Petróleo, comércio, turismo e guerra: os efeitos do conflito no Irã para o Brasil e o mundo

Petróleo, comércio, turismo e guerra: os efeitos do conflito no Irã para o Brasil e o mundo

Estreito de Ormuz

“Se houver prolongamento do conflito, a tendência é de manutenção do petróleo em patamares mais elevados, o que pode gerar pressões inflacionárias sobre a economia global e efeitos mais estruturais no mercado internacional de petróleo e gás.”

Pax americana

“A proximidade entre os eventos levanta dúvidas a respeito de quão significativo ou premeditado teria sido tal planejamento, já que a produção na Venezuela não teria como compensar essa imensa quantidade de petróleo, ainda mais por ser de um tipo mais denso que o do Golfo Pérsico”, afirma. “De qualquer modo, os EUA têm reservas estratégicas e produção própria, o que não é o caso da Europa.”

“Tanto o sucesso ou a derrota podem afetar o Brasil, já que o primeiro caso fortaleceria a política agressiva dos EUA e o segundo poderia fazer eles se concentrarem mais na região que consideram historicamente o seu quintal, isto é, a América Latina.”

Ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, Jorge Mortean, doutor em geografia política pela USP e mestre em estudos regionais do Oriente Médio pela Academia Diplomática do Irã, também vê que os ataques retaliatórios a bases norte-americanas em países árabes podem forçar esses países a repensar suas alianças com os EUA.

Segundo ele, a retaliação contra alvos localizados em países que hospedam instalações militares de potências estrangeiras levanta um debate sobre responsabilidades no direito internacional. “Não há uma definição clara sobre a responsabilidade de um país que abriga bases militares de outra soberania em seu território”, afirma. Na avaliação do especialista, a estratégia iraniana busca justamente expor essa corresponsabilidade política dos Estados que permitem a presença de forças militares estrangeiras.

Para ele, o atual conflito reacende um debate mais amplo sobre o próprio conceito de alianças militares e os riscos para países que hospedam bases estrangeiras em seus territórios. Os Estados Unidos possuem cerca de 750 a mais de 800 instalações ativas em cerca de 51 a 80 países e territórios.

Leandro Dalalibera Fonseca, mestre em ciência política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pesquisador de temas de segurança internacional, avalia que quando um ator externo ataca simultaneamente diferentes países, rivalidades históricas tendem a ser relativizadas em nome de uma ameaça comum.

Na prática, afirma o pesquisador, isso pode aproximar potências regionais como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, que vinham enfrentando tensões e disputas indiretas em cenários como o conflito no Sudão. “É aquela lógica de que o inimigo externo une a tropa”, resume. Para ele, a pressão militar iraniana pode empurrar os países do Golfo para uma coordenação maior entre si e até para um alinhamento mais forte com Washington.

Impactos no Brasil

Beni afirma que o Brasil, apesar de importar muito de seus combustíveis como diesel e gasolina, não seria afetado pelo fechamento de Ormuz, já que suas importações não são dessa localidade, e sim da Rússia e dos Estados Unidos. No entanto, a economista faz a ressalva de que a alta no preço do petróleo ainda complica.

Segundo ela, uma eventual alta do petróleo no mercado internacional pode pressionar os preços da gasolina, embora esse impacto dependa da capacidade da Petrobras de amortecer a variação — especialmente em um contexto de ano eleitoral, quando historicamente há maior cautela com reajustes.

Além disso, Beni aponta mais uma questão importante: o agronegócio. O Irã é o maior comprador de milho brasileiro, principalmente vindo dos estados de Mato Grosso e Goiás. Do outro lado, os iranianos estão entre os principais fornecedores de insumos para a agricultura, como a ureia. “Eu colocaria também esse peso na balança e que tipo de políticas públicas o governo no Brasil poderia fazer ou novas aberturas de mercado para justamente diminuir essa dependência.”

Já Santos destaca que um eventual choque no preço do petróleo pode pressionar a inflação no Brasil e influenciar as decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil sobre a taxa de juros.

Ele observa, no entanto, que a Petrobras tem sinalizado cautela ao afirmar que não pretende repassar imediatamente ao mercado interno a volatilidade das cotações internacionais, aguardando maior clareza sobre a duração da alta do petróleo. Nesse cenário, ele considera possível que a reunião de março do Copom ainda registre algum recuo na taxa básica de juros.

Por outro lado, caso o conflito envolvendo o Irã se prolongue e resulte em aumento dos combustíveis no mercado doméstico, o Banco Central poderá adotar uma postura mais cautelosa nas reuniões seguintes, retardando cortes ou até mantendo a taxa estável. Para o especialista, o contexto reforça o papel

estratégico da Petrobras como instrumento de política energética capaz de amortecer, ao menos no curto prazo, os impactos de choques externos sobre a inflação brasileira.



Fonte ==> Bahia Notícias

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