Um mês depois da operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro, a investigação da Promotoria ainda não conseguiu apontar quem são os autores das 122 mortes ocorridas em confronto na ação, cinco delas policiais. A gestão Claudio Castro classifica a operação como um sucesso.
A principal dificuldade até agora é vincular os mortos aos policiais, já que os registros de ocorrência não individualizam quais agentes são os responsáveis pelos confrontos. O Gaesp (Grupo de Atuação Especial em Segurança Pública), da promotoria estadual, tenta reconstituir o desenrolar da operação.
Outra questão em análise é entender o porquê de as equipes da Polícia Civil, que tinham a missão de cumprir mandados em endereços específicos, terem entrado na área de mata —movimento que levou o Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais da Polícia Militar) a abandonar sua função de contenção para atuar em uma operação de resgate. A mudança de rota intensificou o tiroteio que se estendeu por mais de 12 horas.
A investigação deverá ouvir mais policiais para prestar depoimentos. Entre eles, o secretário de Polícia Militar, coronel Marcelo Menezes, e agentes que participaram dos confrontos.
1. Qual era o objetivo da operação e o que foi cumprido?
A operação Contenção, realizada em conjunto pelas polícias Civil e Militar, tinha como objetivo cumprir 51 mandados de prisão e 145 de busca e apreensão. A meta era coletar dados para descapitalizar o Comando Vermelho, segundo o secretário de Segurança Pública, Victor Santos. Dos alvos de prisão, apenas quatro foram detidos, e outros dois já estavam presos. Os demais não foram encontrados. No total, 34 mandados foram cumpridos. Os 117 mortos não eram investigados na ação penal que deu origem à operação.
2. Qual a base investigativa que deu origem à operação?
A operação foi precedida por uma investigação de um ano conduzida pela DRE (Delegacia de Repressão a Entorpecentes), com acompanhamento da Promotoria. A apuração utilizou dados telemáticos de redes wi-fi e de celulares para mapear e georreferenciar 67 integrantes da facção nos complexos da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio.
3. Qual era a estratégia central de incursão e o que era o “muro do Bope”?
Baseada em uma operação anterior, realizada em dezembro de 2024, na qual criminosos usaram a parte alta para atacar as tropas posicionadas abaixo, a nova ação tinha como premissa a tomada e o controle da Pedra do Sapo e da região de mata pela polícia. O chamado “muro do Bope” consistia na formação de um perímetro de policiais militares na serra da Misericórdia para conter criminosos na mata, afastando eventuais confrontos das casas dos moradores. Enquanto isso, agentes da Polícia Civil cumpririam mandados nas áreas edificadas.
4. O que fugiu ao planejamento?
Segundo depoimento do comandante do Bope, coronel Marcelo Corbage, a operação passou a ser de resgate após agentes da Polícia Civil serem baleados na região da mata, conhecida como Vacaria. A Promotoria ainda não conseguiu esclarecer por que os agentes se deslocaram para o local, já que deveriam cumprir mandados. Em outro depoimento, o delegado André Neves confirmou que policiais civis não deveriam entrar na mata, mas supôs que eles agiram assim por instinto ou após avistar algum suspeito. No total, cinco policiais morreram e outros 14 ficaram feridos.
5. Quanto tempo durou o confronto?
A operação começou às 5h do dia 28 de outubro e a última equipe a deixar o local foi a do Bope, às 22h. Agentes ouvidos pelo Ministério Público afirmaram que não houve estabilização do terreno e que os tiroteios não cessaram durante toda a ação.
6. Houve mortes antes da incursão das polícias?
Sim. Por volta de 1h, traficantes tentaram fugir do complexo da Penha após receberem informações de que uma operação ocorreria. Nesse confronto, dois foram mortos, entre eles o líder do Comando Vermelho no Espírito Santo. O secretário Victor Santos afirmou que a movimentação policial de preparação pode ter alertado os criminosos, mas negou que tenha ocorrido vazamento qualificado.
7. Quantas mortes ocorreram?
No total, foram 122 mortes em confronto: 117 suspeitos e cinco policiais. Durante a operação, 118 armas foram apreendidas, sendo 91 fuzis. Nenhum dos mortos pertencia ao grupo ligado a Doca e Pezão, líderes do Comando Vermelho na Penha e no Alemão, respectivamente.
8. Qual a principal dificuldade de investigação?
Até o momento, a Promotoria não conseguiu vincular a totalidade dos mortos aos policiais civis e militares que participaram dos confrontos. O delegado da Divisão de Homicídios, Alexandre Herdy, relatou que agentes deixavam corpos nos hospitais sem prestar informações. Em um boletim de ocorrência, o Bope registrou ter encontrado 32 mortos espalhados pela mata, sem identificar autorias.
9. Como foi a retirada dos corpos?
Além dos corpos retirados pelos policiais no primeiro dia e levados a hospitais, moradores recolheram cerca de 60 mortos da mata durante a madrugada que se seguiu ao fim da operação. Os corpos foram deixados lado a lado na praça São Lucas. As roupas dos suspeitos foram rasgadas para facilitar o reconhecimento por familiares, em sua maioria mulheres. Muitos dos mortos usavam roupas camufladas, e a polícia afirmou que a retirada das peças configuraria fraude processual.
10. Por que a polícia não retirou os corpos da mata?
Segundo a polícia, o terreno era instável e havia tiroteios constantes, o que impediu a realização da perícia. Com a chegada da noite, não era mais possível visualizar os corpos na mata. Quando os policiais souberam que moradores estavam fazendo a retirada, decidiram não enviar novo efetivo para evitar novos confrontos e possíveis ferimentos a inocentes.
11. O que a perícia sobre os corpos apontou?
O Ministério Público do Rio afirmou ter identificado dois casos de “lesões atípicas” entre os mortos analisados. Em um deles, havia característica de disparo de arma de fogo a curta distância. No outro, o corpo apresentava lesão por arma de fogo disparada à distância e também ferimento por decapitação, “produzido por instrumento cortante ou corto-contundente”.
O governador Cláudio Castro disse que “ninguém acredita que o policial tenha cortado a cabeça do bandido. Eu acredito que os criminosos decapitaram ele para jogar na conta do Estado”. O morto decapitado, Yago Ravel Rodrigues Rosário, 19, não tinha antecedentes criminais, mas havia fotos suas armado nas redes sociais.
12. As polícias utilizaram câmeras?
O governo fluminense disse ao STF que 569 câmeras corporais —62 da Polícia Civil e 507 da PM— foram usadas na megaoperação. O número representa 23% dos 2.500 policiais mobilizados. Segundo o gestão Castro, falhas técnicas impediram o uso de câmeras pelo efetivo total. Ainda assim, a ausência de equipamentos já havia sido prevista no planejamento: a Core (Coordenadoria de Recursos Especiais) dispõe de 100 câmeras, mas mobilizou 128 agentes. O Bope informou que 77 dos 215 policiais envolvidos na operação usaram câmeras corporais.
Fonte ==> Folha SP
