Taiwan sofre nova pressão de Trump e quer outros mercados – 02/06/2025 – Mercado

Um homem está concentrado em seu trabalho em uma oficina, utilizando uma ferramenta para realizar um ajuste em uma peça metálica. Ele está sob uma luz intensa que ilumina sua área de trabalho, e seu rosto demonstra foco e dedicação. O ambiente ao fundo é desfocado, mas sugere um espaço de trabalho industrial.

A primeira semana de abril foi agitada para o governo de Taiwan. No mesmo dia em que acompanhava a China simular uma invasão à ilha usando munição real, Taipé via seu maior parceiro comercial, os Estados Unidos, impor tarifas de 32% sobre todos os seus produtos.

Às vésperas de um feriado nacional prolongado, integrantes de ministérios desmarcaram suas folgas e começaram a trabalhar em estratégias para lidar com a pressão —não a de Pequim, mas a de Washington.

“Ninguém descansou bem, porque o famoso presidente Trump publicou uma série de tarifas e isso afetou muito a agenda dos funcionários”, disse a vice-ministra do Conselho de Desenvolvimento Nacional de Taiwan, Shien-Quey Kao, em encontro com jornalistas cinco dias após o chamado Dia da Libertação.

Número dois do órgão que planeja as políticas de desenvolvimento da ilha, a vice-ministra afirmou que a estratégia do governo para lidar com o tema passava por orientar empresas nacionais a procurarem outros mercados para seus produtos.

“O governo [taiwanês] começará a trabalhar na negociação com os EUA e ao mesmo tempo implementará uma série de apoios às indústrias locais. No entanto, também daremos uma orientação a essas indústrias para tentarem buscar outros mercados.”

Essa não é a primeira vez que Trump força uma correção de rota econômica em Taiwan. Em seu primeiro mandato na Casa Branca, o presidente americano inaugurou uma guerra comercial com a China, impondo tarifas e barreiras comerciais como forma de atacar o que chamava de práticas desleais e roubo de propriedade intelectual.

No meio desse conflito entre Washington e Pequim —que começou por volta de 2018—, Taiwan se tornou alvo indireto. Isso porque, apesar das animosidades entre o regime chinês e o governo taiwanês, as relações econômicas através do estreito são intensas.

Naquela época, diversas empresas de Taiwan aproveitavam o menor custo de mão de obra na China continental para instalar suas fábricas e depois exportar produtos para outros países, como lembrou Shien-Quey.

Segundo a vice-ministra, o governo sugeriu então que as companhias movessem suas fábricas para outros lugares a fim de não se tornarem vítimas do conflito entre EUA e China, o que levou indústrias taiwanesas para o Vietnã, Indonésia e outros países do sudeste asiático que agora integram a lista de tarifaço de Trump.

“Como Trump voltou a ser presidente e voltou a colocar obstáculos para os fabricantes, de fato estamos pensando em sugerir que movam suas fábricas para outros lugares”, afirmou Shien-Quey. “Pode ser que movam suas instalações para outro continente”, acrescentou.

Taiwan é uma ilha com 23 milhões de habitantes e território pouco maior que o estado do Rio de Janeiro. Em 70 anos, passou de uma sociedade agrícola para uma potência industrial, principalmente na cadeia de suprimentos tecnológicos. Entre 2017 e 2023, cresceu em média 3,37%, sendo que em 2024 o PIB (Produto Interno Bruto) subiu 4,2%.

Hoje, é um gigante dos chips semicondutores —considerados o cérebro da inteligência artificial e de quase toda tecnologia moderna.

Sua economia, porém, é bastante dependente de comércio exterior. Importações e exportações somadas representam mais de 100% do PIB de Taiwan.

Os EUA são o maior destino das exportações taiwanesas. Em 2024, foram mais de US$ 111 bilhões em mercadorias, representando 23% do total das exportações —a maioria computadores, acessórios de informática e semicondutores. Ou seja, uma redução nesse fluxo provocada pelas tarifas de Trump traria um impacto forte na economia de Taiwan.

Em artigo publicado na Bloomberg em 9 de abril —uma semana após o Dia da Libertação—, o presidente de Taiwan, Lai Ching-te, destacou a longeva parceria econômica com os EUA.

“Nosso vínculo é forjado por uma crença inabalável na liberdade. Por décadas, nossas duas economias se uniram para impedir o expansionismo comunista”, escreveu.

Lai também destacou que o sucesso da economia de Taiwan no longo prazo se baseia em relações comerciais justas, recíprocas e mutuamente benéficas. Encerrou o artigo dizendo estar confiante de que os interesses econômicos e de segurança compartilhados entre Taiwan e EUA superarão a turbulência comercial.

No começo de maio, o governo taiwanês disse ter concluído a primeira rodada de negociações tarifárias com os EUA, descrevendo o clima das conversas como “franco e cordial”. Posteriormente, o presidente afirmou que as tensões comerciais são apenas “atritos entre amigos”, em uma nova demonstração de otimismo com as conversas em andamento.

O repórter viajou a convite do Ministério das Relações Exteriores de Taiwan



Fonte ==> Folha SP

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