em 1980, somente 20% da chamada força de trabalho do país (a população de 25 a 55 anos) havia concluído o ensino fundamental, nos anos 2020, era perto de perto de 80%.
“É uma minirrevolução”, enfatiza Guilherme Lichand, professor da Universidade de Stanford, dos EUA, especializado em políticas educacionais de diferentes países. Ele lembra que o diploma do ensino médio, em 1980, ainda girava em torno de 10% da força de trabalho e, nos anos 2020, atingiu cerca dois terços dessa população.
Já no ensino superior o avanço foi bem mais lento, mas, ainda assim, ocorreu. “Em 1980, menos de 5% tinham ensino superior, e isso mudou muito pouco até os anos 2000, quando ainda estávamos abaixo de 10%”, aponta Lichand. “A partir daí houve uma aceleração, e, nos anos 2020, finalmente ultrapassamos os 20%.”
A minirrevolução é colocada em perspectiva quando olhamos para outros países, inclusive da própria América Latina. E aí entramos na metade vazia do nosso copo.
Voltando quase um século, fica claro que a escolarização no Brasil chegou atrasada. “Em 1930, enquanto ainda tínhamos 21,5% das crianças no primário, no Chile já eram quase 70% e, na Argentina, 62%”, aponta Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas e ex-diretora global de educação do Banco Mundial.
“Quem estava empatado conosco era a Coreia. Mas, nos anos 1960, enquanto ainda estávamos em 40%, a Coreia já havia universalizado o acesso à escola nessa etapa, a exemplo dos EUA, da Europa e da América Latina quase como um todo.”
O Brasil chegou tarde também às outras etapas. Enquanto aqui apenas cerca de 10% da força trabalhadora havia concluído o ensino médio por volta de 1980, nos EUA e no Canadá já eram aproximadamente 75%. São realidades diferentes da brasileira, pondera Lichand. Mas “o que é surpreendente” é o Brasil perder mesmo para países similares economicamente. “Nos anos 2000, quando o Brasil ainda patinava nos 25% com ensino médio, o Equador tinha 75% e Porto Rico, 75%.”
No ensino superior, a média de 20% de brasileiros acima dos 25 anos com diploma é metade dos cerca de 40% dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o “clube dos ricos”, entre eles EUA, Canadá e Suíça. Mesmo comparados a nações da América Latina, estamos atrás. A proporção de brasileiros de 25 a 34 anos com diploma universitário, 23,4%, é mais baixa do que a do México (27,1%), da Colômbia (30,5%) e do Chile (40,5%).
As universidades começaram tardiamente ao Brasil, apenas no início do século 20. Nos EUA, Harvard data de 1636, e outras foram criadas a partir do século 17. Mesmo em relação às primeiras da América Latina, chegamos bem depois, a exemplo do Peru (1551), do México (1553), da Colômbia (1662) e de Cuba (1728). Os diplomas são recentes no Brasil inclusive para a elite. Lichand ressalta que, até 1980, somente metade dos brasileiros mais ricos concluía o ensino médio, e pouco mais de 20%, o ensino superior (considerando aqui os 10% mais ricos).
A noção mais clara sobre o valor da educação viria na redemocratização, em especial com a Constituição de 1988. “Foi quando a educação passou a ser vista como um motor da própria difusão das ideias da democracia, de desenvolvimento social, de acesso a oportunidades do mercado de trabalho”, explica Lichand.
Uma política pública mais ampla começou a se desenhar, inicialmente com o Fundef, lembra o economista Naercio Menezes Filho, professor do Insper e da FEA-USP. Implementado em 1998, o fundo de desenvolvimento do ensino fundamental redistribuía recursos públicos entre estados e municípios para o investimento em educação. “Surgiu no país um sentido de empoderamento da população a partir do acesso à educação”, diz.
Um pensamento na contramão de nossas origens. “Tivemos uma colonização de exploração, de tirar, tirar, tirar, em contraposição com os EUA, por exemplo, que tiveram uma colonização de povoamento, de criar regras e direitos, como a educação, porque os colonizadores queriam viver lá”, diz.
No Brasil, as elites portuguesas deram origem às elites brasileiras, que não queriam investir na educação. “É só analisarmos o coronelismo, como as telenovelas deixaram claro, com os coronéis tentando evitar que a população ficasse mais esperta”, afirma. “Era uma estratégia deliberada para que os mais pobres não entendessem o jogo e, mesmo após o Brasil finalmente permitir o voto dos analfabetos, controlar as eleições por meio do voto de cabresto.”
Entre os anos 1960 e 1970, o país viveu um crescimento industrial, forte fluxo migratório para o Sudeste e a mudança da população do campo para as cidades. “Era preciso contar com uma mão de obra qualificada. E cadê a nossa educação? Com isso, de lá para cá, praticamente não tivemos crescimento de produtividade.”
Menezes Filho sublinha que essa é a causa de vários problemas que enfrentamos hoje, como a desigualdade e a criminalidade.
“É a história de uma elite que não tinha consciência de que a universalização do acesso às escolas favoreceria o próprio país em termos de crescimento econômico e em tantos aspectos”, diz Costin.
