O Partido Comunista, que governa o Vietnã, deu início ao seu conclave quinquenal para selecionar a nova liderança de uma das economias que mais crescem no mundo, enquanto navega por uma guerra comercial global e reformas domésticas abrangentes.
O congresso de sete dias começou nesta segunda-feira (19), em Hanói, onde 1.600 delegados do partido escolherão um comitê central e político, além de definir metas econômicas fundamentais para o país.
O evento ocorre em um momento crucial para o Vietnã, dependente de exportações. A nação é uma potência manufatureira asiática que enfrenta tarifas recentemente impostas pelos Estados Unidos de 20% e uma população que envelhece rapidamente, enquanto busca amplas reformas administrativa e econômica.
O congresso do partido é “uma transição de liderança que ocorre a cada cinco anos no Vietnã, e também haverá alguns sinais sobre mudanças políticas”, disse Nguyen Khac Giang, pesquisador visitante do Instituto Iseas-Yusof Ishak, de Singapura.
“Este ano é muito crucial, porque vimos tantas mudanças em termos de tarifas, em termos de sistemas globais. Eles querem mudar a direção da economia, afastando-se da economia liderada pela exportação para uma resiliência doméstica”, acrescentou.
Liderando essa mudança está To Lam, que se tornou o chefe do Partido Comunista —a posição mais poderosa do Vietnã— em agosto de 2024, após a morte de seu antecessor Nguyen Phu Trong. Ele agora busca um mandato completo de cinco anos no Congresso.
Ele lançou uma reforma administrativa no ano passado, fundindo províncias e reduzindo o número de ministérios e o tamanho do governo. Milhares perderam seus empregos com essa reestruturação.
Na frente econômica, Lam lançou um plano para tornar o setor privado a “força mais importante” do país, para impulsionar a economia doméstica e reduzir a dependência do Vietnã de investimentos estrangeiros diretos e, eventualmente, do comércio.
Lam e o partido governante esperam que essas reformas expansivas ajudem o Vietnã a alcançar seu ambicioso objetivo de se tornar um país desenvolvido até 2045. Hanói também estabeleceu como meta um crescimento econômico de 10% neste ano, após um crescimento de 8% em 2025.
O Vietnã tornou-se um ator importante nas cadeias de suprimentos globais nos últimos anos, à medida que os fabricantes transferiram a produção para lá para se distanciar da China em meio à disputa comercial global com os EUA.
Washington responde por quase um terço das exportações de Hanói. As tarifas de Trump no ano passado, no entanto, deram um novo impulso ao país, que depende do comércio, para buscar um modelo econômico alternativo.
“O Vietnã precisa adicionar algo às suas exportações, além de sua mão de obra e da utilização de investimentos estrangeiros. Portanto, está buscando uma mudança massiva e importante em toda a economia e sociedade”, disse Carl Thayer, professor emérito da Universidade de New South Wales em Canberra (Austrália), e autor de vários livros sobre o Vietnã.
Thayer disse que as políticas de Lam têm amplo apoio no partido, que discutirá e aprovará metas socioeconômicas no Congresso desta semana.
O Vietnã tem um sistema de liderança coletiva de quatro pessoas, que compreende o chefe do partido, o presidente, o primeiro-ministro e o presidente da Assembleia Nacional. Relatórios da mídia sugerem que Lam buscará a presidência, ao mesmo tempo que manterá o cargo de chefe do partido.
Analistas dizem que Lam já consolidou poder nos últimos anos. Como ministro da Segurança Pública até sua ascensão ao cargo máximo em 2024, ele liderou a repressão anticorrupção do país, que alguns viram como uma tentativa de consolidar poder e neutralizar rivais.
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A repressão desencadeou uma rara instabilidade política no Vietnã, com centenas de funcionários, incluindo alguns da alta liderança do partido, sendo presos.
Se Lam conseguir se tornar presidente, ele teria que fazer concessões à ala mais conservadora do Partido Comunista, disse Giang, do Instituto Iseas. “De qualquer forma, não acho que o sistema de liderança coletiva no Vietnã sucumbirá à tentativa de To Lam de consolidar o poder sem qualquer tipo de resistência”, afirmou.
Alguns investidores receberiam bem uma consolidação dos quatro principais cargos.
“O Vietnã agora é administrado como uma espécie de parceria, e uma concentração de funções criaria a noção de um líder mais próximo de um CEO. E isso talvez não seja algo que as pessoas considerariam muito negativo”, disse Dominic Scriven, fundador e presidente da Dragon Capital, uma empresa de gestão de ativos focada no Vietnã.
“A incerteza vai muito contra os interesses das ambições [econômicas] do Vietnã. Então, acho que haverá um grande incentivo para evitar a incerteza”, acrescentou Scriven.
Fonte ==> Folha SP
