A melhor obra que um gestor público pode fazer – 21/05/2026 – Jorge Abrahão

A melhor obra que um gestor público pode fazer - 21/05/2026 - Jorge Abrahão

A desigualdade é um problema que se manifesta nas várias dimensões da vida das pessoas. Começa na enorme concentração de renda que separa ricos e pobres, atravessa o lugar onde nascemos e vivemos, e estende-se ao acesso à saúde e à educação de qualidade, a bens e serviços públicos e particulares, ao lazer e ao tempo que dedicamos à família e aos amigos.

Recortes de raça e gênero também são determinantes. Sabemos que a cor da pele define o tipo de tratamento nas interações cotidianas, da mesma forma que o gênero é fator preponderante para a definição de salários em uma empresa, para ficar nos exemplos mais emblemáticos. As mulheres ainda recebem 20% a menos que os homens no mesmo cargo e mais da metade dos negros já sofreu algum tipo de preconceito em shoppings ou no ambiente de trabalho. Não por acaso, a desigualdade é um mal que está na raiz dos grandes desafios que enfrentamos nas cidades brasileiras e no próprio país.

Há 20 anos, a Rede Nossa São Paulo e o Instituto Cidades Sustentáveis se debruçam sobre o assunto, sempre buscando de forma propositiva as soluções possíveis para reduzir a distância que separa milhões de pessoas de alguns poucos afortunados. Nesse período, abordamos a desigualdade nas cidades de várias maneiras, já que ela é resultado de ação pública deliberada e, por isto, passível de reversão.

Existe, por exemplo, um indicador que sintetiza e, ao mesmo tempo, diz muito sobre o assunto. O cálculo é relativamente simples: soma-se a idade das pessoas que faleceram em um determinado distrito, bairro ou cidade e divide-se o resultado pelo número total de óbitos, no período de 12 meses. A isso demos o nome de “idade média ao morrer”, um indicador multicausal que se relaciona com diversos fatores, como mortalidade infantil, condições de saneamento básico e habitação, homicídios de jovens, acesso à informação, à saúde e à educação.

Vale dizer que a idade média ao morrer é diferente da expectativa de vida, uma vez que se baseia em dados passados, naquilo que já aconteceu —não é, portanto, uma projeção para o futuro elaborada com base em uma série de fatores que envolvem indicadores sociais, sanitários e territoriais, entre outros.

Esse trabalho começou na capital paulista com o Mapa da Desigualdade de São Paulo e, hoje, estende-se a diferentes regiões geográficas do país, por meio do Índice de Desenvolvimento Sustentável das Cidades – Brasil (IDSC-BR), no qual reunimos cem indicadores temáticos de todos os municípios do país. Dessa forma, podemos monitorar os dados em nível nacional, estadual e nas diferentes regiões e biomas brasileiros.

De modo geral, as análises mostram que a desigualdade que aflige o país como um todo se reflete dentro dos estados e, invariavelmente, dentro da mesma cidade. Basta percorrer minimamente qualquer município para perceber que a riqueza e a pobreza estão a um passo de distância.

No entanto, a conclusão que mais salta aos olhos é a persistência do problema. Na cidade de São Paulo, moradores da periferia vivem 20 anos a menos do que os que vivem em distritos mais ricos; a desigualdade entre o pior e o melhor distrito é a mesma desde 2006. Nessas duas décadas, os mesmos bairros aparecem sempre nas piores e nas melhores posições, o que atesta a incapacidade da gestão pública de enfrentar tema tão importante, que mexe com a vida da população. Eventualmente, eles se revezam e trocam de lugar, mas se mantêm no topo (ou no fim) da lista.

Os números ajudam a ilustrar essa realidade. A última edição do Mapa da Desigualdade de São Paulo mostrou que, no Alto de Pinheiros, vive-se até os 82 anos, em média. Em Cidade Tiradentes, até os 62. Essa mesma diferença se observa no estado de São Paulo. A 550 quilômetros da capital, na pequena e distante Pedranópolis, a idade média ao morrer é de 81 anos. A cidade tem o melhor valor neste indicador dentre os 645 municípios paulistas. Na outra ponta da lista, empatadas, Francisco Morato e Nova Guataporanga apresentam o pior valor: em ambas, vive-se até os 60,8 anos, em média.

Não é difícil imaginar que essa desigualdade também ocorre entre as capitais do país, entre os estados e as regiões. Os dados mostram isso há décadas. Daí vem a pergunta: o que fazer para mudar esse cenário?

A resposta está em praticamente todas as áreas de atuação da administração pública. É preciso priorizar e investir em políticas públicas que melhorem a qualidade de vida das pessoas, o que, na prática, significa proporcionar acesso à saúde e à educação pública de qualidade, à habitação, ao saneamento, à segurança pública, à geração de empregos decentes e a espaços verdes e de lazer.

Reduzir a diferença da idade média ao morrer à metade durante uma gestão é a maior obra que um gestor público pode fazer, considerando a necessidade de ações em questões estruturantes com impacto direto na qualidade de vida das pessoas.

A tarefa não é fácil. Resolver um problema secular e estrutural em quatro anos de mandato é um desafio e tanto, mas é preciso enfrentá-lo e priorizá-lo. E dar o primeiro passo. Para muita gente, isso pode garantir mais do que alguns anos de vida. Pode garantir uma vida melhor e mais digna.



Fonte ==> Folha SP

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