Restaurador salva piano centenário após enchente no RS – 21/02/2026 – Cotidiano

Teclado de piano antigo com teclas brancas e pretas, algumas quebradas e desalinhadas, exposto em ambiente com paredes descascadas e móveis desgastados ao fundo.

Em um galpão em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre, dois homens passaram as últimas semanas observando dezenas de pedaços de madeira espalhados de forma organizada no chão. Várias acumulam marcas de cupim e mofo, ou estão inchadas ou empenadas. À primeira vista elas parecem descarte, mas uma fileira de teclas pretas e brancas, algumas já amareladas, mostra que aquele objeto desconstruído no chão um dia já foi um piano.

Os homens são restauradores que conduzem a reconstituição do piano da marca Schiedmayer, com idade estimada de 120 anos, que saiu da Alemanha no começo do século 20 e chegou ao Brasil pelo porto de São Leopoldo, cidade-berço da imigração germânica no Rio Grande do Sul.

O instrumento é uma das principais atrações do Museu Visconde de São Leopoldo e foi destruído pela enchente histórica do rio dos Sinos na tragédia climática de maio de 2024.

Os fragmentos ficam distribuídos no chão para facilitar a observação do instrumento. Nnguém consegue mover um centímetro da base de aço maciço que funcionava como “esqueleto” do piano. “É uma das coisas mais pesadas que eu já vi na vida. Coitado de quem teve que tirar isso aqui do barco 100 anos atrás”, diz o restaurador Társis Gradaschi, que coordena os trabalhos em parceria com o irmão e sócio, Léo Giovani Gradaschi.

O museu de São Leopoldo foi danificado por quase 1,5 metro de água, mas reabriu menos de três meses depois da tragédia. O piano, em mau estado, mas posto de pé, ganhou local de destaque no acervo como símbolo de resiliência. Agora, sua nova casa por alguns meses será o ateliê de restauração.

As duas primeiras etapas de restauração já foram concluídas: a descontaminação, com aplicação de ozônio, que mata bactérias e microrganismos, e a descupinização.

Agora, começa a parte de estruturação das partes, com trabalho individual de lixação, pintura e outros acabamentos, processo que pode durar mais de duas semanas em uma única peça. Depois de tratar cada uma, começa a montagem. “É como se fossem 20 projetos separados e depois juntar”, diz Társis.

A harpa do piano —base onde as cordas das teclas são presas— quebrou em cinco partes diferentes e deve ser trocada para que ele volte a funcionar.

O trabalho vai incluir a confecção de peças do zero, já que muitas não têm reposição. “A preocupação é que a gente consiga refazer exatamente como era feito antigamente”, diz Társis.

O piano não é o único instrumento do acervo do museu de São Leopoldo que será restaurado no galpão. Dentre os objetos também estão um toca-discos antigo em formato de maleta, com gaveta própria para agulhas, e um instrumento de cordas semelhante a uma harpa, com pinturas de flores feitas à mão e detalhes de madrepérola.

Formado em restauração e patrimônio pela Ufpel (Universidade Federal de Pelotas), Társis já participou de projetos como o restauro de objetos destruídos no ataque aos Três Poderes em Brasília em 8 de janeiro de 2023.

Ele foi procurado por diferentes instituições após as enchentes para ajudar nos restauros de peças , mas quase negou o pedido do Museu Visconde de São Leopoldo porque estava envolvido com um desafio pessoal.

Quando a enchente do rio dos Sinos atingiu o bairro Mathias Velho, em Canoas, a única parte do ateliê antigo de Társis que não submergiu foi o topo do telhado.

Ao retornar, descobriu que a água destruiu um de seus maiores projetos, a restauração de um conjunto de dois dormitórios do Palácio Piratini, sede do governo do estado.

“Eu entreguei em novembro passado o que estava praticamente pronto em maio [de 2024]. Já tinha entregue uma metade do quarto e estava finalizando, faltavam os últimos ajustes, e aí veio a enchente e pegou tudo.”

Em seu ateliê novo, a poucas quadras do espaço antigo —que será demolido—, a água chegou a 1,35 metro.

A necessidade de focar na reconstrução dos objetos do Palácio Piratini quase impediu Társis de aceitar a proposta de revitalizar o piano, mas o apego emocional falou mais alto. “Nós somos leopoldenses. Esses itens aqui a gente via quando a gente era pirralho e ia no museu”, explica.

É nesse local que ele concluiu o restauro da mobília do governo estadual e, logo depois, iniciou o projeto de recuperar o piano, que é financiado com verba obtida pela Lei Aldir Blanc.

Ainda é difícil estipular uma data para o fim da restauração, mas a meta é que o piano esteja pronto para o dia 25 de julho deste ano.

Além do piano, há outras iniciativas semelhantes feitas pelo museu de São Leopoldo. Em breve, um altar de igreja e a porta de uma casa antiga, danificados pela enchente, serão restaurados no local. O espaço também conta com novas obras no acervo doadas pela comunidade para repor as perdas.

Essa é mais uma iniciativa de reaproximação da cidade com o museu. Logo após a reinauguração, em 2024, foi retomado um projeto para levar turmas de escolas municipais para conhecer o local. Em 2025, o espaço bateu o recorde de 12.500 visitantes.

“O foco é trazer gente”, diz o presidente do museu, Cassio Tagliari. “Não somos um museu que fica parado esperando o público. A gente entende a importância do nosso conteúdo e temos que ir buscar de forma ativa, batendo de porta em porta nas escolas.”

Para este ano, o carro-chefe é manter as visitas guiadas e ampliar a obtenção de recursos. “A gente já captou agora o suficiente para executar o básico do projeto de 2026, que é pelo menos pagar os ônibus para as escolas. Agora a ideia é ampliar mais a abrangência”, diz Tagliari.



Fonte ==> Folha SP

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