Rede de afrotecas no Pará promove educação antirracista – 20/11/2025 – Educação

Rede de afrotecas no Pará promove educação antirracista - 20/11/2025 - Educação

“Lelê não gosta do que vê. De onde vêm tantos cachinhos? Pergunta sem saber o que fazer.” O livro “O Cabelo de Lelê”, de Valéria Belém, conta a história de uma menina negra com cabelos cacheados que busca entender seus traços em histórias africanas.

Ao conhecer sua ancestralidade, ela passa a amar o que vê e questiona o leitor: e você, gosta do que vê quando se olha no espelho?

A história de Lelê é uma das muitas contadas para crianças em afrotecas de cidades do interior do Pará. Os espaços gratuitos combinam elementos de brinquedoteca e biblioteca, com foco na valorização da diversidade étnico-racial e no enfrentamento do racismo desde os primeiros anos de vida.

São 11 afrotecas distribuídas em cinco municípios do interior. A iniciativa nasceu como um projeto do Grupo de Pesquisa em Literatura, História e Cultura Africana, Afro-brasileira, Afro-Amazônica e Quilombola (Afroliq) da Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará) e se expandiu com o apoio do Ministério da Igualdade Racial. Cerca de 1.843 crianças são atendidas dentro do programa de educação antirracista.

Dados do Google Trends mostram que o interesse por educação antirracista só passou a crescer a partir de 2020. Desde então, todos os anos a semana da Consciência Negra registra um pico consistente de buscas. Nos últimos cinco anos, o interesse pelo tema aumentou 16 vezes.

Nas afrotecas, cada unidade tem suas próprias regras de participação. Elas funcionam em escolas, universidades e comunidades quilombolas, além de uma afroteca itinerante em Santarém. A Afroteca Curumim, da Ufopa, por exemplo, recebe estudantes e funcionários da universidade e abre agendamento para o público externo três vezes ao mês. Já aquelas instaladas em escolas e creches seguem as programações pedagógicas.

A estudante Lara, 6, é uma das crianças beneficiadas em uma escola municipal de Santarém. A mãe, Danielle, 35, conta que a filha reclamava constantemente da pele negra e do cabelo cacheado. Queria ter o cabelo liso da mãe e a pele clara do pai, embora seja mais parecida com o avô, negro retinto.

“Lara nunca gostou dela mesma. Reclamava muito da cor e do cabelo. Dizia: ‘mãe, quando pentear meu cabelo não enrola’, mas era natural. Eu não sabia como ajudar e ficava triste”, diz.

Com a criação da Afroteca Lelê no Centro Municipal de Educação Infantil Maria Raimunda Pereira de Sousa, em 2022, Lara passou a ter contato com personagens negros, bonecas, canções e histórias voltadas à valorização da cultura afro-brasileira. Hoje gosta do próprio cabelo, pede para a mãe modelar os cachos e não quer mais trocar a cor da pele.

“Ela mudou muito, é outra criança. Antes se achava diferente, agora não mais”, afirma a mãe.

Para o coordenador do projeto, professor Luiz Fernando de França, as afrotecas se consolidam como estratégia importante de promoção da cultura e da identidade afro-brasileira no ambiente educacional do Norte do país.

“As afrotecas mostram que a escola pode ser um lugar de reconhecimento e transformação”, afirma.

A Afroteca Lelê, coordenada pela professora Janice Souza Diniz, integra a rotina de todas as turmas —do berçário ao último ano da educação infantil. Criada como uma das três primeiras da cidade, funciona com cronograma mensal: cada turma visita o espaço ao menos uma vez por mês para participar de contações de histórias, atividades lúdicas, rodas de conversa e manuseio de instrumentos e livros. O trabalho se integra ao planejamento dos professores e continua em sala de aula.

Os resultados aparecem no comportamento, na autoestima e nas relações entre as crianças, segundo Diniz. Ela relata que uma aluna usava sabonete para tentar clarear a pele, mas passou a gostar dos próprios traços após se identificar com a história de Lelê. Ela destaca também que crianças brancas têm se inspirado nas referências da afroteca, pedindo penteados de cabelos crespos.

A Afroteca Kurumi, primeira instalada dentro de uma universidade no Brasil, tornou-se peça central da política de permanência estudantil na Ufopa, segundo a diretora de políticas estudantis e ações afirmativas, Wânia Alexandrino Viana.

O espaço atende principalmente filhos de alunas indígenas, quilombolas e negras —que compõem a maior parte das mães estudantes.

A Kurumi funciona de segunda a sexta, das 8h às 12h e das 14h às 18h, e acolhe crianças por até duas horas enquanto as responsáveis participam de aulas, pesquisas ou outras atividades acadêmicas. Também há visitas agendadas para o público externo.

“Nossas crianças são negras, indígenas e quilombolas. Elas não precisavam apenas de uma brinquedoteca, mas de um espaço que reconhecesse sua identidade”, diz.

Professora da Ufopa, Emanuelle Sacramento, 38, afirma que as Afrotecas transformaram a rotina da família e o modo como as filhas de 5 e 3 anos passaram a se reconhecer enquanto meninas negras.

Mãe por adoção, ela já conhecia o projeto antes das crianças, mas diz que tudo ganhou outro sentido quando elas começaram a frequentar o espaço.

“Desde o primeiro minuto ficaram encantadas, sobretudo por ver tantas bonecas parecidas com elas”, conta.

A família é interracial —Emanuelle é branca, o marido, pardo— e buscava espaços que valorizassem a ancestralidade das meninas. “Elas se comparam aos quebra-cabeças com diferentes tons de pele, se encantam com os cabelos das estagiárias e se sentem representadas”, relata.

A afroteca também virou suporte concreto para sua jornada acadêmica. “Eu só consegui apresentar um trabalho do doutorado porque a Kurumi acolheu minhas filhas naquele dia”, diz. A família visita o espaço de duas a quatro vezes por mês e costuma levar amigas das crianças para conhecer o lugar.



Fonte ==> Folha SP

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