Uma série de mecanismos matinha a exclusão, mesmo com o aumento da oferta de vagas, como o exame de admissão para os antigos primário e ginásio. “Quem passava nessas provas? A classe média em ascensão, a elite”, afirma Costin.
Havia também as altas taxas de repetência. “Em 1970, tínhamos no Brasil 40% dos alunos repetindo a 1ª série. Era uma maneira de manter os mais pobres, os negros, fora do sistema escolar. Eles repetiam uma vez, duas vezes, três vezes e acabavam saindo da escola”, diz Menezes Filho.
O economista defende que é preciso investir na recuperação de aprendizagem no contraturno. Ele é autor de estudos que demonstram que não há muita diferença de desempenho dos alunos de redes de ensino com reprovação e daquelas com aprovação automática. “Em ambas os alunos aprendem muito pouco.”
De fato, o aumento do acesso à escola não veio acompanhado por uma melhora na qualidade de aprendizado. O Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), que avalia o desempenho de estudantes de 15 anos em 81 países, mostra que o Brasil está entre as últimas 20 colocações. Mais de 70% dos alunos têm resultado insatisfatório em matemática, metade em habilidades de leitura e 55% em ciência. Mesmo as notas das escolas particulares, embora melhores do que as da rede pública, estão abaixo da média da OCDE –o Brasil tem cerca de 20% de matrículas na rede privada, e 80% em federais, estaduais e municipais.
Menezes Filho aponta que países da América Latina enfrentam dificuldade semelhante. “Os alunos chegam à escola muitas vezes em condição de vulnerabilidade. E, em casa, os pais são pouco escolarizados, sem muitas condições de estimular os filhos, de ler para eles, por exemplo. E, no ensino médio, boa parte dos jovens já precisa trabalhar.”
Os professores, por sua vez, em geral vêm das classes mais desfavorecidas –as mães de classe média que eram professoras em meados do século 20 buscaram outras profissões ao longo dos anos. “Os docentes aprenderam pouco na escola e tiveram uma formação ruim na faculdade, quase 70% deles a distância”, aponta Menezes Filho.
O gasto com educação no Brasil, embora pareça alto, diz Costin, é a metade do que investem países com bons resultados, considerando o valor por estudante.
Lichand aponta que reduzimos pouco as desigualdades nas últimas décadas e que, em algumas etapas, ela até se ampliou, porque a escolarização também era baixa na elite. É o caso do ensino superior, apesar das bolsas e dos financiamentos governamentais para faculdades privadas a partir dos anos 1990 e dos recentes esforços de inclusão das cotas em universidades públicas. Em 1980, era praticamente zero o número de formados dentre os mais pobres, ante 20% dos mais ricos. Em 2020, os mais pobres foram para 18%, e os mais ricos, para 50% (comparação da população 10% mais rica com a 90% mais pobre, 25 a 55 anos).
As desigualdades no Brasil são ainda mais dramáticas e persistentes ao longo dos anos quando se comparam grupos raciais. Dados do IPUMS (Série de Microdados de Uso Público Integrado) mostram que, em 1980, 17% dos brancos e 6% dos negros tinham diploma de ensino médio (população de 25 a 55 anos). Em 2010 (dados mais recentes), os brancos atingiram 50%, e os negros, 33%. O levantamento aponta mais equidade racial na escolarização de países como EUA e Canadá, e redução da desigualdade, por exemplo, em Porto Rico e Jamaica.
Coordenador do Núcleo de Estudos Raciais do Insper e vencedor do prêmio Jabuti acadêmico com o livro “Números da Discriminação Racial”, o economista Michael França aponta que o próprio sistema público “é extremamente desigual”.
“As escolas da periferia, onde, em geral, está a população negra, tendem a ter infraestrutura pior e professores em começo de carreira”, diz ele, que é colunista da Folha. “Os melhores vão para as regiões mais centrais, onde há mais brancos.”
Ele cita estudos que apontam discriminação nas escolas –alunos negros recebendo notas menores que os brancos com o mesmo resultado– e nas próprias famílias. “Quando há um filho branco e outro pardo, os pais tendem a investir mais na educação do branco”, afirma França. “Há uma expectativa do retorno daquele investimento”, explica. “O fato de ser negro e de entender que, lá na frente, serei discriminado no mercado de trabalho, afeta a decisão de hoje sobre a escolarização”, diz o economista. “Todo esse condicionamento social vai afetando quem eu sou, minha autoestima, minhas próprias realizações. É um peso psicológico, subjetivo, que muitas vezes a gente não discute no Brasil.”
Os especialistas se dividem entre otimismo e pessimismo para mudar esse cenário da educação brasileira e torná-la motor de redução de desigualdades e de crescimento do país. Entre os caminhos apontados estão a ampliação do ensino integral, valorização da carreira docente e políticas que integrem a esfera federal às estaduais e municipais para recuperar a aprendizagem e reduzir a evasão.
A estudante Keroly, que pretende cursar pedagogia e trabalhar como gestora escolar, fala da necessidade de se investir na comunicação com os alunos, para que todos entendam algo que ela ouviu dos pais e a marcou: “Estudar é o maior ato de rebeldia contra o sistema”.
Fonte ==> Folha SP
