Volta às aulas: como saber se uma escola é inclusiva? – 27/01/2026 – Educação

Sete pessoas de diferentes idades pulam simultaneamente em um espaço interno com paredes claras e portas vermelhas ao fundo. O grupo está alinhado em uma fileira, com expressões de concentração e movimento visíveis.

A legislação brasileira determina que toda escola em território nacional tem a obrigação de ter portas abertas a todo tipo de aluno, independentemente de raça, condição física, sensorial ou intelectual, origem e demais marcadores de pluralidade. Especialistas apontam, porém, que inclusão precisa ser vista para além da oferta de um serviço escolar ou compromisso legal, mas como um pacto social que promove benefícios à coletividade.

Escolher um colégio que prega diversidade e inclusão passa pela observação de práticas bem definidas, como protocolo antidiscriminação —para o combate de racismo e bullying, por exemplo—, avaliações múltiplas e flexíveis, apoio e formação contínua de professores, gestão de conflitos e currículo variado, que abriga autores diversos.

Para Beatriz Benedito, analista de políticas públicas do Instituto Alana, conviver com a diferença desde cedo gera opiniões menos preconceituosas e maior receptividade às singularidades.

Para ela, uma escola inclusiva ajuda a ampliar a cognição social. Os alunos desenvolvem maior conforto e consciência em relação às diferenças humanas, “tornando-se adultos mais empáticos e preparados para uma sociedade plural”.

Beatriz cita ainda a qualidade do ensino em um colégio mais inclusivo. “A necessidade de incluir um aluno com deficiência exige que o professor seja mais criativo e utilize o Desenho Universal para a Aprendizagem [estratégia pedagógica que rompe com currículos rígidos e homogêneos], o que acaba beneficiando o aprendizado de toda a turma, inclusive daqueles considerados ‘na média'”.

Kiusam Oliveira, doutora em educação pela USP, especialista em relações étnico-raciais e escritora voltada à educação antirracista, faz um alerta aos pais para que não caiam em discursos de marketing de diversidade vazios e avaliem se há práticas estruturais efetivas nas escolas.

“Política de diversidade é estrutura, portanto, passível de ser comprovada. Solicite os documentos institucionais com as diretrizes antidiscriminatórias escritas, comprove se há investimento em formação continuada dos professores, escuta das famílias e dos estudantes quando há denúncia de racismo“, afirma.

Ainda de acordo com Kiusan, “diversidade sem equidade, sem inclusão, sem justiça social é também violência e discriminação”.

No mesmo caminho vai Carola Videira, fundadora da Turma do Jiló, organização que atua pela educação para a diversidade. “Uma escola inclusiva não é aquela que aceita a matrícula, é a que tem de fato um método. Ela sabe falar sobre adaptação de percurso, de avaliação formativa, de individualidade, de diferentes formas de demonstrar aprendizagem.”

Segundo Carola, bandeiras vermelhas devem aparecer quando o colégio adota discursos vazios. “É preciso cuidado quando dizem: ‘aqui tratamos todos igual’. Isso, quase sempre, é contrário de inclusão. Os pais precisam pedir exemplos concretos de adaptação e não de apoios e promessas. Não se mede inclusão no discurso. O plano tem que ser real, possível. As estratégias precisam ser claras.”

Uma questão frequentemente apontada pelos especialistas é a chamada patologização da criança.

Na visão de Mariana Rosa, conselheira do Conselho Nacional de Educação e mãe da Alice, 12, uma criança com deficiência, nesses casos “a pergunta muda de ‘como essa criança aprende?’ para ‘qual é o problema dessa criança?’. A resposta se torna justificativa para a segregação”, diz.

Escolas inclusivas, no entendimento das especialistas, reconhecem que o direito à diferença é parte do direito à educação e que a normalidade é um conceito que ignora ritmos de aprendizagem, neurodivergências e histórias de vida.

“A escola inclusiva não é um serviço; é um pacto social. É o modo democrático de fazer escola, onde o direito à diferença é constitutivo do direito à educação”, declara Mariana.

As quatro especialistas convergem: ações coletivas são fundamentais para práticas inclusivas e para garantir um ambiente diverso, seguro e acolhedor.

“Escolas inclusivas entendem que a educação é um processo compartilhado e, por isso, mantêm diálogo frequente com responsáveis, convidando-os a participar do planejamento pedagógico e da reflexão sobre o desenvolvimento da criança”, diz Beatriz Benedito.

Kiusam Oliveira aponta a escuta ativa de denúncias de exclusão ou racismo das famílias como fundamental para uma estrutura inclusiva na escola.

Medidas como a criação de coletivos e núcleos temáticos para discussões permanentes de temas do universo da inclusão, a utilização de mecanismos de inteligência artificial para otimizar práticas e adoção de métodos como linguagem simples também podem ser indicativos de um ambiente escolar inclusivo.

Edna Maia, criadora de uma plataforma que reúne tecnologia, linguagem simples e recursos pedagógicos, a Maia, afirma que inclusão não está só no discurso. “Ela aparece quando o estudante tem acesso ao mesmo conteúdo que os colegas, com adaptações e acessibilidades que respeitam seu ritmo e perfil de aprendizagem.”


Como saber se uma escola é realmente inclusiva

Documentação e estrutura

  • Solicite os documentos institucionais com diretrizes antidiscriminatórias escritas
  • Verifique se existe protocolo antidiscriminação para combate de racismo e bullying
  • Comprove se há investimento em formação continuada dos professores

Práticas pedagógicas

  • Confirme a existência de avaliações múltiplas e flexíveis
  • Pergunte sobre adaptação de percurso e avaliação formativa
  • Verifique se a escola utiliza o Desenho Universal para a Aprendizagem
  • Peça exemplos concretos de adaptação (não apenas apoios e promessas)
  • Observe se o currículo é variado e abriga autores diversos

Gestão e comunicação

  • Verifique se há gestão de conflitos estruturada
  • Confirme se existe escuta ativa das famílias e estudantes quando há denúncias de racismo ou exclusão
  • Observe se há diálogo frequente com responsáveis sobre o planejamento pedagógico

Indicadores positivos

  • Existência de coletivos e núcleos temáticos para discussões permanentes sobre inclusão
  • Estudantes têm acesso ao mesmo conteúdo que os colegas, com adaptações que respeitam seu ritmo e perfil de aprendizagem



Fonte ==> Folha SP

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