O ano do turbulento retorno de Donald Trump à Casa Branca viu os ponteiros do Relógio do Juízo Final, que já estavam no pior nível de sua história, se aproximarem ainda mais da meia-noite que simboliza o fim do mundo como o conhecemos.
Na sua edição 2026, lançada pela ONG americana Boletim dos Cientistas Atômicos nesta terça-feira (27), os ponteiros foram de 89 para 85 segundos antes da fatídica hora.
“O Relógio é uma metáfora, mas também um chamado à ação”, disse a presidente do Boletim, Alexandra Bell. “Não houve avanços suficientes, e tivemos de mover o Relógio”, afirmou no evento de lançamento do instrumento.
Os especialistas que elaboram o Relógio criticaram diversos aspectos da administração Trump, mas também citam o comportamento agressivo de potências como a Rússia e a China, além dos riscos decorrentes de confronto entre países com armas nucleares.
Apesar de o republicano dizer que acabou com sete guerras, algo longe da realidade, e de ter pleiteado o Nobel da Paz, o mundo ficou mais instável em seu segundo mandato, marcado por voluntarismo e intervencionismo extremos.
Se a guerra na Faixa de Gaza acabou com o território em ruínas, ele bombardeou o programa nuclear do Irã e ameaça repetir a dose de forma mais ampla. Um dos poucos acertos genuínos, um acordo entre os beligerantes Azerbaijão e Armênia, contrasta no espaço ex-soviético com o fracasso em acabar rapidamente com o conflito na Ucrânia.
No mais, Trump minou o sistema multilateral em que o mundo no qual o Relógio nasceu se baseava. Retirou-se de dezenas de organismos internacionais, boa parte dele da cada dia mais obsoleta ONU, e atacou diretamente aliados na Europa —a ponto de ameaçar tomar à força a Groenlândia da Dinamarca.
Por fim, elaborou uma Estratégia de Segurança Nacional, agora amparada pela regulamentação proposta pelo Departamento de Defesa, que ele chama de pasta da Guerra. O texto prevê a recriação de zona de influência explícita na América Latina, como Nicolás Maduro descobriu na madrugada do dia 3 deste mês.
Não apenas isso. “Essa administração cortou fundos para usarmos a inteligência artificial de forma a nos proteger”, disse Asha George, uma das especialistas que elaborou o Relógio deste ano. Convidada a falar no lançamento, a jornalista filipina Maria Ressa, Nobel da Paz em 2021, enfatizou o risco do “apocalipse informativo” em curso.
O planeta continuou em convulsão, com os 36 conflitos ativos registrados pelo londrino Instituto Internacional de Estudos Estratégicos.
Israel guerreou em Gaza, no Líbano e no Iêmen, e protagonizou uma troca violenta de ataques com o Irã. Os embates africanos seguem intensos, os rivais nucleares Índia e Paquistão lutaram brevemente e a tensão segue alta na península coreana. A Europa se remilitariza, o que no passado levou a duas guerras mundiais.
“Líderes falam abertamente sobre o uso de armas nucleares, Estados armados com elas se enfrentam”, disse Joe Wolfstahl, membro do comitê do Boletim.
Na semana que vem, salvo alguma mudança de última hora, Trump dará mais argumentos para o painel de 16 cientistas que decidem a hora do Relógio no Boletim, um ente fundado em 1945 por gente envolvida na aurora da Era Atômica: Albert Einstein e J. Robert Oppenheimer à frente.
“Pela primeira vez em 50 anos, não teremos para evitar uma corrida armamentista sem controle”, disse o especialista Daniel Holz.
No dia 5 de fevereiro, expira o Novo Start, o último tratado de controle de armas nucleares vigente entre Washington e Moscou, donas de 90% das ogivas atômicas no planeta. Esses armamentos sempre foram o centro das preocupações do Boletim.
A partir de 2007, a mudança climática passou a integrar o rol oficial de temas que impactam o ponteiro apocalíptico. Nos anos que se seguiram, a disseminação de novos vírus na esteira da pandemia e a ascensão descontrolada da IA (inteligência artificial) também passaram a ser analisados.
“Em 2025, nós fracassamos em conter as ameaças em todas as áreas”, afirmou Steve Fetter, membro do comitê. “O uso de inteligência artificial para espalhar desinformação é adotado até pelo presidente Trump”, disse.
Os eventos analisados são aqueles ocorridos no ano anterior à mudança do Relógio. Assim, os 90 segundos de 2023 diziam respeito ao choque da invasão russa da Ucrânia, ocorrida em 24 de fevereiro de 2022.
O mundo nunca foi tão perigoso, na análise do prestigioso Boletim. Antes da fase atual, o mais próximo do fim simbólico que o Relógio havia apontado foram dois minutos para a meia-noite em 1953, durante tensões na Europa e com a Guerra da Coreia em curso.
Já a crise mais conhecida da Guerra Fria, a dos mísseis soviéticos em Cuba de 1962, colocou os ponteiros a 12 minutos do fim, um dos mais seguros níveis, porque o Boletim entendeu que ela fez as então superpotências melhorarem seu grau de comunicação.
Em 1991, com o fim da União Soviética à vista, o Relógio marcou seu horário mais confortável: 17 minutos para a meia-noite.
Fonte ==> Folha SP
