A revolta dos caranguejos – HOJE BAHIA

A revolta dos caranguejos - HOJE BAHIA

A Associação dos Caranguejos, Guaiamuns e Grauçás da Baía de Todos-os-Santos entrou com uma ação por danos morais contra a Prefeitura de Salvador.

Motivo? Está explicitado em Nota Pública, da qual transcrevemos trecho a seguir:

“Há séculos somos acusados de andar para trás. E, além de ser uma aleivosia, provavelmente criada com objetivos eleitoreiros, a acusação não está subsidiada por provas materiais e nem em inquérito policial, tornando-se, assim inócua”.

O presidente da entidade – um respeitável crustáceo da Baía de Todos-os-Santos – concedeu entrevista.

– Nunca andamos para trás. Andamos de lado. Quem anda para trás são vocês humanos.

Difícil rebater.

Basta acompanhar uma obra pública em Salvador.

Ela começa numa gestão.

É interrompida na seguinte.

É reinaugurada na terceira.

Na quarta, descobre-se que a inauguração anterior foi apenas uma pré-inauguração da futura inauguração definitiva.

Na quinta, colocam uma placa dizendo que tudo aquilo faz parte do planejamento estratégico.

Planejamento estratégico é uma expressão interessante. Serve para explicar por que nada acontece hoje, mas tudo acontecerá depois de amanhã. O curioso é que esse “depois de amanhã” nunca chega. Deve morar em Lauro de Freitas e vem a pé.

Enquanto isso, a cidade vai desenvolvendo uma habilidade rara: permanecer exatamente onde está com um enorme sentimento de movimento.

É uma espécie de esteira ergométrica urbana.

Todo mundo faz força.

Todo mundo transpira.

Todo mundo faz discurso.

No final do exercício, ninguém saiu do lugar.

O trânsito anda.

Para.

Anda.

Para.

O filósofo Zé Peitinho diz que Salvador inventou o “congestionamento contemplativo”. O motorista não está parado. Está admirando a paisagem. Afinal, se vai levar uma hora para percorrer dois quilômetros, convém aproveitar a vista da Baía de Todos-os-Santos.

A burocracia também merece um monumento.

Você entra numa repartição para resolver um problema.

Recebe uma senha.

Depois recebe outra senha para validar a primeira senha.

Em seguida é informado de que a senha correta será emitida quando o sistema voltar.

Ninguém sabe quando o sistema voltará.

Mas todos têm esperança.

Esperança, aliás, é o combustível oficial da cidade.

Funciona melhor do que gasolina.

É renovável.

E infinita.

O cidadão acorda acreditando que agora vai.

O ônibus acredita.

O comerciante acredita.

O turista acredita.

Até o buraco da rua acredita que será tapado.

No dia seguinte, todos continuam acreditando.

Os únicos que não acreditam em mais nada são os caranguejos.

Eles cansaram de levar a culpa.

Reuniram-se no manguezal e decidiram publicar a aludida nota oficial:

“Repudiamos qualquer comparação entre nossa locomoção e a administração humana. Nós sabemos exatamente para onde estamos indo”. Diz trecho da nota.

É uma nota curta.

Mas devastadora.

Talvez o verdadeiro caranguejismo nunca tenha sido andar de lado.

Talvez seja essa extraordinária capacidade humana de transformar a imobilidade em discurso, o atraso em prudência, a demora em planejamento e a promessa em método de governo.

O caranguejo, pelo menos, chega à maré.

Nós, às vezes, passamos a vida inteira discutindo o melhor caminho para chegar à esquina.



Fonte ==> Bahia Notícias

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